Flashback – Vigésimo quarto

Boa noite a todos.

No Flashback, coloco aqui um texto previamente publicado no meu fotolog, já que vocês acham que tudo que eu escrevo agora uma bosta! Seus filhos das putas!

Deste texto eu gosto. Deve ser o maior já postado aqui. Acho que foi um dos primeiros que escrevi nesse formato e que usei vários estilos seguidos. Tudo isso copiei, confesso, de James Joyce (por mais babaca que seja confessar uma merda dessas). Mas digo isso só pra lembrar o sétimo capítulo de Ulisses que começa com um belo

NO CORAÇÃO DA METRÓPOLE HIBÉRNICA

e segue com vários subtítulos, como meu texto da vez.

Enfim, James Joyce é uma referência estilística, enquanto o conteúdo fica na conta do Bob Dylan e Shakespeare, e o texto não tem título, começa com um subtítulo

VIGÉSIMO QUARTO

Com meu vigésimo quarto aniversário se aproximando, hoje devemos prestar uma justa homenagem a mim mesmo (e não vai ser punheta, não). Hoje, para celebrar minha muito mal vivida vida, vou contar uma história baseada em fatos reais. A história de um homem (não sou eu) chamado Rafael Zanatto (ta bom, sou eu), que um dia foi ao puteiro, e no seguinte, à faculdade. É uma história de luta e gloria, álcool e vômito, desejo e decepção, prostituição e cultura chinesa.

NO CORAÇÃO DA METRÓPOLE SOLÁCEA

Era uma quarta-feira como todas quartas-feiras em São Bernardo: chuvosa e fria. Estávamos sentados à mesa do bar em razão do VERME DO CARALHO DO FELIPE! VERME! VERME! Tava fazendo, sei lá, 20 e poucos anos! Sei lá! QUE SE FODA ESSE FILHO DA PUTA DE MERDA!

Porra!

Pois bem. O fato é que a Terra havia girado em torno do sol aproximadamente vinte (e poucas) vezes, e que se o Felipe fosse um São-bernardo, além de levar o nome da cidade em seu sangue, teria comemorado seus vinte e poucos anos em meados de 87, talvez 88, e, by now, já estaria mortinho da silva, e NÃO CRIARIA ABORRECIMENTO PRA NINGUÉM MAIS!

Mas o fato é que ele cria. Portanto, reunimo-nos num estabelecimento na rua Continental famoso por servir cervejas quentes a preços de gelada, e lá tomamos algumas copas. É notório o efeito do álcool no corpo humano, e assim que nos embriagamos, foi questão de tempo para uma idéia germinar e florescer nas cabeças pós-adolescentes dos jovens que ali, na rua Continental, a poucas centenas de metros da via Anchieta, se reuniam em ocasião do aniversário de um verme.

A IDÉIA FOI PROPOSTA

A idéia foi proposta e logo aceita pela mesa deliberativa. Pedimos duas garras e a conta. Tomamos a cerveja, saldamos nosso débito, entramos num carro – provavelmente no de propriedade do senhor meu pai, mas guiado pelo seu prodigioso primogênito.

AO LUPANAR

Chegamos ao lupanar. Um estabelecimento baseado, como qualquer outro sob o regime capitalista vigente em grande parte do mundo atual, na permuta de um serviço e/ou produto por certa compensação financeira. São negócios. Um negócio como qualquer outro. O que, nesta vida, não é uma relação econômica? E o que, nesta vida, não é uma relação sexual? Pois bem, tudo é. E eu to de olho em você.

A BELA ÉPOCA

A vida continua, e esse texto também deve continuar. No alto se lia, em neon, “Belle Époque”, e sob o pórtico estávamos abrigados da chuva. Chegada a hora, o segurança explicou as leis da casa: “15 reais, três cervejas”. Nossos negociadores entraram em ação, e a tarifa foi reduzida para 10 reais. Não houve alteração na quantidade de cervejas.

O HERÓI DE TODAS AS NOITES

Adentramos o lupanar. Lá havia um bar, havia mulheres, havia homens e havia nós. No bar havia cerveja. As mulheres eram feias e usavam poucas roupas. Os homens eram casados e usavam camisa e gravata. E, dentre nós, havia duas pessoas que merecem menção, por um lado e por outro, o destaque negativo e o positivo da turma. O negativo é, obviamente, Felipe, por se tratar de um sujeito desprezível, de baixa moral, verme humano. O positivo também é óbvio, e vocês sabem de quem eu estou falando! Isso mesmo! Nosso herói de todas as quartas-feiras! E de todos os outros dias também! O ser humano mais amável entre todos, aquele que é protagonista de todas minhas fantasias sexuais (vocês são os coadjuvantes, meus amores)! O neto favorito da minha vó (ela que disse, apesar dos protestos de Bruno e Marcelo Zanatto)! Exatamente!

