Top 5 Bob Dylan

‘Tarde!

Se tem uma coisa que eu aprendi estudando História, e agora Jornalismo, é que há, sim, verdades incontestáveis. Portanto, a lista que exponho a seguir, dos 5 melhores álbuns de Robert Allen Zimmerman, não é uma lista dos 5 melhores álbuns na minha opinião. Não. São os 5 melhores álbuns E NÃO TEM DISCUSSÃO.

5. NEW MORNING (1970)

1 – If Not For You

2 – Day of the Locusts

3 – Time Passes Slowly

4 – Went to See the Gypsy

5 – Winterlude

6 – If Dogs Run Free

7 – New Morning

8 – Sign on the Window

9 – One More Weekend

10 – The Man in Me

11 – Three Angels

12 – Father of Night


New Morning é o 11º álbum de estúdio do Bob Dylan, lançado em 21 outubro de 1970. A essa altura, os Beatles já tinham acabado, Jimi Hendrix estava morto, e o Led Zeppelin acabara de lançar seu terceiro álbum (Immigrant Song seria o single da banda). Bob Dylan já era consagrado, com músicas tipo Like a Rolling Stone, Blowin’ in The Wind, Mr. Tambourine Man, e até Lay Lady Lay. Era o 4º álbum lançado após o acidente de moto que fez Bob Dylan largar gravações e turnês – mas imediatamente seguinte ao Self Portrait, também de 70, que foi considerado seu primeiro fracasso.

Bob Dylan, então, estava se reerguendo – do acidente de moto, e da merda de álbum que tinha feito. Neste álbum ele solta a voz despreocupadamente. Tem esse trecho do Crônicas, Volume 1, sobre o título do álbum, que é genial:

New Morning poderia ser um bom título, pensei, então disse isso a Johnson. “Cara, você está lendo meus pensamentos. isso vai deixá-los de queixo caído – para captarem o sentido, vão ter que fazer um daqueles cursos de treinamento mental que se faz durante o sono.” Exatamente. E eu teria que fazer um curso de leitura de mente para saber o que Johnson queria dizer com o que tinha acabado de falar.

A música mais famosa do álbum é, com certeza, a primeira faixa. If Not For You foi regravada pelo George Harrison (cacete, o George aparece em todo post, agora?!), numa versão infinitamente pior à original. The Man in Me também tem certa relevância: está naquele filme The Big Lebowski, com o Jeff Bridges, dos irmãos Coen. Mas a minha favorita é Day of The Locusts, que, apesar do nome apocaliptico, é pracimex. Fala de um rapaz que pega seu diploma e, no final das contas, dá o fora da cidade com sua namoradinha. Enquanto isso, tudo parece meio triste, mas o trinar dos gafanhotos o anima. Agora me diz: gafanhotos trinam? Não são os grilos? E o dia do gafanhoto foi uma porra duma praga enviada por Deus ao Egito. E esse judeu deveria saber disso. Ou sabia muito bem, e comemorava, assim, o fim do cativeiro. Sure was glad to get out of there alive.

Ixe, acho que é isso mesmo. Mas, mesmo assim, não se tem notícia de gafanhotos trinando. Rafael 1, Zimmerman 0 (jogão).

Não se faça de rogado e baixe o New Morning agora mesmo.

4. BRINGING IT ALL BACK HOME (1965)

1 – Subterranean Homesick Blues

2 – She Belongs to Me

3 – Maggie’s Farm

4 – Love Minus Zero/No Limit

5 – Outlaw Blues

6 – On The Road Again

7 – Bob Dylan’s 115th Dream

8 – Mr. Tambourine Man

9 – Gates of Eden

10 – It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

11 – It’s All Over Now, Baby Blue

Esta belezinha foi lançada dia 22 de março de 1965, e a galera do folk ficou filha da puta da cara dela porque o Bob começou a usar guitarra. O nome do álbum é sensacional. Eu achava que tinha arremessado esse cd gravado pela janela do carro, outro dia. Mas, para minha surpresa, encontrei o cd outro dia – qual cd terei eu arremessado pela janela do carro na Anchieta, a 120 por hora? Mistério. Perigo. Medo. Decepção.

