Monthly Archives: November 2010

Metal Merda Machine

Primeiro entrou no palco um típico metaleiro do metrô, calça e camiseta preta, rabo de cavalo, foi lá e deu uma marretada no tambor – foi aí que eu percebi que aquela mancha clara ao fundo do palco não era uma nuvem, mas sim o reflexo da pele do tambor. Que surpresa. Nisso, rolando ao fundo uma paranóia, delirante mesmo, o som ia e voltava, todo mundo apreensivo. Depois, Ulrich Krieger, o metaleiro do metrô, resolveu arrebentar também o gongo, que de começo não soava, mas depois ligaram a porra do microfone e o negócio ficou grandioso, todo mundo aguardando o homem, e ele chegou.

Andando velho, as calças largas por causa da frauda geriátrica, o roadie conduzindo-o pelo braço, sentou atrás da sua very own mesa de som, na cadeira ergonômica, pediu uma guitarra tal, o cara lhe deu, e começou a tocar coisas sem sentido, distorção no máximo, anything goes, e o loirão (que, lendo na fichinha, eu acreditava ser o Ulrich, mas o loirão não é alemão, não) só lá no msn nos Macs dele (dois, o cara é mó boy). Então ficamos assim: da esquerda pra direita, Sarth Calhoun nos Macs, Lou Reed na cadeira, e Ulrich Krieger vestindo e plugando o saxofone tenor.

A música confusa, ambiental e difusa do Metal Machine Trio fazia o  público levantar diversas questões, algumas inclusive de caráter metafísico. Como: Quem sou eu? Por que estamos aqui? Por que ele está fazendo isso com a gente? Será que ele ficaria bravo se eu levantasse e saísse? E se eu der um murro na cara desse velho, será que ele aguenta? Quantos anos tem esse cara?

Enquanto Lou Reed alternava tocar notas dispersas, pisar os efeitos mais malucos e apertar botõezinhos debarulho, Sarth tava processava ao vivo (sei lá o que isso quer dizer, mas é o que dizia o folheto), e Ulrich tratava seu saxofone como se trata uma mulher (de forma irresponsável e desesperada). Lá pelas tantas (o som era indecifrável, sem padrão algum), Lou chamou a atenção e mandou descer a porrada. Sarth concordou com a cabeça, só fechou o Facebook em um dos Macs e, com a mão direita, socou desajeitadamente um aparelho sonoro que, aparentemente, funciona à base do murro. Não importa o que faziam com seus equipamentos, dificilmente notava-se a interferência direta dos artistas no barulho constante que saía das caixas de som.

Lou gesticulou para Sarth, passando o dedo na garganta:

-Cut the crap, barbie girl.

E mandou prestar atenção em Ulrich. Os efeitos metálicos do sax não permitiu que os espectadores (nem mesmo os músicos) notassem que Ulrich largara seu instrumento e agora emitia sons guturais ao microfone. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, e quando Lou Reed acompanhou Ulrich ao microfone, falando”dabadada” preguiçosamente, o carioca duas cadeiras ao meu lado se revoltou, levantou e saiu xingando. Seu filho foi logo atrás.

Na primeira fileira, a menina, sinceramente, dormia.

Ulrich, o mais saidinho dos três, começou a fazer autêntico amor com seu saxofone. Sem a distorção, agora dava pra ouvir o que o cara tocava, e ele pirava na paçoca. Chutes no ar, assoprando aquela merda até os olhos saltarem das órbitas, se agachando, encoxando o amplificador, provocando microfonias diversas, era um caso sério.

Lou Reed chamou o roadie, pediu outra guitarra e, apontando pra algum equipamento na sua very own mesa de som, perguntou:

-Is that on or off?

-It’s on.

-Ok.

A coisa começou a tomar forma quando Lou teve a decência de tocar um acorde em uma de suas 8 guitarras disponíveis. É notável sua predileção por sons contínuos, hipnotizantes, e ele ficou lá martelando aquele mizão mi mi mi mi mi e de vez em quando um sol mi mi mi mi mi sol. Ulrich mandou um riffzinho no saxofone, e Sarth estava o bicho fazendo cócegas nos seus Macs, criando um som de chuva e trovões.

Assim que o roadie entrou no palco trazendo a Steinberger, o público foi ao delírio! Ah! Meu Deus! Toca Walk on the wild side, toca qualquer coisa, toca alguma coisa pelo amor de Deus!

