Flashback – Uma relaxada

Caros amigos, hoje é dia de FLASHBACK!

No Flashback, coloco aqui um texto previamente publicado no meu fotolog, já que vocês acham que tudo que eu escrevo agora uma bosta! Seus filhos das putas!

O de hoje remete ao Anno Domini 2006, e tem cunha altamente biográfico. Há também certa experimentação técnica e estilística, que não tem nada de autêntica, mas pura emulação da estética criada por Édouard Dujardin em Os loureiros estão cortados, de 1888. Dujardin foi o percursor do monólogo interior, e ensejou, assim, o fluxo de consciência – técnicas que  se tornaram famosas com James Joyce, Virginia Wolf, William Faulker e, no Brasil, Clarice Lispector.

Quando escrevi este texto que lhe apresento, tinha acabado de ler Dujardin, e copiei descaradamente seu estilo. Dujardin, numa carta a sua mãe, disse:

É simplesmente o relato de seis horas da vida de um jovem apaixonado por uma demoiselle – seis horas durante as quais nada, nenhuma aventura acontece, e, na maior parte do tempo, o personageme stá sozinho

Não apenas o estilo, mas a temática também foi copiada por mim. Mas ao invés de um jovem apaixonado por uma demoiselle, trata-se de um jovem querendo cagar.

UMA RELAXADA

-Cara, vou dar uma relaxada.

Relaxada!, quero é sair desta merda. As fileiras tão muito apertadas; vou de frente ou de costas; de costas; esta calça ta muito apertada; minha bunda deve estar perfeitamente visível; mulheres não acham isso sexy; devagar na maçaneta; vou tomar uma água; não to com sede; só um gole; ta me doendo a barriga; um gole, agora; Maria Helena dando aula; América; tem uma gatinha nessa sala; linda demais; cabelinho curto, roupas largas; que delícia de menina; beleza; não dá pra ver pela janela; água agora; prova, sem professor; salas dos bichos; tem bastante bichete bonita; aquela de cabelinho curtinho, da Maria Helena; Maria Helena PT Machado; nomaço; nome de professor mesmo; água; não to com sede; sujeitos estranhos, tão falando de remédio; Ultrafarma, “o dono da empresa é o garoto propaganda”; que egocentrismo; ele é simpático pelo menos; água; não tava com sede; o carro ta lá?; vamos ver; tem um cara no caminho; acha que vou falar com ele; relaxa, só to vendo o carro, não quero falar com você; celular, que horas são; carro ta lá, ao lado da Brasília, beleza; que horas são; celular, 3:34; beleza, meia-hora pro intervalo, vamos pra aula.

Corredor, sala dos bichos; tem bichetes gatinhas à beça; hoje é segunda…?; América Colonial; Gutiérrez ao corredor; que bonitinho, rosado; vou encará-lo, dizer “professor”; não; sim, vou; virou o rosto; não se recorda de mim; claro que não; Gabriela; que bonita!, que professora bonita essa; escolhi errado, odeio a Maria Ligia; gatinha do cabelo curto; definitivamente, não dá pra ver pela janelinha; como ela era; não me recordo; se a ver, reconheço; linda!; vou entrar na sala; não; dor no estômago; isso aí, não vai dar não; é agora!; não, vou entrar; não!; vamos lá!; aqui, sem chance; vamos pela rampa; não, por trás, mais perto, correndo.

