Ahem… que papo é esse?

Boa noite, meus amores! Como vocês estão bonitos esta noite!

(murmurinho)

-Deve ser a iluminação, todo mundo fica mais bonito à meia luz.

Que é isso, loirinha! Você sempre esteve linda! Eu te amo!

-Ai, eu te amo também! Nunca tive coragem de dizer isso, mas é verdade.

(as mãos se tocam, os lábios se aproximam, se beijam)

(Rafael, então, acorda com a bochecha gelada)

Cacete… porra, babei no meu travesseiro todo.

(sonolento) QUE FOI?

Porra… você tá dormindo na minha cama?

(ainda sonolento, porém mais claro) PO VOCÊ DISSE QUE TUDO BEM

Eu disse? Quando? (limpando a baba do rosto, cheirando o travesseiro. O cheiro de saliva é horrível. Vira o travesseiro)

DEPOIS DO FILME

Mano, que filme?

UMA RUA CHAMADA PECADO QUE A GENTE VIU ANTES DE DORMIR PO

É verdade, com o Marlon Brando, né? Da Stella, né?

É STELLA (finge que grita)

(falando alto) Stellaaaa.

(já gritando) STELLAAAAAAAAAAAA!

(claramente empolgado) Stellaaaaaaaaaaaa!

(Rafael acorda, alguém o sacode. Fala, ainda sonolento) Uhm… que foi?

-Você tava falando enquanto dormia, Chefia. Tava gritando.

Eu, eu tava gritando?

-Tava, chefia. Gritando “Stella”. Como o Stanley.

Stanley?

-Stalney, chefia; de Um bonde chamado desejo.

Ah, sim, o Marlon Brando.

-Marlon Brando?

É, do filme…

-Não, chefia. To falando da peça do Tennessee Williams. Stanley Kowalski.

Sim, você nunca viu o filme?

-Nem sabia que tinha filme. É novo?

Novo? Não. É antigo, com o Marlon Brando.

-Marlon Brando? Não conheço.

O ator, clássico, bonitão.

-O que morreu num acidente de carro?

Não, esse é o James Dean.

-Jesse James?

James Dean.

-James West?

Will Smith?

-The Smiths?

Agente Smith?

-Senhor Smith?

Senhora Smith?

-Aerosmith?

Chicão, qual o sentido disso?

-Não sei, chefia, não sei. Da vida?

Não, disso aqui, desse papo todo, nada faz sentido.

-Chefia, as coisas… as coisas só fazem sentido quando eu estou com você.

Chicão, não brinque com meus sentimentos.

-É verdade, chefia.

Chicão, você sab-

-Chefia,-

Oi.

-Eu te amo, chefia-

Eu te amo, Chicão. (lágrimas nos olhos)

(as mãos se tocam, os lábios se aproximam, se beijam. Se abraçam, Rafael chora. Uma lágrima escorre pelo seu rosto)

(Rafael, então, acorda com a bochecha quente)

(sonolento) Cara, o que (se dando conta) o que é isso?

(todos, em coro) -Surpresa! Feliz aniversárioooo!

(Rafael se senta na cama, acaricia o cachorro que pula em seu colo, coça a cabeça, arruma o cabelo e depois se arrepende, pensando Será que este cachorro está limpo? Mas acredita que sim, pois o cachorro cheira bem, saído do pet shop) Como, como assim? Mas… não é nem meu aniversário,

-Ah, chefia, a gente sabe, mas não seria uma festa surpresa se não tivesse uma surpresa!

A GENTE QUIS FAZER UMA SURPRESINHA

-Você merece – diz a loirinha.

EU QUE DEI A IDÉIA DO CACHORRO

Mas vocês sabem que eu odeio cachorro.

-Eu falei que ele não gostava de cães.

-Po, chefia, dá pra trocar.

E DE GATOS DE GATOS VOCÊ GOSTA?

Náo, nossa, pior ainda!

-Ele odeia gatos, eu disse! Ele odeia animais!

-Nenhum animalzinho, chefia?

-Só macaco – dizem Rafael e a loirinha, em uníssono.

(os dois riem com a coincidência, se entreolham. Ela está de blusa verde, Rafael pensa em tocar o seu seio como se fosse por acaso e dizer Verde, verdinho, me dê sorte hoje e amanhã depois ele pensa É assim mesmo que se diz? depois esquece e continua observando o suéter verde, apertado, da loirinha. O Homem do Caps Locke encara Chicão – ambos sem graça. O cachorro continua requerendo carinho. A loirinha olha pra sua blusa, e diz)

-Verde verdinho.

(Rafael arregala os olhos e pensa Mas como você sabia? aguarda um pouco, e pensa Tá, ela não lê minha mente)

Mas como você sabia?

-Ah, acho que a gente tem muito em comum – ela pausa – ou eu sou só obra da sua imaginação.

(acorda exasperado, dá um salto na cama, senta-se, com a respiração rápida)

NOSSA QUE PESADELO

(estende a mão até o criado-mudo, busca o copo d’água, esbarra sem querer e derrama tudo)

POXA OLHA O QUE EU FIZ QUE BAGUNÇA

(o Homem do Caps Locke se levanta)

VOU BUSCAR UM PANO PRA SECAR ISSO JÁ VOLTO

(sonolento, Rafael se esforça para abrir um olho) Quê? Quê? Tem alguém dormindo aqui? Hein? (grita) Hein? (balança a cabeça, mesmo deitado) Cacete…

(Rafael desiste de tentar entender e adormece. Dorme, dorme, e tem um sonho muito loco)

(quer dizer, talvez nem tenha sido tão loco assim)

(mas foi loquinho)

(loquinhozinho)

(tá bom, foi um sonho normal, em que ele tava na escola. Tá bom, e aí? A culpa não é minha! To só narrando o que acontece!)

(porra)

2 Comments

Filed under Coitado do Manolo, Escrever, Não foi bem assim, Que papo é esse?

2 responses to “Ahem… que papo é esse?

  1. F

    Porra, Rafael! Eu tava num pet shop agora e pensei, como vc pode odiar cachorros? Não tem nada pra se odiar sobre eles!
    A dona Ruth e o bigode deviam ter te comprado um filhotinho qdo vc era criança….

    • Eles compraram, e o cachorrinho morreu tragicamente, uma madrugada. Eu estava vendo tevê, e fui o primeiro a ver o corpo inerte do meu cachorrinho na cozinha. Pior que o papo é sério. Que coisa triste…

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