E se Ulisses quisesse cagar

Sobrou pizza de ontem, e depois de um copo de café, comi dois pedaços, acompanhado de guaraná – eram nem 7 horas da manhã. Outro dia, jogando bola, estava na banheira, como é de meu feitio, e o rapaz me lançou uma bola impossível. Um míssil que passaria por sobre minha cabeça, não importa o que eu fizesse. Quis desafiar o INDESAFIÁVEL mentira, era desafiável, tanto que desafiei, mas era inútil: impossível pegar a bola. Dei um salto preguiçoso pra trás, à la Ronaldão, e, quando aterrissei, esqueci as mais básicas leis que regem a física, especialmente a minha própria, e caí com os calcanhares primeiro, sem flexionar os joelhos para amortecer a queda. A catástrofe foi terrível e instantâneo seu efeito. Toda a força foi refletida bem na base da minha coluna, o que me trouxe grande dor e certa limitação de movimentos por, até agora, já dois dias.

Fui pra Puc mesmo assim. No metrô, fingi que não era comigo, e fiquei muito bem quietinho de óculos escuros no meu assento, lendo, enquanto mulheres, crianças, portadores de deficiências e idosos se amontoavam, sem ter onde descansar as pobres pernas. Mentira, não foi tão dramático assim. Uma menina ficou parada, de pé, bem ao meu lado, e em dias comuns eu cederia meu lugar. Era uma moça negra de forma física inquestionável, e enquanto o livro permanecia aberto sobre o meu colo, e eu fingia que corria meus olhinhos inocentes sobre as letras impressas, eu observava de rabo de olho a virilha da moça, fantasiando que ela, num arroubo de de rafaelidade, trazendo meus sonhos para a realidade, me desse uma bocetada na cara. A possibilidade existia, sempre existe – but it was highly unlikely. Mas, se pode ser feito, um dia será feito, e vivo mirando este dia.

Subi no ônibus, para minha surpresa, atrás de uma bundinha linda, que rebolava dentro de uma maravilhosa calça legging, e tinha uma espécie de vestido cinza, apertado, a cobri-la. Coisa linda. Paguei a tarifa ao cobrador e sentei ao primeiro lugar vago, só pra observar de uma altura adequada aquelas pernas andando a caminho do Mackenzie. Todas as gatinhas que descem a Consolação, àquela hora, são alunas do Mackenzie. Na hora da porta abrir, pensei em deixá-la passar na frente, a morena, de cabelos lisos, nariz grande, e dona da bundinha que me hipnotizava. Mas achei muito pala. Desci primeiro, e, debilitado, fui andando mais devagar, subindo até a faixa de pedestres. Ela me ultrapassou, e eu vi sua silhueta esguia rebolando, as pernas que engrossavam, a bundinha presa, apertada, desesperada dentro daquela fralda de uma camisa excessivamente comprida. Ela esperou o semáforo abrir do lado do Mackenzie, eu esperei do lado da Puc. Ficou verde para os pedestres, mais um último olhar antes da separação. We were never meant to be.

A aula acabou abruptamente quando o professor, um sujeito extremamente simpático que ria como um personagem do Sacha Baron Cohen e me chamava de “Companheiro Rafael”, atendeu o telefone, falando em italiano, e disse preocupado “Chiama… chiama 192!” E a aula acabou 20 antes da hora. Espero que não tenha sido nada demais.

Saí, subi a Consolation Row e decidi, afinal, ver qual é que era a da nova estação Paulista de metrô. Meu plano era, na verdade, entrar na novíssima Paulista (que fica na Consolação) e ir, subterraneamente, para a manjadíssima Consolação (que fica na Paulista) – e, quebrando o paradoxo, ir pra casa. Chegando lá, já sacando meu pobre bilhete pra enfiar goela abaixo da catraca, descobri que a interligação não estava aberta ainda, e que o metrô tava saindo de graça. Descendo as escadas, vi um velho que freqüentava a História, cujo apelido era Fuinha. Era um velho maluco, aposentado da Fea, sem o menor senso de discrição, que vomitava seu conhecimento enciclopédico e inoportuno a qualquer momento, sem aviso – produtos de uma mente maluca. Acho que nem ele tinha controle sobre as coisas que fazia mais. Um dia, aliás, na aula de História dos Estados Unidos, a professora Mary Anne Junqueira (quem ele chamava de “Mariana”) (e por quem eu sentia certa atração, sabe-se lá por quê. Talvez porque eu me apaixone por todas minhas professoras?! Que tal?!) estava contando sobre Washington, cidade que ela havia morado e, num lapso, não se recordava do nome do bairro em que morou. Fuinha, que era cortado diariamente pela Mariana, disse, sem titubear:

-É ooooooo Colonial Village.