Escada vermelha; opa!; Marcos Napolitano.
-Professor…
Correndo; esses bancos sempre estão ocupados por casais; menina falando alto ao celular; dá pra ir por cima?; melhor não, vamos rápido; correndo pelo mato mesmo; trilhazinha, muito íngreme; se caio aqui, é o fim; as calças estão me apertando; calças femininas; bolsos minúsculos; vamos tirar o celular da calça; melhorou; pelo mato; meu Deus, vamos logo; Química; qual o nome da atlética deles; AAARQ; não é tão legal; o chão está crocante, cheio de folhas; será que alguém já andou por aqui; local nunca antes explorado, mata virgem no campus; eu sou um desbravador; não, um copo de plástico; pessoas já beberam aqui; devem ter fumado maconha, também, feito sexo; vida universitária; não pego ninguém, que caralho; ta vindo carro; não, vamos; pela calçada agora; selvagem eu sou, do meio do mato pra calçada; com o lingüição, de camisa preta; fica aí, Lingüição; Lingüição babaca; odeio pessoas altas; porra, vamos; por trás do lixo tóxico; que nojo esse lugar; escada; duas meninas.. feias, fodam-se!; Farmácia ou Química; Farmácia ou Química; meu tênis desamarrou; Química é calmo; Farmácia tem coral; coral só de quinta, na hora do almoço; vamos, aqui, agora!; não, vamos sair daqui, muita gente; amarrar o tênis; cadarço filho-da-puta, tá desamarrando o dia todo; “Venha participar do nosso coral”; olha lá; “todas terças e quintas, 12:45, 1:30”; isso aí, depois do almoço; embalado a canto lírico, melhor não; vamos!

Belo corredor, aqui é frio; aberto e frio; sujeitos à mesa; tão falando outra língua; tão nada; vamos à Química; quem sabe encontro alguma gatinha; melhor não; seria horrível; agora não; prioridades, um homem tem que ter prioridades!; sei lá; olha lá; gatinhas no banco; gatinhas; vamos checar; uma olhada; opa, gatinha; tudo bom contigo; pararia e conversaríamos um pouco, mas to ocupado; escadaria; era bonitinha a menina; olhou pra mim; olhei pra elas, óbvio que me olharam; não era tão bonita; era meio feia; como eu gosto; bom; seguindo; escadaça, caralho; nunca pararia pra conversar, falemos a verdade; dois degraus por vez; opa!, a calça ta marcando, gatinha; bege; calcinha cavada; nada mal essa bunda; porra, preciso pegar alguém; papo sério; apertando o passo.

Delícia de bunda.

Preciso pegar alguém.

Papo sério.

Um tropeço seria fatal; escadaça; andando, a dor melhora; passa; será que vou mesmo?; vou, apertou!; melhor agora; depois, Bandeirantes; amendoim a um real; bati o carro comprando amendoim; idiota; portão ta aberto; não; damos a volta; burocracia estúpida; “apresente-se”, “entrada permitida apenas para alunos e funcionários”; ninguém liga pra isso; se perguntarem, vou ver amigo meu; “sou aluno da universidade”; isso aí, aqui posso entrar em tudo; se perguntarem quem; sei lá; num conheço ninguém, porra; isso aí; guardinha vai pesar na minha; digo que entrei mesmo, foda-se, já foi; porra, com esse portão fechado, tem que dar essa volta; bosta; “Motos: entrada e saída apenas com o motor DESLIGADO”; é um problema; entra com ele ligado aí, atropela a molecada; ninguém faria isso; melhor desligado; “Deus é fiel” no tanque da moto; só ele vê esse adesivo; e ele senta com a virilha no adesivo, virilha em Deus; imagina fazer sexo nessa moto; tipo Amazing; pecado mortal!; B1, B2; nomes estúpidos para prédios.

“Feira de livros”; vou no próximo; aqui é quieto; melhor que a Farmácia; aqui é tudo limpo, Química, asseado; anti-séptico; assepsia; “Perigo de contaminação”; esse símbolo, Biohazard; exatamente; essa banda deve ser uma bosta; Prosdócimo; geladeira velha, hein; várias geladeiras no corredor; contaminação biológica!; invadir um desses laboratórios; elevador, parece entrada de banheiro; grupo de velhinhos; tão falando em inglês; só estrangeiros, aqui; sotaque; deve ser daqui mesmo, explicando pros estrangeiros; seria legal atrapalha-los; “Hey, old fart! Fuck you! Get the fuck outta here!”; seria bem legal; e a cara dos velhinhos; cadê o banheiro; feminino; ali; saiu uma mulher e um homem; não lá, não; opa, nerdão!; vai mexer com raio laser, vai; sai da minha frente; queria ver esse tal de raio laser, um desses na minha mão; aqui, porta entreaberta: banheiro masculino.