Acho que alguma coisa bateu na consciência sexagenária de Lewis Allan Reed. O roadie passou a correia no vovô, ajeitou o cabo, e lá foi Lou Reed andando como se fosse morrer (e talvez fosse) até a frente o palco. Luz nele, aqueles movimentos geriátricos, o cara tá velho que impressiona de ver como alguém consegue ficar tão velho! Tudo nele é velho, exceto pelas roupas. As mãos tremem e fazem gestos exageradamente ríspidos, próprios dos velhos, mas, quando pegam na guitarra, mostram a desenvoltura de quem sabe o que está fazendo. À boca do palco, ele ficou parado, olhando pra mim com aquela cara de lagarto, martelando o mi (e de vez em quando um sol), enquanto Sarth e Ulrich faziam qualquer coisa, ninguém se importava.

Acabou, a galera aplaudiu, levantamo-nos, ele tirou a guitarra, entregou ao roadie, jogou a palheta no chão como um rockstar velho joga a palheta no chão e agradeceu ao público.

Sarth e Ulrich o acompanharam para agradecer, alguém deu um microfone pro vovô. O Teatro Paulo Autran inteiro de olho naquela palheta meu Deus eu vou pular naquela merda e pegar, tá logo ali!, dois moleques subiram correndo, um deles pegou, Lou assustou, deu um passo pra trás, ai meu Deus este homem morre! Eu fiquei com medo de que matassem o Lou Reed de susto. Cuidado. O cabeludo ao meu lado lamentou não ter levantado e pulado no palco antes do garoto. Todos invejavam o rapaz tímido e valente, primeiro a quebrar a vergonha e o medo e correr pra cima do palco. All I’ve got is a guitar pick.

O público perdera a compostura, todos levantaram de seus assentos e agora estavam à beira do palco. Thank you for coming, obrigaro, essas coisas e foram embora. As luzes se apagaram, e todo mundo na expectativa. Hey, Lou!

O roadie voltou, ai meu Deus! Todo mundo aplaudindo! O cara sentou na cadeira do papai (do vovô, no caso), e começou a afinar uma guitarra ai meu Deus, that’s gotta be a good sign! Em poucos instantes, Lou voltou ao palco, e pegou a guitarra semi-acústica.

-I’m waiting for the man! – grita um marmanjo da do fundo.

-Vicious! – a menina ali na frente.

-Será que o Corinthians ganhou?

-I love you, Loooou! – Um amor do tipo we can never be.

Impecável na voz e no manuseio da guitarra, mandou I’ll be your mirror, do Velvet Underground & Nico, de 1967. Levantou-se, caminhou até a platéia, estendeu a mão ao público, deixou-se abraçar, agradeceu, colou as mãos ao lado da boca e gritou “Thank you” antes de ir embora de  vez.

A luz se apagou, todos felizes com aquele encontro íntimo com Lou Reed. A luz se acendeu, acabando com as esperanças de mais uma (a segunda de milhares) volta de Lou Reed. Quem entrou foi o roadie, com duas mãos cheias de palhetas, que jogou pra galera. Desesperados, fãs de quatro no chão, gulosos, pegando duas, três, em detrimento da menina que se agachava tentando manter a pose. As pessoas começaram a subir e eu, educadamente, esperei. Ali, debaixo da cadeira, uma palheta do Lou. Puxei com o pé, peguei – olha só “Lou Reed”. Uh, baby, you’re sooo vicious.

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Flashback – Grandes momentos de um dia comum

Hoje é dia do que, criançada?

-Num shei.

Como num shabe?

Como diriam nossos amigos japoneses, hoje é dia de

FRASHUBACKU!

Ah, japoneses… que sub-raça! Seres inferiores!

Opa, tá gravando?

Uma pausa na nossa dose diária de supremacia branca para apresentar-lhes esta pequena pérola que encontrei aqui. Como sempre, não preciso nem dizer – trata-se claramente mais uma pérola aos porcos (vocês, meus filhinhos!).

Nem me lembrava desse texto, mas ele é uma gracinha, vou dizer. Muito pequeno, como o pênis de um japonês, mas super effective, como um pokémon bem treinado. Com vocês,

GRANDES MOMENTOS DE UM DIA COMUM

Pra variar, nada acontece. Estou tão acostumado a dormir que consigo sentir o tempo passar sem estar acordado. Eu acordo e olho para a janela. Se está escuro, ainda são 5 horas; se está claro e há barulho, são 7 horas; se está claro e quente e eu quero mijar, são 10 horas; se está claro e quente e eu estou mijado, é meio dia.

