Rafael, um olho só

Não vou revisar nada. Não consigo nem olhar pra esse monitor.

Nossa, faz quanto tempo que eu não posto aqui? MESES?

Estimativas mais realistas apontam dias.

Tô num desanimo, perdidinho. Fui abrir uma mensagem do msn, quase fechei o firefox. É  assim que eu to, com um olho só. Não consigo nem olhar diretamente pra tela do pc, ela me parece claríssima, brilhante. Mais de 5 minutos olhando pro monitor eu já tenho enjoo, desânimo, tédio agudo.

Quinta-feira caiu alguma coisa no meu olho, quando eu estava no bar. Fui ao banehiro, lavei o olho, apalpei cada centímetro do meu globo ocular, fiz uma limpa na minha pálpebra, nada. Nadica.

Furiguei até não pode mais, e como estava tarde, fui dormir. Acordei, ainda o incômodo. No banho, abri desavergonhadamente meu olho e entrei debaixo do chuveiro. É estranho que eu tentava lavar o olho por completo, e quando eu olhava pra cima, soluçava. Um reflexo estranhíssimo do meu corpo nu.

Solucei, me sequei, e fui trabalhar (eu trabalho agora) e lá o corpo estranho não deu trégua. Voltando do almoço, comprei um colírio, mas nada era capaz de aplacar minha dor. Fui ao hospital pra que um especialista desse uma furigada, mas meu plano de saúde não cobria uma olhada na vista naquele hospital, que pena. Peguei o metrô e dei um rolê, chegando até um prédio comercial, nono andar, onde um oftalmologista baiano certificou-me de que minha retina estava toda lesionada.

-Você se envolveu numa briga – ele perguntou, calmamente.

-Não.

-Você teve um encontro com uma fera?

-Haha não.

-Já sei o que foi – falando pra si mesmo – o outro rapaz deveria estar com a barba por fazer, e acabou por riscar toda sua retina. Vocês me arrumam cada uma.

Pingou um colírio anestésico no meu olho esquerdo (“Arde nas mulheres. Nos homens arde um pouco mais”), virou minha pálpebra ao contrário, tudo isso com a luz apagada, só a lâmpada de fenda iluminando e revelando minha retina. Pegou uma agulha, tirou da embalagem – com o olho bom, eu vi.

-Não olha! Não se pode olhar!

-Você vai usar essa agulha no meu olho?

Rafael tremia de medo, mas ele explicou que era a melhor alternativa. Até aí, de vista eu entendo só de olhar bundinhas na rua, então eu falei:

-Ok.

-Você tem que entender que é uma agulha numa mão com… pouca experiência.

Meu olho esquerdo já não via mais nada e com o direito eu ficava delirando desesperado.

-Não se mexa.

Eu tinha só o queixo apiado no suporte, com a mão já tentava alcançar a maçaneta da porta. O pânico tomava conta de Rafael, e as agulhadas no globo ocular não ajudavam em nada.

-Não se mexa, senão seu olho vai pro espaço.

-Ainda bem que eu tenho outro.

Mandou-me sentar na outra cadeira e fechar os olhos. No caminho, vi pelo espelho que meu olho esquero estava todo laranja. Dahora! Sentei.

-Estou querendo fechar este seu olho.

Fechou com um protetor ocular. Recomendou não beber, não fumar, não cutucar, não molhar e, acima de tudo, não trabalhar.

Saí de lá animado, até. Coloquei meus óculos escuros, e me sentia o Fantasma da Ópera, com aquela faixa bege por debaixo. Que coisa medonha. Todo mundo me ligando pra saber o que tinha acontecido. Atravessei a rua correndo, e chegando do outro lado já percebi que não seria fácil. Na plataforma, andava com medo de cair nos trilhos do metrô. Queria me abraçar a uma pilastra, deitar no chão, qualquer coisa. Chegou o trem, entrei, desci no meu trabalho, pegar minhas coisas. A desorientação era tanta que saí andando pro lado errado. Dei meia volta e fui pro lado certo. Atravessar a rua foi um terror, já que os carros vinham da esquerda, meu blind side. Entortei todo o pescoço, não vinha carro nenhum, olhei pra frente, ninguém no caminho, torci o pescoço de novo, nenhum carro: fui correndo. Já pensou ser atropelado, caolho desse jeito?

Fui andando com cuidado, apesar da pressa. Qualquer linha horizontal no chão parecia um degrau – e algumas eram. Não foi nada fácil. Cheguei no trabalho e o pessoal me chamando de pirata, óbvio. Peguei minhas coisas, saí e fui esperar a Stela no shopping.

Eu não tinha noção nenhuma de profundidade (nem agora eu tenho), e me sentia um verdadeiro otário na livraria. Que coisa triste. Fiquei deprimido. E as luzes, minha obsessão por virar o rosto pra todos os lados, tudo aquilo me cansou demais. Sentei num banco e fiquei com os olhos fechados. Assim fica bem melhor.

Ficar com um olho só não é fácil. Eu fico quieto, retraído, com medo de cair, de derrubar as coisas. Não dá pra ver tevê, nem ler, nem nada.

3 Comments

Filed under Bunda, Coitado do Manolo, Crise!, TL;DR

3 responses to “Rafael, um olho só

  1. tenho esse seu blog nos favoritos há tempos, leio quase sempre e nunca comento porque não gosto de comentar. Hoje vi aí sua triste história, cara, deve ser um saco ficar sem olhos eu só de ser miope e sair sem oculos quero morrer, me sinto inválida. Engraçado, quando li sobre seu olho no twitter achei que era brincadeira. Isso que dá ser um zoeira, Rafael.

    Mas sendo verdade, melhoras ae. Deve ser uma merda ser chamado de pirata pela galera do trabalho, beijos.

  2. HominisCanidae

    hauhauhahuahua

    Po fafa, ficou engraçado ate pra ser triste.

    e aproveita a fama ai, come alguem…

    ijaahuauahuahu

  3. jorge

    reabri teu blog pra ver se tinha algo novo e tinha!.
    fui lendo, papapei.
    até que cheguei numa palavra, e nao consegui mais me concentrar em nada. fiquei pensando numa cena.

    seguida dessa.

    mas enfim!.
    ainda tá caolho filhão?!
    vamo beber uma BREJA ENTAO!.

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