Monthly Archives: January 2011

De mal com o mundo

To com tanta raiva que fico louco de raiva só de pensar na raiva que eu to.

Primeiro esse calor infernal, mal consigo dormir, acordo todo suado, uma camiseta por dia, acordo sujo, melado, uso um mísero lençol e mesmo assim acordo todo suado, o cabelo sujo, imundo, tomo a minha porra do meu banho, me seco, talz, coloco as calças já começo a suar, suar feito um louco, um pirado, insanidade total suando minhas pernas peludas dentro dessa porra dessa calça!

Saio de casa, o elevador é uma imundice, estou cercado por idiotas, sou oprimido pela imbecilidade todos os dias toda a hora, a ignorância tomou conta desse condomínio. Quero ir embora metralhar todo mundo, que se foda, tenho graduação, cela especial e os caralhos, metralhando, todo mundo, meus vizinhos japoneses (coitados, não fizeram nada), e desço metendo bala, aí fico escondido e mato a porra do moleque que o cara da pizzaria da frente paga uma miséria pra subir e descer essas merdas desses prédios enviando quela porra daquele cardápio safado de pizzas dele. Essa merda de pizza de padaria que ele faz! Um lixo! E se não bastasse ser na frente de casa, o desgraçado tem a porra da pachorra de enfiar a merda do cardápio três vezes por semana por debaixo da minha porta. metralharia, pegaria o carro (que tá uma merda, aliás), abaixaria o vidro do carona e passaria num drive by, metralhando o estabelecimento, os azuleijos brancos, a vidraça, balde de cebola picada, de tomate cortado, a porra do forno que faz derreter quem tem a idéia imbecil de esperar a pizza ficar pronta lá dentro – metralhava todo mundo.

E aí o metrô só tem mina feia. Só gordinhas, gordinhas, é uma epidemia, gordinhas, o que aconteceu com as pessoas normais? Normais, essa é a palavra (to imitando Luis Carlos Prates)! Gordinhas, por todo lugar, um bando de meninas horríveis, mal acabadas, mal arrumadas, e eu lá, eu lá, sempre mal vestido pra ocasião. Se levo uma porra duma blusa, é um trem velho, lotado, quente, todo mundo suando em bicas, derretendo, o velho com bafo do meu lado, e a outra velha, só o pó, praticamente me abraçando pra segurar na barra, e eu só tenho vontade de dar uma bica na pobre coitada – mas depois, vão lá e dizem que é crime isso, que é crime aquilo, então eu fico lá, passando calor, aguentando o bafo do gordo desgraçado ouvindo música eletrônica no máximo – são 8 da manhã e você não teve a decência de escovar os dentes antes de sair?

Aquele calor, saio da estação, aquele calor, aquele calor, pessoas mal educadas por todo lugar, me sinto um estrangeiro, louco pra metralhar todo mundo, sem reflexão, sem absolutamente nada, só eu, o calor, metralhando todo mundo, suado, puro desgosto, tá tá tá, a gordinha apressada caindo ensanguentada na faixa de pedestres, a outra que engana que é gostosa de costas mas é um tribufu de frente que me faz me arrepender de um dia ter olhado pra bunda caída dela pensando ter encontrado algo que valha a pena olha nesse mundo desgraçado nessa hora desgraçada nesse calor desgraçado, metralho, metralho a todos e mesmo assim, ainda assim, especialmente assim chego ensopado pra tomar o elevador, todo perdido sem ter onde colocar os óculos, o livro, a carteira, minhas pernas peludas, lá dentro da calça, suando, ensopando o jeans, fervendo minha cabeça.

O relógio vai em slow motion, de contragosto, bater 6:58 e já faz quase 10 horas que estou em cativeiro, em cárcere privado, 6:59, vou ao banheiro, lavo o rosto, mijo, faço os caralhos, tomo banho na pia, me seco (e o papel sai quase todo quando puxo, e aquilo me deixa louco, louco, jogo no lixo todo o papel limpo, limpo), faço tudo que se pode fazer no banheiro, volto: 6:59. SEIS E CINQÜENTA E NOVE. SEIS E CINQÜENTA E NOVE E MEIO. É agora! É agora que eu abro a janela e jogo o monitor lá embaixo, com sorte mato um. Os cotovelos, antebraços, todos melados, a mesa é uma sujeira, coloco o lápis na boca, tiro com nojo, meu Deus o que eu estou fazendo, o calor desistiu de me matar hoje, mas o universo continua, é implacável, he get things done.

