Os ribeirinhos estão loucos

Os ribeirinhos estão loucos, e talvez essa seja o único bem inalienável destes miseráveis.

Eles não vivem em muitos, nem em poucos. Vivem em alguns, e comem peixe e macarrão, ou qualquer outra coisa, na verdade. Atravessam a rua como todo mundo: sem necessidade de faixa nem semáforo – em alguns casos, nem de rua. Só atravessam e foda-se.

Vestimentas mínimas, primárias, apenas o necessário. As mulheres têm como costume usar shorts jeans, e raramente são gostosas. Confunde-se adolescentes com anciãs, gordas com grávidas, homens com mulheres, mulheres com travecos, travecos com meninas, meninas com cães, cães com gatos, e gatos com sacos plásticos, sacos plásticos com montes de areia, montes de areia com mulheres.

Todos bebem, inclusive as crianças. Água, fique claro. Bebidas alcóolicas, especialmente os homens, mas também as mulheres. Cerveja é a favorita, sendo seguida pela pinga, e em terceiro lugar, cynar.

Futebol é o esporte das massas, tendo suprimido a ascensão do críquete, que vinha se mostrando o passatempo favorito das classes menos abastadas. Uma turba furiosa de adeptos do futebol, em apenas uma noite, sequestraram todos os tacos e bolinhas apropriados, deixando em seus lugares bolas de futebol. Assim, não houve outra opção a não ser rolar a criança no gramado e mandar, sempre que possível, pro gol.

Os ribeirinhos estão loucos, especialmente depois que eu fui pesquisar exatamente o que é ribeirinho, aqui na internet. Aparentemente, a definição mainstream, dos formadores de opinião não corresponde ao que eu tinha em mente.

Não por isso, eles continuam a batalha da vida, dia após dia, sem saber qual dos candidatos, afinal, tem o apoio do Lula; e muitos têm dúvidas sobre quem realmente foi FHC. Se é que foi.

Literatura não chega a ser o forte dos ribeirinhos, mas há um poema épico muito famoso, que segundo os estudiosos locais, foi “escrito em forma oral”, o que é uma desculpa esfarrapada para se gabar de uma obra sem nunca tê-la feita. Ribeirinhos que se dizem “letrados” (apesar de analfabetos) declamam passagens longas e obscuras, aparentemente baseadas no que está acontecendo no momento (“Olha / Passa o carro / Fusca preto / Lembra daquela música / Atravessa a rua / Gordinha de shortinho”) até que o leitor/ouvinte desista/morra.

Toda noite, como todo mundo, os ribeirinhos se preparam pra dormir. Escovam os dentes e colocam a tevê no timer. Buscam um copo d’água e deixam sobre o criado-mudo. Então, em momento oportuno, entram na sala em plenos pijamas e dão boa noite às visitas. São 9:45 da noite, e os convidados ainda nem terminaram o macarrão.

2 Comments

Filed under Crise!, Não foi bem assim

2 responses to “Os ribeirinhos estão loucos

  1. Malinowski nao faria melhor

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