Fui ao bar, adquiri minha primeira cerveja, abri a lata, comecei a beber e sentei-me na passarela, onde havia um poste próprio para a dança. Sentamo-nos todos, com nossas cervejas nas nossas mãos, e conversamos, como se estivéssemos no recreio da escola. Isso se vendesse cerveja e sexo na escola. E não é que vende?

ESSE MEU BRASIL

Logo, profissionais advindas das terras mais pobres desse meu Brasil se aproximaram, como corvos. Nós, por nossa vez, sorrimo-lhes cumprimentos, como hienas. A mulher tinha um sotaque nordestino bastante acentuado, e se sentou no meu colo, onde não havia nada acentuado. Assentou-se, e deitou as pernas sobre os colos de meus colegas. Ela tentava nos comover sexualmente. Estávamos bem comovidos já. E alcoolizados. Derrubei cerveja (como é do meu feitio) em sua perna. Ela disse “Lambe”. Eu pensei “Hã?” Ela disse “Lambe”. Catatônico, eu. Ela disse “Lambe… dá tesão”. Fui lá e lambi! Cacete! Num é que eu lambi mesmo?!

METAL

Lambi a cerveja de sua coxa, ela gemeu e disse “Ai, dá tesão”, e eu achando aquilo tudo muito inadequado. Ela continuou, e conclamava todos meus colegas a lamber também. André Metal, vulgo André Metal, inclinou-se e lambeu. Lambeu exatamente o mesmo lugar que eu havia lambido. INACREDITÁVEL, METAL! Mas é compreensível. Metal lambeu de medo. O medo de lamber a minha baba foi superado pelo medo de lamber diretamente uma prostituta. As coisas são assim, e não há nada que cause mais medo que um outro ser humano.

A HARD RAIN’S A-GONNA FALL

Bom. A vida (àquele momento) tinha que continuar, assim como esse texto (àgora), então peguei minha cerveja, que repousava gentilmente sob o palco. Segurei a lata com minha mão direita, e a cerveja começou a cair às bátegas. O líquido era despejado violentamente pela boca da lata que, por alguma razão desconhecida (ou muito bem conhecida – e.g.: o álcool), agora estava voltada para o centro magnético da Terra. E vocês sabem como funciona essa gravidade. Minha cerveja foi estupidamente desperdiçada, e eu não podia culpar ninguém a não ser a mim mesmo. Ou ao Felipe, aquele merda, já que era aniversário dele! Dapulta!

IT TAKES TWO TO FUCK

A noite foi se desenrolando, diferentemente deste texto que custa a se revelar. Sentei-me num banco privativo ao lado de uma mulher. Olhei ao meu redor, e lá vi homens casados, de camisa e gravata, bolinando as outras profissionais. Senti uma pequena tristeza, mas eu estava bebaço, pra te dizer a verdade, então a tristeza foi embora, como um passarinho imundo que voa livre. Ela se oferecia, e eu dizia “Meu amor, não tenho dinheiro nenhum”, na verdade eu não dizia exatamente isso, mas e daí? HÃ? Quer uma reprodução estritamente factual e acurada da noite? Quer? Que se você quiser, eu posso fazer, mas vai ser mó bosta! Então fica quietinho aí! E quietinha você também. Não adianta desviar o olhar! Eu sei o que você quer! Uhm, eu bem sei. Você está pensando “Uhm, será que agora vai rolar um sexo, nesse texto? Por que eu sou LOUCA por sexo, mas sou muito reprimida pra sequer pensar nisso” É isso aí! Paradoxal esse seu pensamento! Fiquesperta aí! Vocês querem sexo, então? Então sexo vocês terão:

GUARANI (A HORA DO SEXO)