***

Sempre tenho sonhos premonitórios, que me dizem o que vai rolar de almoço. Sonho que estou nadando com um porco: feijoada; sonho que estou em um vulcão em erupção: bife à parmegiana; sonho que trabalho 16 horas por dia sem intervalos: sushi; sonho que sou criança e um palhaço pedófilo me persegue: hambúrguer. Hoje, porém, tive um sonho que não consegui decifrar: sonhei que namorava um travesti.
Fico pensando em meu quarto, tentando adivinhar o cardápio do dia, e minha mãe grita lá da cozinha “Hoje vamos comer cachorro quente!”

***

Eu saio do banho, e depois da chuveirada tenho bons pensamentos. Eu me sinto incrível e consigo pensar com uma clareza extraordinária. Eu entro no meu quarto, sento na minha cadeira, e fixo meus olhos em qualquer coisa, e dela eu apreendo toda a beleza e sabedoria que existe. Sento na minha cadeira e olho para uma caneta que repousa calmamente sobre a mesa. Penso em como a vida é simples e ao mesmo tempo complexa. Penso em todos os seres humanos que me antecederam, e penso no trabalhão que deve ter dado inventar essa caneta. Penso que hoje em dia uma máquina faz uma dessas bem facilmente, mas se me dessem todos os ingredientes e pedissem uma esferográfica, provavelmente eu me enrolaria. Penso em todas as coisas que se podem fazer com uma caneta. Pode-se desenhar bigodes em pessoas famosas nas revistas, pode-se cutucar a orelha com sua tampa, pode-se fingir que riscou as costas de alguém com a caneta tampada e rapidamente destampá-la para assustar sua vítima; pode-se riscar as costas de alguém e rapidamente tampar a caneta e dizer “Veja só, estava tampada, era brincadeira” e sair impune. Pode-se fazer diversas coisas, e entre elas, a maior de todas é poder desenhar. Mas eu não sei desenhar, então vamos falar sobre outra coisa. Pode-se escrever! Imaginem quantos livros não se pode escrever com uma única Bic! Provavelmente um só.. dois, se forem dos curtos. Ah! Quantas palavras belas podem sair desta ponta esferográfica! E esse nome: “esferográfica”! Ah! Que nome engraçado! O que será que significa? Provavelmente algum termo técnico. Ah, esses cientistas! Sempre querendo se gabar do seu conhecimento! Imaginem quantas formulas pode-se resolver com uma esferográfica! Quantas equações de segundo, terceiro, quarto grau que seja! Ah! Como esse mundo é bonito! Como essa caneta é bonita! Como o ser humano é inteligente! Então alguém entra pela porta e grita “Meu deus, você cresceu…muito pouco para a sua idade!” E é minha avó, e só agora eu percebo que estou sentado na minha cadeira, completamente nu, olhando para uma caneta… sugestivamente fálico, não?

Fim

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Stereotypes of the underground

Oh, the stereotypes!

Perseguidor

As portas se abrem. Antes de sair do vagão, pela janela, você já identificou seu alvo. No contrafluxo, você ignora a escada rolante e corre atrás da morena de cabelos pelos ombros. Ainda é cedo pra dizer se você está certo ou não. Na curva da escada, você vê o rosto – ok. Apertando mais o passo, fica cara a cara com a bundinha da morena e não, você nunca falha.

Uma bundinha compacta, ela está apressada. Trotando ela rebola a bundinha e, sim, você sabe que a calcinha dela é cavada. Talvez você esteja observando bundinhas demais por aí.

Talvez.

Na escada rolante obrigatória do patamar superior, forma-se um gargalo. Você tem medo, pânico, horror de perder aquela bundinha de vista. Vai que um velho, uma gorda, uma feira, for fuck’s sake!, entra na porra da sua frente. Não, não. Não eclipsarão a bundinha, não – esta, não. Distribuindo cotoveladas e pedidos de desculpas, você, com os olhos colados naquela rabeta, sobe pela esquerda livre. Agora que é a hora de ter uma velha, um gordo, um padre, for fuck’s sake!, represando a fila, não tem ninguém. God works in mysterious ways.

