A musa de Rafael

Qualquer lugar que você vá, qualquer lugar, você precisa, e rápido, arranjar uma musa. Rapidamente. Pois a vida é como um tubarão. Ou tudo, ou nada! Quer dizer. Então, você tem, você deve encontrar uma musa, assim que chegar. Pois a vida humana, quer dizer, a mente humana, ou os seres humanos em geral, mesmo os sem mente, todos nós (ou eles) são (ou somos) um místéríó, quer dizer, não era essa palavra que eu queria (ou quero) usar. A questã (faltou um o) é que todos nós (ou a gente ) (menos agente, num fala assim que é feio) (falando em menos, nem mais, quando for mas) (isso é muito feio e faz meu pau ficar mole) (isso e mais milhares de outras coisas) (quer dizer) como vínhamos falando: o mundo humano, ou o homem mundano (aka: nós) é tem a imensa capacidade (i.e.: a imbecilidade) de se adequar ao ambiente (sem h), e isso é por um lado (terrível) e por outro (muito bacana). Quero dizer (ou queremos): se voce não se decidir logo e fincar sua bandeira, fazer seu statement (isso é inglês) (em inglês, isso quer dizer o mesmo que declaración quer dizer para nós) (ou para eles) ou seja: você tem que julgar todo livro pela capa, e isso especialmente (e.g.: agora) quando você estiver falando de mulheres (mulheres).

Então foi assim que logo que cheguei averiguei todos os lados, as bundinhas, cintura, braços (finos ou não), cabelos, sorrisos e tive, DEVI chegar a uma conclusão: um homem tem de ter uma musa (e tem mesmo). Então eu me decidi, e vocês dizem “Mas esse Rafael”, e fazem com a língua tsc tsc tsc (sem vírgula) e eu tipo “Quê? Que tem eu?” e vocês “Não, num é de você que eu to falando”. Então vou ver seu twitter, você postou “Esse Rafael (Zanatto – puta babaca)” e eu “Mano! Eu to do seu lado, eu to vendo a tela do seu pc” mas você é muito mais esperto e diz “Então porque leu na internet e não aqui?” e eu não vou ter muito o que falar, vou?

Talvez.

Vocês dizem (agora é em forma de diálogo):

-Esse Rafael…

-Num acredito!

-Ele tem namorada! Num acredito que ela deixa ele falar essas coisas.

Non sequitur

Levantei os olhos por um segundo do meu livro (Cortázar) e vi passando aquela bela, aquela linda (vocês sabem), aquela bunda, a bunda de uma geração. na calça preta (agora sem maiúsculas, como Bukowski) de moletom (como Ice Blue) a bunda de uma geração.

na calça preta
de moletom
a bunda
de uma geração

segui
com os olhos
aquela
menina
(te
peguei
você
achou que eu
ia falar bunda)

(sincera
mente
eu também achava
mas que coisa
né?)

non ducor
duco
balbuciei
e segui
a bunda
de uma generación

de perfil
lendo
não, esse era eu

de perfil
vendo
a vitrine e a bunda
linda
sorria pra mim
que lia
nada

pensei comigo
que bunda
meua migo

maravilhosa
enorme
abrangente
maravilhosa

de novo?

Sequitur

Eu tinha dois lados pra ir: o certo, e o da bunda. Não foi nada fácil escolher. Escolhi o certo – mas quando fui ver, estava seguindo aquele pedaço de bunda, aquela bunda inteira, pra ser sincero, a completude de uma bunda, a totalidade de uma vida, de uma existência, de moletom. E eu fechando o livro e colocando-o debaixo do braço, preparado pra correr – e corri atrás, tentando compensar o tempo perdido (escolhendo qual lado ir, escolhendo errado – o certo – e pagando agora pela minha hesitação).

fui ver
tarde demais

a bundinha
quero dizer
a menina
subia a escada rolante

ninguém porém
atrás dela
exceto pela bunda
linda
maravilhosa

de novo
mano?

pensei
se eu correr
eu pego o degrau
imediatamente
sequente à bunda

mas não
não sequitur

um rapaz
pensei que era uma criança
era só um cara
baixinho

pegou meu lugar
desejado
de direito

e pra minha
surpresa
não olhava
pra bunda

Aí eu fiquei bravo, com a humanidade, com Deus, com tudo! Como um cara daquele consegue subir uma escada tão assexualizadamente?

Peguei uma cerveja, apesar de lá dentro estar muito mais frio – mas não sou um cara vão, ignorante, não ia deixar me enganar por um ar condicionado qualquer, desrosqueei tampinha no antebraço e guardei-a no meu bolso
como é
do meu
feitio

inacreditável
aquela criança
anã
infantil
pré-púbere
não olhava
secava
aquela bunda
que coisa triste uma bundinha daquela ser ignorada (e digo bundinha carinhosamente, porque de inha não tinha nada; era uma senhora bunda (mas aí fica estranho))

Na plataforma, desviei o olhar do livro pela segunda vez, pra ver aquela esfera, amarela, linda, que o sujeito carregava nua debaixo do braço, apesar da sacola de  loja de materiais esportivos a tiracolo
vazia

nos cruzamos e mantive os olhos grudados naquela esfera maravilhosa, gomada, amarela, maravilhosa de novo, rafael? o cara andava com o próprio sol, o sentido, razão e provedor da vida, debaixo do braço. magro, careca, as roupas folgadas, a cara cansada, com a bola tinindo de nova, nua, em plena plataforma do metrô. encostei-me na parede balançando a cabeça reprovando os restos dos homens (e mulheres) daquele lugar que não davam valor à beleza que transbordava daquele ato simples e puro, de uma bola de futebol amarela em meio à apatia geral, só eu sou brasileiro nessa porra agora?

uma musa

li mais um pouco, esquecendo do mundo até que o trem parou bem na minha frente e vomitou tooodaquelagalera proecupada em ir embora pra algum lugar e eu entrei, quase vomitei com o último gole, seca, mas linda noite, de pé li mais um pouco, mulheres de calcinha e sutiã, magrelinhas, dançando na minha cabeça, olho pro lado, está lá, o cara, com a bola, no mesmo vagão que este
que vos fala

essa é muito manjada, não gosto muito de usar
mas uso
e falo
merda
pra caralho

-Esse Rafael…

sentei-me pedindo licença e não conseguia tirar os olhos da bola amarela linda que o cara careca observava como se fosse uma bola amarela linda razão de viver e morrer, com as pernas cruzadas, ninguém mais olhava aquela maravilha criada pelo homem (a mando de Dios) um absurdo só eu (e ele) sou (e somos) brasileiro nessa hora.

a bola amarela, coroada, o mesmo desenho elegante e clássico da tango, a sucessora da paradigmática telstar, tantas bolas, com tantas histórias, tantas bundas, com tantos caminhos, tanta gente, e eu aqui, e eu nessas.

A verdade é que foi um dia genial e brilhante. Ou geniante e brilhal. É difícil precisar…

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