Georges Bataille

Doei sangue e to com sono. To com sono ou to desmaiando? Não deveria ter batido aquela punheta logo depois, com o braço que usei pra doar.

OPS.

Mas foi um motivo nobre, nobre, não foi?

-O-opa, chefia, nobre, nobre, muito nobre.

-Eles perguntaram se eu mantenho relações com pessoas do sexo oposto e do mesmo sexo.

-E aí, chefia?

-E aí que encontrei um loophole no pensamento deles!

-E qual foi?

-Sexo com travestis! Não são homens, e tampouco mulheres! Vitória!

-Chefia, acho que seria homem.

-Mas você acha que um traveco é um homem? Pelo amor de Deus, Chicão! Um traveco é mulher com algo a mais, e esse algo a mais é exatamente o que o define como não-mulher.

-Mas, você quer dizer que o pinto garante que não seja mulher, mas não garante que seja um homem?

-Exatamente. O que importa é o sentimento, Chicão. O sentimento.

-Mas não quando você vai doar sangue.

-Olha, Chicão, pára de me encher, já doei, tá doado, que se foda agora!

-Acho melhor você ir lá avi-

-E eu acho melhor você ir trabalhar, que tal?

-Tá bom, chefia, fica bravo, não.

-Fica bravo, não… bear bicha…

Ah, oi, vocês ainda tão aí!

Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. (…) Ela vestia um avental preto e usava uma gola engomada. Comecei a me dar conta de que ela partilhava minha angústia, bem mais forte naquele dia em que ela parecia estar nua sob o avental. Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu (esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era pra mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava que, levantando o avental, contemplaria a sua bunda pelada.

Quem é isto, vocês perguntam. Isto, por acaso, é  o começo de História do olho, de Georges Bataille.

Bataille era um cara e tanto – isso se você curte bater punheta rolando na lama e lambendo cus. Toda sua obra gira em torno de sexo violento e desmedido, angústia e o mais belo apreço pela morte.

Tanto que fundou Acéphale, uma revista/sociedade secreta, dedicada ao sacrifício humano. Ficou decidido que um membro daria sua vida na primeira reunião, como cerimônia de inauguração. Ninguém, porém, aceitou ser o carrasco – embora todos topassem morrer.

Mas como este homem maravilhoso apareceu na vida de Rafael Zanatto? De onde veio Georges Bataille?

Veio de uma canção linda de Tom Jobim e Chico Buarque:

Uma pesquisa razoável me levou a uma análise da letra, que dizia:

Na concepção de Bataille, o ser oscila entre o descontínuo e o contínuo, no eterno conflito entre o desejo da vida terrena, onde o descontínuo se estabelece através do abismo que isola os seres em sua individualidade, e a busca do desconhecido, da fusão, da continuidade, obtida através da morte. O erotismo dos corpos implica a dissolução dos seres, na fusão em que ambos se encontram no continuo, como na morte.

Quem, afinal, é esse Bataille, que diz coisas tão bonitas? Esse homem com essa visão tão peculiar quanto familiar, que mistura amor, sexo e morte?! Esse homem que bateu punheta diante do cadáver da própria mãe? Quem é Georges Bataille?

Foi na Biblioteca Florestan Fernandes, numa estante de literatura francesa, que eu saquei aquele livrinho vermelho, com a lombada puída. Na capa, um homem, segurando um copo de bebida na mão, beijava uma mulher.

O azul do céu, é o nome daquela graça de livro, que começa num quarto de hotel em Londres, com Troppmann (o protagonista) acompanhado por Dirty (Dorothea) – ambos caindo de bêbados. Enquanto ele vai ao banheiro, se encara no espelho, totalmente desfeito, solta da mão o curativo do machucado recém-adquirido no bar e sangra; Dirty, na sala, senta na cadeira, chama a arrumadeira e, rindo, se mija toda.

É uma história de puro desespero, como todas de Bataille, onde o sexo é a única saída aparente. E o sexo, quase sempre, se confunde com a morte.

Outra passagem maravilhosa é quando Troppmann, já sem Dirty, vai a um restaurante com alguns amigos, bebe como se fosse morrer e fica obcecado pela perna branca da mulher ao lado. Sem reflexão, Troppmann finca um garfo na coxa da mulher, e, antes que ela possa reclamar, já está de joelhos, chupando o sangue que escorre.

O azul do céu

Troppmann vai de Londres a Paris, e de Paris a Barcelona, sempre fugindo da sombra de sua mulher, que o aguarda back home. No período do entre-guerras, a Guerra Civil Espanhola está prestes a ser deflagrada, e a idéia de milhares de mortos ao mesmo tempo excita e aterra Troppmann. Determinado momento, pega um carro emprestado, dirige sem rumo e acaba numa praia. Tira as roupas, entra no mar, deita-se na água. Lá, observa seu corpo amarelado e, mais acima, o azul do céu.

To feel eroticism is to be fascinated like a child that wants to take part in a forbidden game. And a man fascinated by eroticism is like a child before his parents. He’s afraid of what might happen to him, and he never stops until he has a reason to be afraid.

Então, da próxima vez que você entrar neste blog e ver a imagem da capa, onde um homem beija uma mulher enquanto segura um copo de bebida na mão, tenha em mente o desejo, a culpa, o medo e a prostração de Bataille.

Você também se sente assim, mas tem medo de admitir. Você num se sente, Chicão?

-Porra se sinto…

Clima ficou pesado por aqui…

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Filed under Bataille, Blog, Incesto, Putaria e abominação, TL;DR, Traveco

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