Review: monera

Não postei ontem, segunda-feira, e eu sei que todas as SETE visitas de vocês, meus milhares de fãs, foram cheias de esperança e frustração. Pra compensar o harm done, vou postar altas coisas legais hoje, cheias de putaria e abominação.

Mas, pra começar, um pouco de romantismo.

Hoje falaremos sobre um clássico do webcomic brasileiro, tão engraçado quanto bonito, tão singelo quanto memético.

O quadrinho em questão é um exemplar da seqüência de 2008 de cersibon.

Se você não sabe o que é cersibon, pelo amor de Deus, pode ir tomando no cu. Se você sabe, mas na verdade não sabe, também. Se você não sabe, mas quando eu começar a falar vai dizer “Ahhm, sei, acho que sei, sie sei seis eis eis eis” então, calma! CALMA!

A tirinha conta a breve história de um jovem esteta que é arrebatado pela beleza deslumbrante de uma certa morena. A morena, então, suplica por mais declarações, mais amor em forma de palavras, mais poesia.

Leiamos MONERA, de cersibon

monera, por cersibon

Nos três quadros que compõem a tirinha, a ação é quase nenhuma. A morena, inclusive, se afasta do jovem esteta, do primeiro quadrinho pro segundo. Mas permanece parada no terceiro, cativada pelo jovem.

O esteta, ao dar de cara com uma morena maravilhosa, produzida, exemplar perfeito da natureza, não consegue segurar seus sentimentos e transborda:

qq isos morena

Aqui notamos o tiopês. O tiopês, pra quem não sabe, é uma linguagem de internet que explora typos. Uma espécie de desdobramento intelectual do miguxês. Um descontrole e desprendimento pelas normas que geralmente dão ao tiopês um caráter extático, elevado – seja pelo sofrimento do dia-a-dia, seja pelo brilho da beleza que inebria o homem.

E este último é o caso de monera.

O jovem esteta vê a morena deslumbrante e diz “qq isos morena”. Apesar do título da tirinha ser monera, o rapaz pronuncia a palavra corretamente, mantendo a solidez (em meio à loucura que o arrebata) do seu alvo, da sua razão de viver.

No quadrinho seguinte, já é mais eloquente:

qro ir paond tus curva ssinuosa mrelva

Aqui já é a declaração desesperada. Demonstrando toda a exasperação e urgência que um coração apaixonado tem em comunicar seu amor, o jovem esteta atropela idéias, as palavras se fundem umas nas outras, como numa torrente de paixão.

“Quero ir pra onde tuas curvas sinuosas me levarem”, é o que o jovem presumivelmente diz. A grafia da última palavra, no entanto, é ambígua o suficiente para abrir caminho para outras interpretações. E aí está a beleza do tiopês. No tiopês, nada é preciso, não há certo ou errado, as palavras só funcionam em conjunto. Uma frase é a manifestação de um sentimento. Forma e conteúdo, apresentados de forma dicotômica, aqui se invertem em relação à tendência que domina a cultura popular. A forma se dissolve ante o conteúdo, que transborda além do que se pode ver. As representações humanas toscas apenas reforçam essa dissolução do formal e real, levando o leitor a um mundo idílico, de um amor puro e simples.

A morena, centro do universo do esteta, se manifesta:

bayb

E suspende o tempo. O intervalo espacial entre suas falas exprime exatamente o momento do amor em que nada mais importa, em que tudo se silencia. Quase pode-se sentir o frio na barriga do jovem esteta, aguardando a reação de sua musa após tal perdida declaração. Ela diz, não sem refinamento,

bayb
give more poetics

O final singelo – uma súplica por mais palavras de amor – enquadra-se no paradigma da insaciabilidade do ser humano e do arrebatamento causado pela beleza, temas representados em toda a tirinha. O jovem anuncia que pretende fazer o que for, seguir obstinadamente as curvas sinuosas da morena, tudo para tê-la; e a morena, recebendo e acolhendo a lisonja, embriagada pela beleza das palavras, alimentada pela poesia, por declarações de amor, exige mais, sempre mais – mas acena positivamente à investida do jovem.

Temos um panorama esperançoso ao final da tirinha, quanto à possibilidade do amor. Seguido à suplica da morena, é previsível que o jovem jure provê-la de palavras bonitas e carinho. Enquanto ela, elevada a uma justa condição de musa, desfruta deste homem refém de suas curvas sinuosas.  Nasceria daí uma relação dialética entre os dois, numa busca permanente pela beleza, alimentada pelo amor.

Para ler cersibon:

dois irmaos

3 irmo~a

5 Comments

Filed under cersibon, qq isos morena, Review, TL;DR

5 responses to “Review: monera

  1. Pingback: Balanço « Rafael Zanatto

  2. Pingback: Os amores de Rafael – parte 3 « Rafael Zanatto

  3. AEHUAEHUAEHAEU fico foda ;D
    tirando o fato que ser sibom ñ e toipes

  4. comofas

    Cersibon é tiopês.
    Madeira crê que seja apenas “Garble”.
    Garble nada mais é que a essência do tiopês.

  5. Jeremias

    Descobri seus textos a pouco tempo mas to rindo até dos mais antigos como uma hiena, você é o cara meu.

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