Stereotypes of the underground

Oh, the stereotypes!

Perseguidor

As portas se abrem. Antes de sair do vagão, pela janela, você já identificou seu alvo. No contrafluxo, você ignora a escada rolante e corre atrás da morena de cabelos pelos ombros. Ainda é cedo pra dizer se você está certo ou não. Na curva da escada, você vê o rosto – ok. Apertando mais o passo, fica cara a cara com a bundinha da morena e não, você nunca falha.

Uma bundinha compacta, ela está apressada. Trotando ela rebola a bundinha e, sim, você sabe que a calcinha dela é cavada. Talvez você esteja observando bundinhas demais por aí.

Talvez.

Na escada rolante obrigatória do patamar superior, forma-se um gargalo. Você tem medo, pânico, horror de perder aquela bundinha de vista. Vai que um velho, uma gorda, uma feira, for fuck’s sake!, entra na porra da sua frente. Não, não. Não eclipsarão a bundinha, não – esta, não. Distribuindo cotoveladas e pedidos de desculpas, você, com os olhos colados naquela rabeta, sobe pela esquerda livre. Agora que é a hora de ter uma velha, um gordo, um padre, for fuck’s sake!, represando a fila, não tem ninguém. God works in mysterious ways.

A menina corre, a bunda rebola, você acompanha o ritmo pela primeira escada rolante. Na segunda, a bundinha abre vantagem, você em desespero. Corre, tenta desesperadamente se manter no mesmo ritmo, mas a magrinha é infernal, com seus saltos baixinhos ela corre e a bundinha compacta dando tchau, see ya, tarado, e você começa a suar, o coração batendo forte, ofegante, a bunda corre, corre pela esquerda livre, livre. Você desiste, esta bundinha ficará pra sempre na memória, a corrida hoje acabou mais cedo do que de costume. Apoiado no corrimão emborrachado você vê a moreninha cortando o saguão, contornando o parapeito de vidro, prostrado, você observa aquela bundinha, na calcinha cavada, na calça jeans, compacta, aquela bundinha agora sorrindo adeus. Adeus bundinha, byebye bunda. Você, derrotado desta vez. Mas é a sina ser derrotado, o único destino cabível para você, o perseguidor.

Estação Paraíso

Pela manhã, o cheiro no subterrâneo é insuportável. Como uma latrina. Ao subir as escadas rolantes, os usuários devem resistir à tentação de vomitar o café da manhã, violento é o cheiro de merda e mijo. A estação Paraíso, linha 1, azul, está localizada logo abaixo de uma praça. Uma praça típica, como tantas outras, formada por concreto e mendigos, fezes e urina. Ultrapassando o chão, pra baixo, pra baixo, onde correm desesperados, de um trem a outro, trabalhadores atrasados, fodidos em geral, reféns do relógio, vítimas da baldeação, oprimidos pelo sistema. E todo mundo acha graça.

Escada rolante a céu aberto

Q: O que acontece quando chove?

A: Molha.

Cortesia insólita

Depois de um tempo, depois de muito sono e muitas fantasias, idéias passageiras, pensamentos promíscuos, a memória fica cinza, nublada, entre o cacimbo baixo e trovões é difícil dizer o que é e o que não é, e você se recorda, half-remember, o metrô apertado, uma mulher puxa um pacote da bolsa e lhe oferece com um sorriso uma bolacha maizena. Você nega, como se não fosse nada, como se todos fossem educados o tempo todo. Tudo é meio insólito, nada faz sentido. Você tem apenas uma certeza:

-Não, obrigado.

Bolacha do caralho.

Huis clos

A composição chega lotada. As portas se abrem, você entra, as portas se fecham. Não há espaço nem para levantar nem para abaixar os braços. O vagão é maciço de pessoas e o trem pára em cada estação.

-Estamos trabalhando com velocidade reduzida e maior tempo de parada – diz uma voz. Os motivos são escusos, secretos, misteriosos.

Em cada estação pára o trem. Ninguém entra, ninguém sai.

Que abundância

Na estação, a miscelânea de pessoas, a cacofonia dos sentidos, as vidas que se cruzam, os trens incessantes, clichês, estereótipos, lugares-comuns, uma mulher sobe as escadas ao meu lado e, ao telefone, diz:

-Cheguei. Estou no Paraíso.

Inércia

Não é a inércia social do cotidiano que nos abraça, do dia-a-dia que nos conforta, da nossa alma esmagada – não! Muito pelo contrário: é um dia de festa, a cidade toda desperta e viva, acordada noite a dentro andando pelas ruas, tomando cerveja, cheirando cocaína – celebrando, cada fagulha que brota do asfalto consome uma existência. Homens, mulheres, rapazes, meninas, bundinhas e crianças, todos perambulando; querendo ir a algum lugar, mas sem ir realmente a lugar nenhum. O som é alto em qualquer lugar, além da algaravia de pessoas que se vêem, se vão, se conhecem ou fingem que não – tudo é um mistério, e o mistério é, na verdade, cada um.

Dentre todos, dentre tantos, o japa resolveu (ou conseguiu apenas) namorar justo a gorda – que agora vomita. Bêbada,, debruçada sobre os joelhos, o japa olha pra trás e ri, abraçando aquele monte de pele sebo e pêlo. Tudo isso seria normal – ou simplesmente tolerável – se não estivéssemos todos a uma velocidade contínua, dentro deste vagão.

Como o sangre de José Arcadio, um filete segue, serpenteia, evita bancos, contorna barras, passa entre as pessoas e chega aos meus pés. Sigo com os olhos e lá longe, na ponta do vagão, vejo o japa montado em sua namorada gorda, embriagada, vomitando, fonte de todo aquele refluxo de cerveja, pinga, e xiboquinha. E ele acha graça.