Até aqui, seus sucessos eram basicamente músicas de protesto e, mais recentemente, All I Really Want to Do e It Ain’t me Baby, do seu álbum anterior, Another Side of Bob Dylan (1964). Bringing It ll Back Home era o 5º álbum de Bob Dylan – ele tinha 3 anos de carreira e 23 de idade. E começa logo de cara com Subterranean Homesick Blues, que todos conhecem pelo clipe de abertura do documentário Dont Look Back,  de D.A. Pennebaker:

Os Beatles, meu filho, tinham nem lançado o Help!, e ainda estavam correndo pra lá e pra cá de terninho. Jimi Hendrix tinha sido dispensado do exército e começava a tocar pra ganhar dinheiro. Robert Plant tinha 16 anos e estava batendo punheta no seu quarto. Pelé era bicampão mundial de futebol pelo Santos e pela Seleção. JFK e Malcolm X estavam mortos. Minha mãe tinha 4 anos.

E aí começou o primeiro auge do Bob Dylan. Dividido, a metade acústica ainda é bem superior à elétrica. It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding) talvez seja das letras mais impressionantes do hebreu. Mas a minha favorita é It’s All Over Now, Baby Blue (que se tornou Negro Amor, na versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti) (Muito boa, aliás). Essa música é o maior exemplo da voz metálica e da beleza das letras do Bob Dylan. Um clássico. O maior kiss-off da História, como dizem por aí. Strike another match, go start anew, ele berra.

Baixe o disco, ouça a música, concorde comigo.

3. HIGHWAY 61 REVISITED (1965)

1 – Like a Rolling Stone

2 – Tombstone Blues

3 – It Takes A Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry

4 – From A Buick 6

5 – Ballad Of A Thin Man

6 – Queen Jane Approximately

7 – Highway 61 Revisited

8 – Just Like Tom Thumb’s Blues

9 – Desolation Row

É uma técnica até certo ponto manjada: começar e terminar bem. Isso acontece no Manifesto do Partido Comunista (“Um espectro ronda a Europa” e “Proletários do mundo, uni-vos”), em A Invenção de Morel (“Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre” e “Será um ato piedoso”) e em qual mais, loirinha?

-Ahhhhm. Não sei?!

Sabe, sim. Do Machado de Assis.

Memórias Póstumas?

Isso! Pois bem, já é manjada. E o Bob Dylan tem certo apreço pela primeira faixa de seus discos. Geralmente são suas melhores composições. Neste caso, é sua melhor composição de toda sua carreira. Senão do rock, dizem alguns. Míseros 5 meses separam o lançamento desta álbum do seu antecessor, o Bringing It All Back Home.

Uma coisa interessante também é que o Bob Dylan num é igual o Aerosmithzinho que você ouve, e essas merdas de bandinhas eletrônicas que você curte, em que eles falam “Uau! Fiz uma frase boa! Vamos usá-la na música inteira!”. Não! Meu Bob Dylan não tem dó, e escreve uma letra gigantesca, sem dó de acabar, sem perder o fôlego, mandando mais e mais, melhor e melhor. É isso que ele faz em Like a Rolling Stone e em Desolation Row, as duas melhores músicas do álbum. Não dá pra competir com essas duas, mas uma que eu gosto é Queen Jane Approximately, que o Bob Dylan disse ter sido escrita para um cara, mas que todo mundo sabia que era mesmo pruma mina. E não uma mina qualquer: para Joan Baez. Ele tenta se esquivar, mas não consegue. Nós estamos ligados. Assim como estamos ligados que Like a Rolling Stone foi feita pra Edie Sedgwick, uma das musas de Andy Warhol. Queen Jane Approximately é uma graça de música, e é simplesmente ele dizendo que, quando tudo vai mal, won’t you come see me, Queen Jane? Presente também na cena em que eles correm na chuva, do filme The Dreamers, do Bertolucci, com Louis Garrel, Michael Pitt e, acima de tudo, a linda e nua, branca dos olhos verde-azulados (ou azuis-esverdeados), minha musa, detentora do meu pobre coração, Eva Green. Shhh… só pra vocês, aqui, baixinho:

qq isos eva

Agora baixa o cd. Shhhhh!

