Metal Merda Machine

Primeiro entrou no palco um típico metaleiro do metrô, calça e camiseta preta, rabo de cavalo, foi lá e deu uma marretada no tambor – foi aí que eu percebi que aquela mancha clara ao fundo do palco não era uma nuvem, mas sim o reflexo da pele do tambor. Que surpresa. Nisso, rolando ao fundo uma paranóia, delirante mesmo, o som ia e voltava, todo mundo apreensivo. Depois, Ulrich Krieger, o metaleiro do metrô, resolveu arrebentar também o gongo, que de começo não soava, mas depois ligaram a porra do microfone e o negócio ficou grandioso, todo mundo aguardando o homem, e ele chegou.

Andando velho, as calças largas por causa da frauda geriátrica, o roadie conduzindo-o pelo braço, sentou atrás da sua very own mesa de som, na cadeira ergonômica, pediu uma guitarra tal, o cara lhe deu, e começou a tocar coisas sem sentido, distorção no máximo, anything goes, e o loirão (que, lendo na fichinha, eu acreditava ser o Ulrich, mas o loirão não é alemão, não) só lá no msn nos Macs dele (dois, o cara é mó boy). Então ficamos assim: da esquerda pra direita, Sarth Calhoun nos Macs, Lou Reed na cadeira, e Ulrich Krieger vestindo e plugando o saxofone tenor.

A música confusa, ambiental e difusa do Metal Machine Trio fazia o  público levantar diversas questões, algumas inclusive de caráter metafísico. Como: Quem sou eu? Por que estamos aqui? Por que ele está fazendo isso com a gente? Será que ele ficaria bravo se eu levantasse e saísse? E se eu der um murro na cara desse velho, será que ele aguenta? Quantos anos tem esse cara?

Enquanto Lou Reed alternava tocar notas dispersas, pisar os efeitos mais malucos e apertar botõezinhos debarulho, Sarth tava processava ao vivo (sei lá o que isso quer dizer, mas é o que dizia o folheto), e Ulrich tratava seu saxofone como se trata uma mulher (de forma irresponsável e desesperada). Lá pelas tantas (o som era indecifrável, sem padrão algum), Lou chamou a atenção e mandou descer a porrada. Sarth concordou com a cabeça, só fechou o Facebook em um dos Macs e, com a mão direita, socou desajeitadamente um aparelho sonoro que, aparentemente, funciona à base do murro. Não importa o que faziam com seus equipamentos, dificilmente notava-se a interferência direta dos artistas no barulho constante que saía das caixas de som.

Lou gesticulou para Sarth, passando o dedo na garganta:

-Cut the crap, barbie girl.

E mandou prestar atenção em Ulrich. Os efeitos metálicos do sax não permitiu que os espectadores (nem mesmo os músicos) notassem que Ulrich largara seu instrumento e agora emitia sons guturais ao microfone. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo, e quando Lou Reed acompanhou Ulrich ao microfone, falando”dabadada” preguiçosamente, o carioca duas cadeiras ao meu lado se revoltou, levantou e saiu xingando. Seu filho foi logo atrás.

Na primeira fileira, a menina, sinceramente, dormia.

Ulrich, o mais saidinho dos três, começou a fazer autêntico amor com seu saxofone. Sem a distorção, agora dava pra ouvir o que o cara tocava, e ele pirava na paçoca. Chutes no ar, assoprando aquela merda até os olhos saltarem das órbitas, se agachando, encoxando o amplificador, provocando microfonias diversas, era um caso sério.

Lou Reed chamou o roadie, pediu outra guitarra e, apontando pra algum equipamento na sua very own mesa de som, perguntou:

-Is that on or off?

-It’s on.

-Ok.

A coisa começou a tomar forma quando Lou teve a decência de tocar um acorde em uma de suas 8 guitarras disponíveis. É notável sua predileção por sons contínuos, hipnotizantes, e ele ficou lá martelando aquele mizão mi mi mi mi mi e de vez em quando um sol mi mi mi mi mi sol. Ulrich mandou um riffzinho no saxofone, e Sarth estava o bicho fazendo cócegas nos seus Macs, criando um som de chuva e trovões.