A menina corre, a bunda rebola, você acompanha o ritmo pela primeira escada rolante. Na segunda, a bundinha abre vantagem, você em desespero. Corre, tenta desesperadamente se manter no mesmo ritmo, mas a magrinha é infernal, com seus saltos baixinhos ela corre e a bundinha compacta dando tchau, see ya, tarado, e você começa a suar, o coração batendo forte, ofegante, a bunda corre, corre pela esquerda livre, livre. Você desiste, esta bundinha ficará pra sempre na memória, a corrida hoje acabou mais cedo do que de costume. Apoiado no corrimão emborrachado você vê a moreninha cortando o saguão, contornando o parapeito de vidro, prostrado, você observa aquela bundinha, na calcinha cavada, na calça jeans, compacta, aquela bundinha agora sorrindo adeus. Adeus bundinha, byebye bunda. Você, derrotado desta vez. Mas é a sina ser derrotado, o único destino cabível para você, o perseguidor.

Estação Paraíso

Pela manhã, o cheiro no subterrâneo é insuportável. Como uma latrina. Ao subir as escadas rolantes, os usuários devem resistir à tentação de vomitar o café da manhã, violento é o cheiro de merda e mijo. A estação Paraíso, linha 1, azul, está localizada logo abaixo de uma praça. Uma praça típica, como tantas outras, formada por concreto e mendigos, fezes e urina. Ultrapassando o chão, pra baixo, pra baixo, onde correm desesperados, de um trem a outro, trabalhadores atrasados, fodidos em geral, reféns do relógio, vítimas da baldeação, oprimidos pelo sistema. E todo mundo acha graça.

Escada rolante a céu aberto

Q: O que acontece quando chove?

A: Molha.

Cortesia insólita

Depois de um tempo, depois de muito sono e muitas fantasias, idéias passageiras, pensamentos promíscuos, a memória fica cinza, nublada, entre o cacimbo baixo e trovões é difícil dizer o que é e o que não é, e você se recorda, half-remember, o metrô apertado, uma mulher puxa um pacote da bolsa e lhe oferece com um sorriso uma bolacha maizena. Você nega, como se não fosse nada, como se todos fossem educados o tempo todo. Tudo é meio insólito, nada faz sentido. Você tem apenas uma certeza:

-Não, obrigado.

Bolacha do caralho.

Huis clos

A composição chega lotada. As portas se abrem, você entra, as portas se fecham. Não há espaço nem para levantar nem para abaixar os braços. O vagão é maciço de pessoas e o trem pára em cada estação.

-Estamos trabalhando com velocidade reduzida e maior tempo de parada – diz uma voz. Os motivos são escusos, secretos, misteriosos.

Em cada estação pára o trem. Ninguém entra, ninguém sai.

Que abundância

Na estação, a miscelânea de pessoas, a cacofonia dos sentidos, as vidas que se cruzam, os trens incessantes, clichês, estereótipos, lugares-comuns, uma mulher sobe as escadas ao meu lado e, ao telefone, diz:

-Cheguei. Estou no Paraíso.

Inércia

Não é a inércia social do cotidiano que nos abraça, do dia-a-dia que nos conforta, da nossa alma esmagada – não! Muito pelo contrário: é um dia de festa, a cidade toda desperta e viva, acordada noite a dentro andando pelas ruas, tomando cerveja, cheirando cocaína – celebrando, cada fagulha que brota do asfalto consome uma existência. Homens, mulheres, rapazes, meninas, bundinhas e crianças, todos perambulando; querendo ir a algum lugar, mas sem ir realmente a lugar nenhum. O som é alto em qualquer lugar, além da algaravia de pessoas que se vêem, se vão, se conhecem ou fingem que não – tudo é um mistério, e o mistério é, na verdade, cada um.

Dentre todos, dentre tantos, o japa resolveu (ou conseguiu apenas) namorar justo a gorda – que agora vomita. Bêbada,, debruçada sobre os joelhos, o japa olha pra trás e ri, abraçando aquele monte de pele sebo e pêlo. Tudo isso seria normal – ou simplesmente tolerável – se não estivéssemos todos a uma velocidade contínua, dentro deste vagão.

Como o sangre de José Arcadio, um filete segue, serpenteia, evita bancos, contorna barras, passa entre as pessoas e chega aos meus pés. Sigo com os olhos e lá longe, na ponta do vagão, vejo o japa montado em sua namorada gorda, embriagada, vomitando, fonte de todo aquele refluxo de cerveja, pinga, e xiboquinha. E ele acha graça.

Japa do caralho.

Gentleman

Você é um gentleman, todo mundo sabe disso. Você está bêbado, nem todo mundo sabe disso. Sobe as escadas rolantes, franze as sobrancelhas e apresenta-se à superfície: é a primeira vez que saímos da estação. Senta-se na murada para aguardar a carona, ao seu lado uma menina aguarda a dela. Ela está com cara de quem trabalhou em pleno sábado, já cansada às 8 da noite. E você bêbado, bonito, muito bonito. Maquiada, roupas pretas, talvez ela trabalhe num shopping, tem cara de vendedora. É difícil saber. Ainda mais estando-se bêbado. Mistério.