Na verdade, não, porque eu não tinha dinheiro. Eu dizia “Meu amor, eu não tenho dinheiro nenhum”, e ela se insinuava. Ela passou a mão pela minha barriga e enfiou um dedo dentro da minha cueca, mas eu não estava ficando mais rico com isso – apenas mais duro. Havia um cheiro estranho de borracha por todo lado. Eu disse “Meu amor, eu não tenho dinheiro nenhum”. Perguntei quando eram as variantes mais baratas de sexo e, tendo em vista as cifras, certifiquei-me que uma ejaculação naquele momento seria um péssimo negócio para o meu bolso. Sozinho sairia bem mais barato. Ela falou qualquer coisa e seu sotaque era espantoso. Eu perguntei de onde ela vinha, pois eu não reconhecia. Ela me disse que era do extremo de Mato Grosso do Sul. Eu disse “Nunca ouvi um sotaque como este. Você parece estrangeira”, e ela admitiu que seu sotaque, assim como ela, vinha da divisa com o Paraguai. Agora tudo quase fazia sentido, e eu estava a bolinar uma guarani. Peguei em seus peitinhos pequenos, e eles já estavam bem cansados e murchos. Ela devia ter por volta dos 26 anos, mas eu lhe daria 30, no mínimo. Vi seus mamilos escuros e tristes. Ela queria ganhar algum dinheiro, mas nem sempre querer é poder, e isso vale pra tudo.

R$ 5,00

Aquilo estava acabando. O expediente chegava ao fim, e as meninas estavam em polvorosa para deixar o recinto. Havia algo muito estranho na relação empregador-empregado, e uma menina baixinha, fornida, que recheava bem sua pele, pediu-me 5 reais emprestado para ir embora, pagar a condução. Eu lhe disse que não tinha trocado, e ela insistiu muito. Estava muito apressada. Incomodada, irritada. Meu coração se amoleceu por causa da violência que mora dentro de todos nós. É tudo natural, e é bem terrível.

MONEY DOESN’T TALK

Dei-lhe minha nota de 10, ela disse que ia devolver-me o troco. Saiu. Desapareceu. Meu lado animal floresceu, estremeci seriamente preocupado em ser lesado em 5 reais por uma prostituta. Coloquei a mão no bolso e senti a chave do carro. A menina voltou, e, como combinado, entregou-me meus 5 reais que sobravam do empréstimo que fiz ao próximo. Saímos da cova das lobas (e dos lobos), e nos direcionamos às nossas próprias covas.

5:00 AM

O relógio despertou. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a guarani dos peitos murchos. Seus mamilos pretos e o cheiro de látex. Senti-me sujo. A cabeça estava pesando uma tonelada, e meu peito outra. Silenciei o alarme e fui ao banheiro às trombadas. Bati o peito no batente, coloquei-me de frente pro espelho e acendi a lâmpada. A barba por fazer, os olhos inchados, descabelado. Dizem que quando você está enjoado, é só pensar no que comeu (ou bebeu), e aquilo que lhe der vontade de vomitar é a causa. Só de me ver eu estava quase vomitando.

RAFAEL SE DESPIU

E entrei debaixo do chuveiro.

CINDERELA

Na região do Paço Municipal, nosso herói está de óculos escuros, apesar do relógio contar 5:50 da manhã. O dia começa a clarear devagar, mas a garoa persiste desde tempos imemoriáveis, e não acena um fim próximo. Debaixo da árvore, o jovem Montecchio espera a interdição da via para sua passagem. Assim que lhe dão o sinal, ele atravessa, pé após pé, sobre o tapete preto e branco. Na outra margem, sobe ao passeio e pisa até onde descansam os carros.

Sob a cobertura, o carro aguarda o relógio antes de sair para sua rota. O jovem vê pelas lentes escuras muitos rostos familiares, mas nenhum conhecido. Não há uma pessoa que olhe para a outra com inveja ou pena. Compartilham todos, senão do mesmo destino, da mesma sina. Forma-se uma fila. Desacamados prematuramente, arrastam-se pela Terra, deixando sua origem e buscando seu objetivo. Ou talvez nem tanto.

Com os cabelos desgrenhados, a barba áspera sobre a cara túmida de álcool. Chega um homem que destoa dos outros. Ele tem um curativo enorme sobre o nariz inchado, e pode-se ver pontos e sangue coagulado escapando debaixo da gaze. O homem estende a mão ao jovem herói, e pede “pfavor você tem 1 real 50 centavo qualquer coisa fui despedido da Volkswagen moro em Mauá preciso só de um dinheiro pra pegar o ônibus tenho aqui um dinheiro já “ ele abre a mão onde se vê moedas de 5, 10 centavos “pfavor só preciso de 1 real qualquer coisa”. O homem que organiza a fila olha para o nosso herói e balança a cabeça negativamente. Romeu diz “Tenho nada, cara”, e com seus olhos piedosos vê cambalear cada vez mais distante o pobre diabo que tem um pé descalço e outro muito mal calçado.