Assim que o roadie entrou no palco trazendo a Steinberger, o público foi ao delírio! Ah! Meu Deus! Toca Walk on the wild side, toca qualquer coisa, toca alguma coisa pelo amor de Deus!

Acho que alguma coisa bateu na consciência sexagenária de Lewis Allan Reed. O roadie passou a correia no vovô, ajeitou o cabo, e lá foi Lou Reed andando como se fosse morrer (e talvez fosse) até a frente o palco. Luz nele, aqueles movimentos geriátricos, o cara tá velho que impressiona de ver como alguém consegue ficar tão velho! Tudo nele é velho, exceto pelas roupas. As mãos tremem e fazem gestos exageradamente ríspidos, próprios dos velhos, mas, quando pegam na guitarra, mostram a desenvoltura de quem sabe o que está fazendo. À boca do palco, ele ficou parado, olhando pra mim com aquela cara de lagarto, martelando o mi (e de vez em quando um sol), enquanto Sarth e Ulrich faziam qualquer coisa, ninguém se importava.

Acabou, a galera aplaudiu, levantamo-nos, ele tirou a guitarra, entregou ao roadie, jogou a palheta no chão como um rockstar velho joga a palheta no chão e agradeceu ao público.

Sarth e Ulrich o acompanharam para agradecer, alguém deu um microfone pro vovô. O Teatro Paulo Autran inteiro de olho naquela palheta meu Deus eu vou pular naquela merda e pegar, tá logo ali!, dois moleques subiram correndo, um deles pegou, Lou assustou, deu um passo pra trás, ai meu Deus este homem morre! Eu fiquei com medo de que matassem o Lou Reed de susto. Cuidado. O cabeludo ao meu lado lamentou não ter levantado e pulado no palco antes do garoto. Todos invejavam o rapaz tímido e valente, primeiro a quebrar a vergonha e o medo e correr pra cima do palco. All I’ve got is a guitar pick.

O público perdera a compostura, todos levantaram de seus assentos e agora estavam à beira do palco. Thank you for coming, obrigaro, essas coisas e foram embora. As luzes se apagaram, e todo mundo na expectativa. Hey, Lou!

O roadie voltou, ai meu Deus! Todo mundo aplaudindo! O cara sentou na cadeira do papai (do vovô, no caso), e começou a afinar uma guitarra ai meu Deus, that’s gotta be a good sign! Em poucos instantes, Lou voltou ao palco, e pegou a guitarra semi-acústica.

-I’m waiting for the man! – grita um marmanjo da do fundo.

-Vicious! – a menina ali na frente.

-Será que o Corinthians ganhou?

-I love you, Loooou! – Um amor do tipo we can never be.

Impecável na voz e no manuseio da guitarra, mandou I’ll be your mirror, do Velvet Underground & Nico, de 1967. Levantou-se, caminhou até a platéia, estendeu a mão ao público, deixou-se abraçar, agradeceu, colou as mãos ao lado da boca e gritou “Thank you” antes de ir embora de  vez.

A luz se apagou, todos felizes com aquele encontro íntimo com Lou Reed. A luz se acendeu, acabando com as esperanças de mais uma (a segunda de milhares) volta de Lou Reed. Quem entrou foi o roadie, com duas mãos cheias de palhetas, que jogou pra galera. Desesperados, fãs de quatro no chão, gulosos, pegando duas, três, em detrimento da menina que se agachava tentando manter a pose. As pessoas começaram a subir e eu, educadamente, esperei. Ali, debaixo da cadeira, uma palheta do Lou. Puxei com o pé, peguei – olha só “Lou Reed”. Uh, baby, you’re sooo vicious.

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Filed under Coitado do Manolo, Lou Reed, Mulheres gostosas, poesia pra caralho, Que papo é esse?

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