2. BLONDE ON BLONDE (1966)

1 – Rainy Day Women #12 & 35

2 – Pledging My Time

3 – Visions of Johanna

4 – One of Us Must Know (Sooner or Later)

5 – I Want You

6 –Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again

7 – Leopard-Skin Pill-Box Hat

8 – Just like a Woman

9 – Most Likely You Go Your Way (And I’ll Go Mine)

10 – Temporary Like Achilles

11 – Absolutely Sweet Marie

12 – 4th Time Around

13 – Obviously 5 Believers

14 – Sad Eyed Lady of the Lowands

Em 1978, numa entrevista a Ron Rosenbaum, para a Playboy, Bob Dylan disse:

The closest I ever got to the soud I hear in my mind was on individual bands in the Blonde on Blonde album. It’s that thin, that wild mercury sound.

Blonde on Blonde foi o primeiro álbum duplo de sucesso na história do rock. É irrepeensível do começo ao fim. Das composições mais bonitas do Bob Dylan estão aqui. Leopard-Skin Pill-Box Hat é um blues infernalmente agudo e sacana, de um cara obcecado por uma fashionista e, acima de tudo, por seu chapéu pillbox.

You know it balances on your head just like a mattress balances on a bottle of wine, your brand new leopard-skin pill-box hat

Sad Eyed Lady of the Lowlands foi feita para Sara, sua mulher. Como é de seu feitio, ele sempre se esquivou de explicações, mas no Desire, de 76, há uma música chamada Sara, e lá ele diz:

Stayin’ up for days in the Chelsea Hotel writin’ “Sad-Eyed Lady of the Lowlands” for you

Uma tentativa tentativa desesperada de manter seu casamento, mas não deu certo. Que triste, né?!

I Want You, por outro lado, é uma graça de música. Quando eu penso em alguma coisa bonita, simples e bonita, penso nesta música. É isso, só isso I Want You.

Visions of Johanna é a obra-prima do álbum. Começa falando Ain’t it just like the night to play tricks when you’re tryin’ to be so quiet?, e segue com o rapaz dividido entre duas mulheres, entre duas idéias – a que ele tem, a terrena, e a que ele não possui, a espiritual (ou ideal).

Louise, she’s all right, she’s just near. She’s delicate and seems like the mirror. But she just makes it all too concise and too clear that Johanna’s not here

Se o Bringing It All Back Home foi o início do seu primeiro auge, o Blonde on Blonde foi o zênite do seu apogeu!! Que exageração! AONDE NÓS VAMOS PARAR?!

The guilty undertaker sighs, the lonesome organ grinder cries, the silver saxophones say I should download you.

1. BLOOD ON THE TRACKS (1975)

1 – Tangled Up In Blue

2 – Simples Twist Of Fate

3 – You’re a Big Girl Now

4 – Idiot Wind

5 – You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go

6 – Meet Me In The Morning

7 –  Lily, Rosemary And The Jack Of Hearts

8 – If You See Her, Say Hello

9 – Shelter From The Storm

10 – Buckets Of Rain

Blood on the Tracks, o nome não poderia ser mais apropriado. Todo mundo sabe que por trás de absolutamente qualquer manifestação artística há uma mulher. E quando tem mulher, tem um coração partido. O álbum é fruto dessa decepção. O casamento de Sara e Robert ia mal, as canções foram criadas nesse clima. Porra, e que tristeza são If You See Her, Say Hello, You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go, Simple Twist Of Fate, Buckets Of Rain, You’re a Big Girl Now. É difícil até de escolher uma frase pra ilustrar. You’re a Big Girl Now é, definitivamente, uma das músicas mais tristes na história do Universo, meu Deus:

Bird on the horizon, sittin’ on a fence
He’s singin’ his song for me at his own expense
And I’m just like that bird, oh, oh
Singin’ just for you
I hope that you can hear
Hear me singin’ through these tears

E, depois:

A change in the weather is known to be extreme
But what’s the sense of changing horses in midstream?
I’m going out of my mind, oh, oh
With a pain that stops and starts
Like a corkscrew to my heart
Ever since we’ve been apart

COMO UMA PORRA DUM SACA-ROLHAS NO MEU CORAÇÃO! SARA! PÁRA DE FAZER O BOB SOFRER! POR FAVOR! PÁRA! PÁ-RA!

Tadinho dele.

Este é o segundo auge do Bob Dylan – e o meu favorito. Todas as letras são excelentes, sendo algumas geniais. Idiot Wind é considerado o maior put-down depois de Like a Rolling Stone. E, como em Like a Rolling Stone, Zimmerman não poupa palavras, e faz uma música extensa, de quase 8 minutos, num crescendo de violência sobre a estupidez humana.

It was gravity which pulled us down and destiny which broke us apart
You tamed the lion in my cage but it just wasn’t enough to change my heart
Now everything’s a little upside down, as a matter of fact the wheels have stopped
What’s good is bad, what’s bad is good, you’ll find out when you reach the top
You’re on the bottom

Meu Deus, esse menino não pára! Idiot Wind é, definitivamente, uma das minhas músicas favoritas. Pela raiva, pela força, pela fúria, pela glória. Esse menino sabia escrever, isso é certeza.

Sobre escrever, temos minha música favorita do álbum: Tangled Up In Blue, que conta de forma não-linear, primordialmente, a história de um homem e uma mulher, de suas idas e vindas, e do amor inconciliável. Primordialmente, eu digo, pois a música tem a peculiaridade interessante de sofrer alterações em versões ao vivo. Bob Dylan muda os pronomes, mistura tempos, surpime ações, inclui personagens. Para aqueles que, como eu, ignoram e ocasionalmente ofendem O Narrador de Walter Benjamin, podemos considerar que Bob Dylan resgata a narrativa original pré-romance moderno. A narrativa só acontece diante de uma audiência, e contando com a interação desta.  É um processo não solitário, mas solidário, em que o tempo é suspenso, e a presença do narrador é imprescindível para a experiência. Com a diferença de que foi registrada, como nos álbuns ao vivo Live 1975, The Rolling Thunder Revue (excelente) e Real Live (uma merda, só Tangled Up In Blue presta – e olhe lá).

Então para comemorar os 69 anos de Robert Allen Zimmerman, completados ontem, baixem essa obra-prima e me deixem quietinho, que eu JÁ NÃO AGUENTO MAIS ESCREVER NESTA MERDA! CACETE! PUTA QUE PARIU!

Escravizei-me aqui nessa porra de computador! Já são 8:30 da noite, e olha que eu comecei o post com “‘Tarde!“, igual caipira! Puta que pariu! O que eu estou fazendo com a minha vida?! O QUÊ? DEUS, O QUÊ? E LOST NEM EXPLICOU O SENTIDO DA VIDA! MORRAM! MORRAM TODOS!

– If Not For You

2 – Day of the Locusts

3 – Time Passes Slowly

4 – Went to See the Gypsy

5 – Winterlude

6 – If Dogs Run Free

7 – New Morning

8 – Sign on the Window

9 – One More Weekend

10 – The Man in Me

11 – Three Angels

12 – Father of Night

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Filed under Coitado do Manolo, Escrever, LOST, Maluco chato, qq isos morena, Que papo é esse?, TL;DR, Zimmerman

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