A fila anda, o jovem coloca mão em seu bolso, apalpa seu dinheiro. Puxa um rolo de notas e escolhe, dentre elas, a de 5, para compensar seu chofer pela viagem que empreenderá em poucos segundos. Andando pelo corredor, ainda inebriado pela flecha que lhe atravessara o peito e o fígado na noite anterior, encontra uma amiga que serviria de companhia. Com a mais calma das vozes, R diz “Poderia eu me sentar ao seu lado?” Ela consente, e o ônibus começa a andar em três, dois, um.

NO MACHIMBOMBO

A gente ia sendo jogado de um lado pro outro, e aquilo não ajudava nada minha ressaca. Ela perguntou pra mim, disse “Que te aconteceu?” eu disse “Digamos que a noite foi um inferno. Um inferninho”, ela riu, mas não gostou. Disse assim “Não gosto nada nada disso” Eu disse “Então ta aí um lugar a menos pra você ir procurar emprego”. Ela riu, mas não gostou. Disse assim “Não sei como homens conseguem ir nesses lugares. Eu acho um atestado de incapacidade. É dizer ‘eu não consigo pegar uma mulher de verdade’”. Tirei os óculos e lá fora o céu tava branco como leite, muito claro. Coloquei os óculos de volta na cara e falei pra ela “A vida é assim. Comer uma meninas nem sempre é fácil. A gente faz o que pode”, ela disse “Pode ser, mas fazer isso com uma pessoa dessas. Que faz por dinheiro. Eu acho horrível!” Eu disse “A vida é assim. Sobreviver nem sempre é fácil. A gente faz o que pode. Trabalho é trabalho.” Ela não gostou nada nada e nem riu! Eu sei que ela é dessas pessoas que não acreditam que a profissão mais antiga do mundo seja uma profissão de verdade. Às vezes até eu duvido. É difícil encontrar satisfação profissional numa época bela como essa nossa. Eu disse “Você também trabalha, você sabe como é. Você vende seu corpo, seu tempo. Não é com sexo, mas é por dinheiro, da mesma forma”. Ela estava gostando cada vez menos e me interrompeu “Uma puta! Isso é profissão?!”. Fiquei olhando pra frente enquanto o machimbombo continuava feroz comendo a pista (ou não tão feroz assim, porque tinha muitos carros na rua, e a garoa, você sabe como é), o mundo correndo pela janela, meu estômago se revirando. Eu disse “Um trabalho, com qualquer outro nome”.

CRUYFF

A viagem chegava ao fim, mas o dia estava mal começando. R, que geralmente pensa num porralhão de coisas enquanto o ônibus contornava as rotatórias, célere e semi-desgovernado, agora só pensava em se manter vivo até seu ponto. Suas entranhas eram céleres e semi-desgovernadas também. E a tristeza, que tristeza. Relembrando a guarani, a tristeza era maior ainda, e o cheiro de látex voltava à sua imaginação. Cheirava os próprios braços “Tomei banho, mas parece que to com aquele cheiro ainda”. Não, não, R. Esse cheiro é o cheiro da culpa que lhe corrói. O ônibus parou com sofrimento em frente à faculdade de filosofia, letras e ciências humanas, como um mamute agonizando. Passamos a catraca, pisamos os degraus e apeamos a calçada. Era uma tristeza, aquela vida era uma tristeza. A vida é uma coisa injusta de vez em quando. A vida dá uma virada nas coisas. É o Barcelona campeão um de Eto’o e outro de Belletti, mas é a Holanda derrotada também. E nem foi pênalti. Johan, eu te amo.

FHC

Atravessamos a rua, e eu não queria papo, não. Nem ela. Ficou brava com a minha defesa da prostituição. E eu fiquei bravo com esse papo pequeno e preconceituoso. Tudo é natural, o que eu posso fazer? Pode não ser bom, mas as coisas acontecem assim. Somos assim. Eu não queria papo. Subimos os degraus, e nossos caminhos foram divididos nas veredas que se bifurcam. Eu disse “Vou ali resolver um problema pessoal”, e virei à esquerda. Ela disse “Tá” e foi à direita. Ela foi pra faculdade de Letras, junto com todos os cretinos que lá estudam. Eu fui pra Ciências Sociais, que agora estava vazia. Somente os guardas. Fui ao banheiro, entrei na cabine e estava escrito na parede “Sic transit gloria mundi”. Dei de ombros. Pensei no ex-presidente. “FHC mijou aqui”. Será que FHC já fez isso? Curvei-me, apoiei as mãos nos joelhos, tirei os óculos e coloquei-os no bolso. Então fiz o que tinha que fazer.