Japa do caralho.

Gentleman

Você é um gentleman, todo mundo sabe disso. Você está bêbado, nem todo mundo sabe disso. Sobe as escadas rolantes, franze as sobrancelhas e apresenta-se à superfície: é a primeira vez que saímos da estação. Senta-se na murada para aguardar a carona, ao seu lado uma menina aguarda a dela. Ela está com cara de quem trabalhou em pleno sábado, já cansada às 8 da noite. E você bêbado, bonito, muito bonito. Maquiada, roupas pretas, talvez ela trabalhe num shopping, tem cara de vendedora. É difícil saber. Ainda mais estando-se bêbado. Mistério.

Regata, os braços à mostra, você vê seus pêlos arrepiados. Toca-a no ombro, tira a jaqueta e lhe oferece. Ela fica surpresa, grata, sorri e diz

-Não, obrigada – sorrindo, ela sorri.

-Pode pegar, to com calor.

-Não, obrigada, não precisa. Mesmo.

Ela sorri, você sorri. Ela volta a olhar pra frente, você também.

Ela se vira novamente e diz

-Você é muito gentil, viu. Obrigada.

Você é gentil, você é um gentleman. Todo mundo sabe disso, inclusive ela.

Você faria isso se estivesse sóbrio? Claro.

Faria se ela fosse gorda? Não, não faria.

Isso é errado? Talvez.

Talvez?

Talvez.

Ontem

Imerso no mais banal dos papos, encara desonfortavelmente o sujeito ao lado. A cruz dourada resplandece na lapela, ele passeia os olhos pelo vagão com um sorriso involuntário e bobo na cara. Com a pasta sobre o colo, sentado com disciplina infantil, as pernas perfeitamente paralelas, como se tivesse desligado-se do próprio corpo para conversar com devoção quase religiosa sobre as vantagens de conseguir um lugar para se sentar. Com o dedo ajeita os óculos fundo de garrafa na cara. O velho, seu interlocutor, que antes estava feliz com a conversa, agora já começa a abandonar aos poucos o papo. Estou velho, mas não senil, pensa o velho.

Calma.

Como você pode saber o que o velho pensa?

Vovô epifania

Você pisa pra fora da estação. O ar é carregado e pegajoso, pesado, quase sólido, os ônibus ribombam, desgovernados, aproximando-se do passeio em fúria, que loucura essas coisas, né? Aqui fora o barulho é diferente, não mais aquele som abafado do underground, mas tudo solto, livre para berrar o mais alto que puder, todo mundo, agora, desgovernados!, berrando, loucuras! A vantagem da superfície é não ter limites, mas você olha para o céu mas não vê as estrelas, vê aquele teto de nuvens e fumaça. Andando pela calçada, nenhuma cesta de lixo, nada, mas muito papel no chão, muito, guimbas, chiqueletes, mendigos com os pés estourados, calcanhares mais grossos que seus crânios, dedos que simplesmente deixaram de existir e se fecharam numa casca de sujeira, ignorando falanges, falanginhas e falangetas, superficialidades para quem não tem onde dormir. Seguindo as prioridades dos outros humanos com quem você cruza no passeio há os que querem tomar um banho, os que preferem tomar uma cerveja, os que correm para chegar, os que saem corridos, os que estão com fome, com vontade de meter, os que suprimem seus desejos mais proibidos (é por travecos) (ele sente culpa, ele acha errado!) (mas é normal né, pessoal?) (é, sim), e há o vovô que observa a estátua à porta da igreja. Sorrindo, ignora tudo que existe, vovô remissão tem uma epifania aí, aos 82 anos, em frente a uma figura de gessos, vê em seus relevos alguma verdade transcendental, uma resposta, solução, esperança ou simplesmente reconforto. Eu passo, não vejo nada além do velhinho sorrindo. Ele vê além da superfície, going deeper, deeper.

Hoje

Um novo dia, a mesma linha. Você procura por bundinhas, cada manhã é uma nova batalha, nova busca por novas musas. As coisas são efêmeras demais, e nem com uma rotina estrita você consegue criar laços com as pessoas (muito menos com bundinhas). Pelo menos não em trânsito. As pessoas em trânsito se renovam, todo dia, anônimas. Somente as fixas prevalecem: a mulher do café, o funcionário do metrô, o louco da esquina, o japonês da vendinha. Um homem de paletó passa pela sua frente e você vê mais uma pessoa inédita e descartável, totalmente insondável, surgindo para logo desaparecer. Senta-se ao seu lado e lhe encara por trás dos óculos fundo de garrafa.

-É bom descansar as pernas, né?

Maluco do caralho.

Baldeação

O cara sai e, no meio da galera, cospe em plena plataforma. Que porra é essa?!

Santos-Imigrantes, 4:47

O metaleiro se apóia na parede, faz jóia pra você, e escorre que nem geléia.

Você também tá bebaço, e não faz idéia por que raios desceu nessa estação.

6 Comments

Filed under Bunda, Crise!, Maluco chato, Não foi bem assim, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis

6 responses to “Stereotypes of the underground

  1. Larissa

    às vezes você beira a genialidade.

  2. Larissa

    tava querendo ser poética, me deixa. Mas tava maneiro o texto. Maneirão.

  3. Caio

    exagero nada, o que a menina falou tá certo.

  4. melhor texto seu que li até hoje, sinto inveja de nao ter escrito

  5. porra, mó bom. quase achei que era flashback.

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