A sala já preparada para ver o pobre velho delirante ser repreendido pela professora, quando ela levanta as sobrancelhas e diz pausadamente:

Exatamente.

Um dos grandes momentos de toda minha graduação, com certeza.

Pois bem. Vi o pobre e delirante Fuinha andando como maluco, com um cinto afivelado por sobre o suéter (isso mesmo), corcunda e com o pescoço projetando a cabeça pra frente. “Ei, ele vai pra Cidade Universitária! Vou também!”

Para meu engano, os trens iam da estação Paulista pra Faria Lima (que fica na Faria Lima) e vice-versa, só de farra, pois a Faria Lima e a Paulista eram as duas únicas estações abertas.

Hesitei em fazer a viagem. Pensei “Mas por que eu vou pra Faria Lima?” E, logo em seguida, refiz a pergunta “Por que não?!” E como eu adoro fazer algo estúpido só pra ver no que vai dar, fui pra Faria Lima.

A modernidade do metrô é a mesma encontrada na também nova estação Sacomã, mas a estação é bem menor (haha e nem terminada tá). A grande diferença são as paredes elípticas do corredor (Stela que me introduziu esse vocabulário). Coisa fina.

Os vagões são interligados, e você pode zanzar de uma ponta a outra. Os bancos estão dispostos de forma diferente da que estamos acostumados, além de serem brancos e (parcamente) acolchoados, com um tecido como veludo, coloridinho (amarelo predomina). Ao ver os bancos, pensei no Power Ranger Branco. Todo mundo, bando de desocupado, tirando foto, olhando maravilhado o novo metrô. E eu lá, com esse celular que mal tira foto. Saindo da estação Faria Lima, Márcio Canuto fazendo a festa com os populares! Que alegria de viver! Como é bom não ter absolutamente rumo nenhum!

Encontrei com a Stela e almoçamos. Já pra pegar o Faria Lima de volta, comecei a fazer cálculos pensando MEU DEUS ONDE É QUE EU POSSO CAGAR?

Puta que pariu! Aí minha vida tomou ares de thriller, uma batalha entre um homem e seu intestino, vida ou morte, glória ou humilhação! Quase me cagava inteiro! Aqueles bancos novinhos, branquinhos, e eu imaginando aquela onda de merda líquida varrendo tudo e todos, passando por todos os vagões, acabando com a linha amarela! Falando sozinho, pra tentar controlar essa força primordial que rugia dentro de mim. Vou cagar na Cultura!

Chegando à Paulista, porém, pensei Vou pegar o metrô rapidinho, ir pro Ipiranga, pegar o carro e cago em casa mesmo. Quando entrei na estação Consolação, já estava fora de mim – e a merda quase saía também. Cacete, que desespero! Fui de pé, suando, falando sozinho, tentando pensar em coisas diferentes MEU DEUS! BRASIL E ARGENTINA SE ENFRENTARAM UMA VEZ SÓ EM COPAS DO MUNDO? UM A ZERO PRA ARGENTINA EM 90 RAFAEL QUEM VOCÊ QUER ENGANAR? VAMOS CAGAR! CAGAR! CAGAR! VIVA OU MORTE! VIVA CAGANDO OU MORRA BORRADO! VAMOS, RAFAEL! VAMOS!

Puro delírio. Suava em bicas naquela linha verde. Eu era o desespero em pessoa. Tentava afastar os pensamentos escatológicos mas não conseguia. Aquilo virava uma Odisséia. E se Ulisses quisesse cagar?

Não deveria, pensa Ulisses, ter comido aquele Big Tasty em Tróia.

Sem saída, Ulisses (louco pra cagar a esta altura) e seus companheiros se disfarçam de ovelhas e enganam Polifemo, o ciclope cujo olho foi perfurado. Saindo de gatinhas, Ulisses tenta dar um peido pra aliviar, mas tem a nítida impressão de que se borrou.

-Porra – diz Ulisses – acho que me caguei.

-Quem se cagou? – indaga Polifemo.

-Ninguém. Ninguém me caguei, porra!!

Ulisses corre para Ítaca, onde sua latrina o espera pacientemente.

1 Comment

Filed under Bunda, Coitado do Manolo, Mulheres gostosas, Putaria e abominação, qq isos morena, Que papo é esse?, TL;DR

One response to “E se Ulisses quisesse cagar

  1. Raul

    hAHAHAHAHAH ninguém me caguei, ja pensei em fazer uma piada semelhante, já estive assim de faze-la inclusive, mas nem nunca fiz

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s