AMARGO

Amargo, amargo. Tem gente que não gosta de vomitar, que tem horror. Eu não me importo. É tudo natural. Vomitei quase nada. Somente bile diluída. Toda a água que eu tomei no ônibus, vindo pra cá. Com vômito pendendo no queixo. Não tinha nojo nenhum. Limpei com a mão, e limpei a mão na calça; “É só vômito”. Lembrei da vez em que o Felipe vomitou aqui em casa, e eu tive que cuidar. Crie corvos, e eles te arrancarão os olhos. É, pra você ver. Eu não me importo. É tudo natural, eu entendo, eu entendo, meu bem. We’re all sensitive people. Coloquei os óculos escuros de volta na cara, dei descarga e saí. Lavei as mãos, claro. Tomei um gole d’água no bebedouro, e estava doce demais, como era de se esperar. Ela estava doce, mas eu estava triste. Continuava pensando na guarani, na cerveja (que não mais me trazia enjôo), e em mulheres. No final das contas, tudo dá nisso. E eu sou um cara pessimista. Amargo, amargo.

PRINCESA NA TORRE

Vou pra Letras, pra minha aula que logo começa. Pelos corredores labirínticos do supostamente provisório prédio decadente, vem uma menina. Ela vem deslizando pelo chão, com a bolsa a tiracolo. Vem uma menina. E R, de ressaca, só tem olhos pra ela. Faz eu me sentir pequeno, minúsculo. Nem me percebe. Passa por mim, com os olhos sempre em frente, o nariz levantado, cortando o ar. Eu me viro, vejo-a de costas. Ela não olha pra trás. Não, não olha pra trás. Ela é uma menina muito bem cuidada. Com suas apostilas de grego. Ela acordou faz meia hora. Tomou banho e veio pra cá, pra essa brincadeira em universidade pública. A menina de Pinheiros, Butantã. Ela vem pra cá pra aprender. Ela faz poesia. Ela tem tudo que ela precisa. No terceiro ano, vai trancar a faculdade pra viajar pela Europa. Já posso ver. Essas pessoas já têm tudo feito.

MISTÉRIOS DO UNIVERSO

Romeu agarra tudo que há no bolso de sua jaqueta. Abre a mão, e lá estão: duas moedas de cinco centavos, três anéis de lata e uma tampa de cerveja. Os anéis são do prostíbulo, mas e essa tampa?

ALTIVO

O que há com as pessoas? O que há comigo? Continuo perambulando, errando o passo, pensando na minha vida cretina, de álcool e puteiro. Como eu ainda consigo me sentir melhor que as pessoas? A resposta é fácil: eu não consigo.

CULTURA CHINESA

Entro na sala, e logo atrás de mim chega Mario Bruno Sproviero, como um trem desgovernado. Ele é baixinho, e hoje abotoou a camisa errada. Com o santinho no peito, os óculos fundo de garrafa, ele é genial. Com o cabelo grisalho penteado para o lado, ele chega dando desculpas, mesmo sem ter motivos “Hoje consegui chegar a tempo” sua voz tem algo de desesperado, é muita inteligência para uma forma passageira como aquela “Cheguei a tempo, mas vamos esperar um pouquinho, bom dia, esperar as pessoas que ainda não chegaram”, ele percebe que a camisa está abotoada errada, vira-se de costas e arruma. “Abotoei errado, saí de casa com medo de me atrasar, mas cheguei mais cedo”. Mário ta com dinheiro no bolso da camisa. Dá pra ver 50 reais ali. Dá-lhe, Marião! Começo a anotar, com meu cabeçalho de costume Hoje o dia começou bem! Vomitei. Estou de ressaca. Ontem tivemos uma noitada no bordel. Um programa, no mínimo, curioso. Olho para o lado, Siola está anotando freneticamente. Grande cara, o Siola. Volto pro Mário, e ele já engatou a quinta na Cultura Chinesa, e não ta nada fácil de acompanhar. Ele vai falando, uma torrente de informações, o cara é um gênio, é tão inteligente que não consegue nem colocar em palavras o que se passa em sua cabeça. Eu anoto pequenas frases Organização social sempre mais complexa, 221 A.C. Lao Tsé – especulação é mal! Radical! Se uma pessoa age bem, não precisa aprender nada! O saber existe para o bem! – Confúcio. Lao-Tsé – o saber leva ao mal. Educação: Moral – Inetelectual? Perfeição moral, perfeição intelectual. Educação – moral; Instrução – intelectual. Quer dizer então que eu sou um cara instruído, mas não educado? Deve ser isso aí.