Essa cerveja, essa garrafinha de cerveja, ideal pra me acalmar, me amansar, eu abro no antebraço, cheiro, bebo, geladinha, ah, aquilo me acalma, me amansa, meu coração bate mais devagar, respiro fundo o ar poluído dos ônibus que passam ribombando, desesperados, todos eles se desfazendo, pessoas desgraçadas correndo desesperadas pra qualquer lugar, pra chegar pra ir embora, todo mundo fodido, o mundo é uma merda, mas a molecada passa, feliz, falando alto, berrando esperando a porra do farol abrir, as minas vagabundas os moleques babacas o mundo tá errado, tá todo errado, essas calças jeans de um azul escuro, costura grosseira, tenho nojo de olhar praquela bunda e o cara, gordo, cabelo escasso, diz “Eu pegaria sem dó. Pegaria as duas. Sem dó. Pegaria. Esses moleques não pegam nada. Eu pegaria as duas. Pegaria sem dó” e me dá vontade de me virar, arrancando meus cabelos, gesticulando com a garrafa na mão “Pegaria merda nenhuma! Você é um merda, velho, gordo só o pó. Fica olhando essas menininhas vagabundas vai pra casa e bate punheta no banheiro, olhando a calcinha da sua mãe pendurada no box, seu filho da puta do caralho!”

E chegando em casa, mil quilômetros por hora, dobro a esquina e uma porra dum carro funerário no meu caminho, aquela cruz negra, lúgubre, pintada na lata, não tem espaço pra ultrapassar e eu quero que você morra seu filho da puta, mas ele já está morto.

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Grifo (não o animal mitológico)

Em “A puta com Ph. D.“, do livro Sem plumas de Woody Allen, o detetive particular Kaiser Lupowitz (“É o que diz na minha licença”) investiga um esquema de prostituição em que meninas são agenciadas para proporcionar prazer intelecual aos clientes. Kaiser marca um encontro para discutir Melville, e acaba enquadrando a menina, em busca da cáften que está por trás da organização. O que segue é a breve descrição da menina, em tradução de Ruy Castro.

Vomitou tudo – a história inteira. família grã-fina de Nova York. passava as férias com o pessoal da esquerda festiva. Podia ser vista em todas as sessões dos cinemas de arte. Viciada em escrever “É isso aí!” nas margens dos livros de Kant. Mas agora tinha dado um passo em falso.

Exatamente por cultuar os livros, por muito tempo não me atrevi a maculá-los com meus comentários ou grifos. Grifava as cópias que lia para faculdade, mas raramente ousava marcar a lápis ou caneta algum livro meu. Adquiri confiança em minhas idéias (e desprezo pelas alheias) e comecei a comentar e corrigir clássicos da literatura, sendo um dos mais criticados A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, que foi massacrado pelo meu lápis vermelho (e lindo, ele é lindo, gente, eu coloco na boca e finjo que estou fumando, quando não estou rabiscando “Cala a boca, Kundera, que que tem a ver essas merdas que você está falando? Você nunca vai conseguir o Nobel, seu babaca”. Mentira, eu não escrevi isso, mas cheguei perto). Investiguemos meus hábitos de leitura e grifos em uma breve retrospectiva de apreciação literária.

Ulisses

A intervenção humana no livro (já dá pra ver que estou falando merda) deve ser evitada apenas em livros emprestados, especialmente se for da biblioteca, pelo amor de Deus ficar rabiscando o livro da biblioteca, se liga. Para aqueles que, como eu, prezam pelo controlo total do passado e de nossa evolução intelectual, grifar e anotar em livros (próprios, se liga) é ótima forma de situar a obra em sua vida. Dedicatórias são as formas mais comuns de intervenção, especialmente se o livro for presente pra alguém (dedicar o livro pra si mesmo é coisa de onanista). Stela me deu Ulisses, de James Joyce, sem razão nenhuma – além do meu desejo de possuí-lo (o livro) (opa) – e, tendo em vista meu protesto pelo presente descabido, anexou uma nota que dizia “Feliz dia dos pobres”. Isso foi em 22 de março de 2008, e, abrindo uma página à sorte, um grifo:

-Bobagem! – disse Stephen rudemente. – Um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são os portais de descoberta

On the road

Datado de fevereiro de 2009, aberto em uma página à sorte, um grifo:

He was reaching his Tao decisions in the simplest direct way. ‘What’s your road, man? – holyboy road, madman road, rainbow road, guppy road, any road. It’s an anywhere road for anybody anyhow. Where body how?’ We nodded in the rain.