Regata, os braços à mostra, você vê seus pêlos arrepiados. Toca-a no ombro, tira a jaqueta e lhe oferece. Ela fica surpresa, grata, sorri e diz

-Não, obrigada – sorrindo, ela sorri.

-Pode pegar, to com calor.

-Não, obrigada, não precisa. Mesmo.

Ela sorri, você sorri. Ela volta a olhar pra frente, você também.

Ela se vira novamente e diz

-Você é muito gentil, viu. Obrigada.

Você é gentil, você é um gentleman. Todo mundo sabe disso, inclusive ela.

Você faria isso se estivesse sóbrio? Claro.

Faria se ela fosse gorda? Não, não faria.

Isso é errado? Talvez.

Talvez?

Talvez.

Ontem

Imerso no mais banal dos papos, encara desonfortavelmente o sujeito ao lado. A cruz dourada resplandece na lapela, ele passeia os olhos pelo vagão com um sorriso involuntário e bobo na cara. Com a pasta sobre o colo, sentado com disciplina infantil, as pernas perfeitamente paralelas, como se tivesse desligado-se do próprio corpo para conversar com devoção quase religiosa sobre as vantagens de conseguir um lugar para se sentar. Com o dedo ajeita os óculos fundo de garrafa na cara. O velho, seu interlocutor, que antes estava feliz com a conversa, agora já começa a abandonar aos poucos o papo. Estou velho, mas não senil, pensa o velho.

Calma.

Como você pode saber o que o velho pensa?

Vovô epifania

Você pisa pra fora da estação. O ar é carregado e pegajoso, pesado, quase sólido, os ônibus ribombam, desgovernados, aproximando-se do passeio em fúria, que loucura essas coisas, né? Aqui fora o barulho é diferente, não mais aquele som abafado do underground, mas tudo solto, livre para berrar o mais alto que puder, todo mundo, agora, desgovernados!, berrando, loucuras! A vantagem da superfície é não ter limites, mas você olha para o céu mas não vê as estrelas, vê aquele teto de nuvens e fumaça. Andando pela calçada, nenhuma cesta de lixo, nada, mas muito papel no chão, muito, guimbas, chiqueletes, mendigos com os pés estourados, calcanhares mais grossos que seus crânios, dedos que simplesmente deixaram de existir e se fecharam numa casca de sujeira, ignorando falanges, falanginhas e falangetas, superficialidades para quem não tem onde dormir. Seguindo as prioridades dos outros humanos com quem você cruza no passeio há os que querem tomar um banho, os que preferem tomar uma cerveja, os que correm para chegar, os que saem corridos, os que estão com fome, com vontade de meter, os que suprimem seus desejos mais proibidos (é por travecos) (ele sente culpa, ele acha errado!) (mas é normal né, pessoal?) (é, sim), e há o vovô que observa a estátua à porta da igreja. Sorrindo, ignora tudo que existe, vovô remissão tem uma epifania aí, aos 82 anos, em frente a uma figura de gessos, vê em seus relevos alguma verdade transcendental, uma resposta, solução, esperança ou simplesmente reconforto. Eu passo, não vejo nada além do velhinho sorrindo. Ele vê além da superfície, going deeper, deeper.

Hoje

Um novo dia, a mesma linha. Você procura por bundinhas, cada manhã é uma nova batalha, nova busca por novas musas. As coisas são efêmeras demais, e nem com uma rotina estrita você consegue criar laços com as pessoas (muito menos com bundinhas). Pelo menos não em trânsito. As pessoas em trânsito se renovam, todo dia, anônimas. Somente as fixas prevalecem: a mulher do café, o funcionário do metrô, o louco da esquina, o japonês da vendinha. Um homem de paletó passa pela sua frente e você vê mais uma pessoa inédita e descartável, totalmente insondável, surgindo para logo desaparecer. Senta-se ao seu lado e lhe encara por trás dos óculos fundo de garrafa.

-É bom descansar as pernas, né?

Maluco do caralho.

Baldeação

O cara sai e, no meio da galera, cospe em plena plataforma. Que porra é essa?!

Santos-Imigrantes, 4:47

O metaleiro se apóia na parede, faz jóia pra você, e escorre que nem geléia.

Você também tá bebaço, e não faz idéia por que raios desceu nessa estação.

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