MÁRIO DIZ

Sei de tudo, na-hã-ham, num sei de nada! É o Fausto! Ele queria saber de tudo, de tudo! E descobriu que não poderia saber de nada! E então vai partir pra ignorância! Vai pedir ajuda pro diabo! Mefistófeles! O homem sabe o que sabe e o que não sabe! Pode ser uma frustração tremenda! Tremenda! Pra quem quer saber de tudo! Pessoas que não sabem avaliar sua força fazem despropósitos! É como em Macbeth! Você não é na ação o que é no pensamento? ‘Tô torcendo pra que morra alguém!’ Então vai lá e mata! Do pensamento até a ação tem um caminho! Uma batalha é travada no pensamento! Você não pensa e faz! Como num jogo de futebol, que o juiz é um ladrão, e você fala ‘Eu queria que morresse, aquele juiz de futebol desgraçado!’ Então que a torcida vá lá e mate! Na infância, a criança aprende! Na adolescência – que é uma fase terrível! Terrível! Você duvida do que aprendeu! É uma fase horrível! É uma dúvida tremenda! É horrível ser adolescente! Na vida adulta, você tem aquilo que sabe, mas desta vez fundamentado! Passa pela dúvida, você cria seu próprio conhecimento! A partir da crítica! E você diz “Eu amo a verdade” – Ama nada!!

AND THE SMELL OF THEIR ROSES DOES NOT REMAIN

Tem alguém com compras no elevador, então eu vou de escada. Talvez não seja – não é a melhor alternativa. E agora ta com vergonha do quê? Já no terceiro andar to quase botando tudo pra fora de novo. Tomei o quê, uma garrafa d’água? Cuidadinho, você pode vomitar. Cuidadinho, você pode desmaiar. Desmaiar no corredor, rolar escada abaixo, se estropiar todo. Tudo por encher a cara, ir ao puteiro, bolinando a guarani, aquela pobreza, que tristeza. Eu pelo menos mantenho minha cabeça em pé, tento passar como um ser humano normal no sétimo andar tem alguém no corredor “Opa!” Putaquepariu. Mãe, to doente. Mãe, pega um copo d’água pra mim. Mãe, joga meus lápis fora. A luz é forte demais. Mãe, fecha a janela. Cada degrau é uma eternidade. Minhas coxas já queimando. Nem tenho mais o que vomitar. Vou vomitar minha dignidade. Só isso que me resta. Mentira; aonde foi que deixei minha dignidade? Talvez tenha sido no banco do carro. Ou na mesa do bar. Ou na privada da faculdade. Caralho. Nagüento. Puta m. Romeu já não é mais o mesmo jovem cheio de vigor de outrora. Agora, arrasta-se pelos degraus de seu palácio, pendurado nos balaústres, vomitando o que lhe resta de vida. Sem amor, sem ninguém. Sua muito mal vivida vida – “Elas se foram”, suspira sua consciência, dia a dia. Não lhe resta nada além de um leito sujo. Seu dinheiro são pedaços de metal sem valor. Pára de cócoras à porta de sua alcova escura e imunda. De gatas chega aos pés da cama, deixa o corpo cair no chão, ainda segurando a barra do lençol sebento. Deitado, suspira. Olha para o teto, vê o dossel roxo, poeirento. Com muito custo se levanta, apenas para se jogar na cama. Agoniza alguns instantes, dobra-se e expira.

1 Comment

Filed under Blog, Coitado do Manolo, Flashback, Gaye, Não foi bem assim, Peitos, Punheta, Putaria e abominação, Que papo é esse?, Ressaca, Seres Humanos Reprováveis, TL;DR, Zimmerman

One response to “Flashback – Vigésimo quarto

  1. Siola

    “Cara, acabei de vomitar… só bile!”
    Eu lá com as pernas espremidas naquelas fileiras quase inexistentes me perguntava como alguém pode tratar o vômito como algo tal natural e corriqueiro.

    Texto formidável, ou melhor, tremendo! Um tremendo texto! Cícero não escreveria melhor! Tremendo texto! Tremendo!

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