Flashback – Nesta casa há formigas

Hoje é sexta-feira, e a não ser que você seja eu, você não deve saber, mas hoje é dia de

FALSCHABKL

No Flashback, coloco aqui um texto previamente publicado no meu fotolog, já que vocês acham que tudo que eu escrevo agora uma bosta! Seus filhos das putas!

Como todo mundo sabe, cada texto sempre tem uma mulher por trás, e eu me lembro claramente de quando escrevi este. Fomos numa festa em que tocava música eletrônica no máximo, meninada fumando maconha, e a cerveja teimava em não gelar. Na verdade, a geladeira nem estava ligada. Apenas colocavam as cervejas lá dentro e torciam para o melhor. Mas o melhor nunca chegava.

Enviei este texto pra revistinha universitária Offline. Enviei por email e o cara adorou. Não apenas adorou, mas como teve a pachorra de publicar também um trecho do meu email, ao lado do texto:

Seria realmente legal se vocês publicassem qualquer texto desses. Provavelmente eu mandaria enquadrar a revista e mostraria pra minha vó! E me ajudaria bastante com as mulheres.

Mostrei pra minha vó (e ela adorou). Mas me ajudar com as mulheres acho que já era pedir demais.

Behold the future (the past, actually):

NESTA CASA HÁ FORMIGAS

Em todo lugar que eu olho, há uma formiga. Elas vão andando, apressadas e vagarosas. Em todo lugar. Peguei a caixa de leite na geladeira, pra esquentar, fazer café com leite. Esse leite é desnatado. Ninguém gosta de nata, isso é bem verdade, mas esse leite é verde. Quem gosta de leite verde? Nem as formigas. Fui adoçar meu café, vocês já sabem. Não vou nem falar.

Eu não odeio as formigas. Eu gosto delas. De todas elas. Desde pequeno, sempre gostei. Meu amigo odiava. Odiava qualquer tipo de insetos. Nem joaninhas ou borboletas ele perdoava. Coitadas. Joaninhas e borboletas são a high-society dos insetos. Mas as formigas estão em todo lugar. Não são raras, nem bonitas. São pontinhos pretos apressados. De vez em quando carregam folhas. Aí você lembra daquela aula de biologia, ou de um documentário da Discovery. É, não é um besouro, mas é gulosa.

Elas apenas trabalham. Não me venha com a história da formiga e da cigarra. Eu gosto da cigarra, acho que ela está completamente certa. A vida foi feita pra isso. Ela é um inseto de nada, e a qualquer momento meu amigo pode chegar e esmagá-la. Ela ou a formiga, tanto faz. O que importa é que a cigarra morreria cantando, e a formiga, trabalhando.

Mas não as culpo por serem tão diligentes. Outro dia abri um livro, e lá havia formigas. Elas estavam lendo Faulkner. “A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing”. Não, não há luz. Não, não há tempo. Você não tem nada, sua vida foi apenas uma mentira. Este é o momento exato em que a cigarra está certa, e a formiga foi esmagada. Mas, afinal, o final.

Sempre adorei estragar os rastros das formigas, isso é bem verdade. Eu não gosto de machucar formigas, elas são minhas amigas. Quando elas estão na pia, e eu quero lavar as mãos, eu digo “Sai daí!”. E eu dou meu dedo, elas sobem, e eu as coloco num lugar seguro, longe do Mississippi que explode da torneira. Mas eu estrago seus rastros. Passo o dedo no caminho, e a marcha é interrompida. Elas não enxergam, não têm senso algum de direção.

Aliás, as formigas não vêem problema em andar em paredes, e nem em tetos. E eu penso: qual será o efeito da gravidade nesses belos animaizinhos, filhos de Deus? Andam no teto com a mesma naturalidade com que andam nas paredes com a mesma naturalidade com que andam no chão. Elas têm em cima e embaixo? Elas são tão diligentes. Elas têm direita e esquerda? Não sei.

Só sei que fui tomar banho, e lá estavam elas. Andando no meu sabonete branco. Todo mundo sabe que sabonete é salgado – uma das grandes surpresas da minha infância; quem diria que o sabonete é salgado? E o xampu, então? Deveria ser doce! Mas elas estão só passeando. É isso que elas fazem. Passeiam. A não ser quando estão perto do açúcar. Lá elas estão trabalhando. O resto da casa, o resto do tempo, é lazer.

Passear pelo banheiro, pela minha estante de livros. Aqui, no Brasil, não há inverno. Então, não precisam se preocupar em guardar comida. E a cigarra não precisa parar de cantar. Eu até dou uma força pras minhas consortes. Derramo Coca-cola, Pepsi, Fanta e Guaraná. Tudo em cima da pia da cozinha. Na rota Interruptor-Pote de Açúcar, que eu sei muito bem que elas fazem. Elas se divertem. Ficam lá, à beira daquele lago, bebericando e dizendo “Vai lá chamar o pessoal”. Mas ninguém vai.

Não apenas de doces vivem as formigas, though. Claro, sabonete ninguém come, e xampu ninguém bebe – fora as crianças. Elas gostam é quando deixo pedaços de pizza por aí. A pizza não é de propósito, como a Coca. Pizza não é apenas um alimento, pizza é um investimento. Você compra hoje, e come até depois de amanhã.

Então deixo a caixa em cima do fogão. Pensando estar fora da rota Interruptor-Pote. Não. Não sei como elas fazem. Pois, como já disse, sem o rastro, elas perdem a direção. Sem norte nem sul. Esquerda nem direita – é uma monarquia, afinal! Acho que elas contam com algumas formigas desbravadoras. Aventureiras.
-Vamos subir neste complexo branco.
-Isto é uma máquina de lavar. Aí não há nada. Apenas sabão. Sabão é ruim, você sabe. Como sabonete e xampu.
-Isto não é uma máquina de lavar. Isto é um fogão.
-Fogão?

Fogão. Elas sobem e ganham acesso à pizza, through the caixa de papelão. Acordo com fome, abro a caixa e vejo que, como sempre, minha parte foi subtraída. Não há nenhuma alternativa, nem nada que possa fazer para consertar. Sou só um homem solitário que não sabe lidar com situações diversas. Eu engasgo e cuspo palavras fracas. Eu desvio o olhar e finjo atarefado. Eu sigo, fingindo zanzar por aí. Dou uma volta, e digo “Não vou passar em frente”. Então eu passo e nem digo “Não vou olhar”. Só olho. Então paro e tento pensar em como eu sou legal. Eu me olho na vidraça e penso “A bad hair day”. Eu me olho na vidraça todo dia. Eu vejo você cruzar a esquina, aí volto à pizza maculada. Nesta casa há formigas. Em todo lugar.

2 Comments

Filed under Flashback, Mulheres gostosas

2 responses to “Flashback – Nesta casa há formigas

  1. Raul

    “Vai lá chamar o pessoal” . Mas ninguém vai.
    hahahaha eu sempre penso isso tambem

  2. eu tinha um complexo de formigas no meu pc. sabe o filme Pi?
    quase isso.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s