Aqui é bom, cheiro de consultório; tudo limpinho; imaculado; 4 rolos, isso aí; vamos ver se ta limpo; limpo, lixo intacto; bom; vamos lá; vamos ver se tem mais alguém; não; beleza, vamos; agora que já to aqui, perdi a vontade; tudo tão fácil; vamos, ta na hora!; tem que ser agora!; beleza; vamos dar uma descarga primeiro; fechemos a tampa; beleza; passar um papel, só pra garantir; beleza; limpinho; “tem que cobrir sempre”; minha mãe ta certa; cobrir o assento; quatro tirar; pequenas tiras; atrás; dos lados; do outro; na frente; beleza; vamos; entrou alguém no banheiro; merda; vai cagar também; orra, entrou na cabine já mijando; entrou com o pinto pra fora, já; vai logo; vou começar agora, ele vai compreender; não, vou agüenta um pouco; pronto, vai; foda-se, ele! Me deixa cagar em paz.

Beleza; sufoco que passei; vai melhorar agora; tem uma bunda desenhada aqui; bem desenhada; dá até pra ver a boceta; beleza; rigor anatômico; esse já viu muitas dessa por aí – e de perto; ou não; um garoto de 11 anos desenharia da mesma forma: pornografia na internet é uma benção; mas as nádegas não se juntam; muito separadas; ta arrombada; sexo anal; vou desenhar algo; não tenho caneta; vamos logo com isso.

Acabou já; rápido; achei que seria pior!; mas não teria porquê, não bebi ultimamente; meu Deus, em Itupeva caguei pra caralho; tinha bebido à beça no dia anterior; se bem que outro dia também, caguei pra caralho, e não tinha bebido; meu irmão também tava reclamando; seja o que for que estamos fazendo, vamos parar; cagar desse jeito não dá; levantemos, papel grudado na coxa; ta limpo; que bosta isso tudo; incômodo; de pé; opa, vou cair; seguremos na parede; cair com as calças arriadas seria o fim; vamos lá; vamos lavar as mãos.

Que frio este banheiro; muito grande, janelonas; todas abertas; rolos de papel em todos mictórios; pra enxugar o pau depois de mijar; quem faz isso; químicos, químicos; “pressione”; vamos lá; sabonete preto; vou ensaboar a mão com petróleo, agora; “press”; é roxo; de uva; “presionar”; é verdade, de uva; cheiroso; pasta Tandy de uva; Tande; como o jogador de vôlei; “fechamento automático”; ele era o careca; tinha o Nalbert; a mãe dele dizia que era “Nalbér”; e não “Nalbert”; “self-closing”; ele era careca; “cierre automático”; vôlei é mó bosta; cara, isso não fecha; que beleza; dá tempo de sobra pra enxaguar a mão; de sobra; não fecha nunca; fechou.

2 Comments

Filed under Coitado do Manolo, Escrever, Flashback, Não foi bem assim, Que papo é esse?

2 responses to “Flashback – Uma relaxada

  1. b

    penso as mesmas coisas, e sou menina.
    propaganda de activia fica dizendo que mulher tem frescurite pra cagar, mas tenho nada! no banheiro da farmácia não tem como ter frescura.

  2. Si

    E que beleza era ter que ir pra outra unidade só pra cagar.
    Ri sozinho ao lembrar dos quatro no carro seguindo aquela mulher histérica que teve o carro amassado graças a um amendoim.

    Belo blog.

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