Um bom par de sapatos e um caderno de anotações

24/09/2010, página 40, um pequeno relato meu, escrito a lápis entre os parágrafos, de um encontro com uma amiga do tempo da escola, no shopping, enquanto lia; seguido da reprodução de uma inscrição feita à caneta no mictório:

Encontrei com a Julia agora. Fiquei tão aéreo que pensei ter esquecido o livro no banheiro. “Negros tem pinto grande”

Como notamos, encontrar com a Julia no shopping me fez perder-me em pensamentos a ponto de guardar o livro na mochila e acreditar sinceramente que o havia esquecido no banheiro, onde fora furtado sorrateiramente por um bibliófilo baixo e sujo. Notamos também que a nova ortografia, abolindo acentos diferenciais, facilita a língua e premia a ignorância transformando erro em acerto.

Outra anotação entre os parágrafos, página 53. Não sei se no metrô ou no shopping:

“One day” – sotaque africano do cara ao telefone. “Oan dae”

O que isso nos diz? Que um africano anglófono esteve ao telefone próximo de mim.

Radical chique e o Novo Jornalismo

Lendo Tom Wolfe descobri muitas coisas, todas elas relacionadas a como Tom Wolfe é babaca e por isso eu o odeio. Histérico, ele faz um panorama do nascimento do “Novo jornalismo”, modalidade que atende também pelo odioso nome de “jornalismo literário”.

Logo nas primeiras páginas, começamos bem: um desenho de uma bundinha suculenta em calças leggin. Na hora, inebriado pelo sono e talvez por uma cerveja, segui com os olhos aquelas duas pernas agarradas na calça preta. Ali, sentado no sofá do shopping (o mesmo do livro anterior), acompanhei com alegria aquela bunda que passava, a calça preta leggin e a blusinha vermelha, resolvi deixar minhas mãos à vontade de Deus e com meu lápis desenhei a bundinha logo abaixo dos créditos do livro. Na hora pensei se tratar de uma obra prima. Vendo depois, notei que é um desenho primário. Mas a memória da bundinha, sua beleza que não pode ser posta em palavras, mas apenas concebida pela mente, ah, ela persiste.

Tom Wolfe é um babaca, amargurado por sua falta de talento para literatura, se descobriu capaz para o jornalismo e, atingindo certa proeminência como escritor (de não ficção), vinga-se da academia e da arte no elogio (muitas vezes a si mesmo) intitulado O Novo Jornalismo. A seguir, algumas passagens de Tom Wolf (sempre cínico) grifadas e comentadas (em itálico, aqui) por mim.

Tendo de pensar na fábula, no mito e no sagrado ofício, quem pode aceitar esta tarefa menor [representar a realidade]? Ressentido / Complexo de inferioridade (p.50)

O autor [do novo jornalismo] está um passo mais perto do envolvimento absoluto do leitor do que Henry James e James Joyce sonharam estar e jamais conseguiram. Exagerado (p.57)

Não é apenas outro recurso. O realismo elevou a arte a uma nova grandeza. Exagerado (p.58)

As mesmas objeções que saudaram o romance nos séculos XVIII e XIX começavam a saudar o Novo Jornalismo. Em ambos os casos a forma nova era vista como “superficial”, “efêmera”, “mero entretenimento”, “moralmente irresponsável”. Pensa bem, vai (p.62)

Só eu notei a bunda das bundas no vagão do metrô (anotação solta, p.62)

Ainda há várias outras anotações xingando Tom Wolfe, incluindo uma que acompanha, verticalmente, o parágrafo, onde pode-se ler “GRO-SE-LHA”. A mais interessante, porém, é uma observação do metrô. Certo momento, Tom Wolfe cita a canção “King of the road”; puxo uma flecha a lápis e comento: “Tem um cara com uma camiseta escrito ‘King of the road’ aqui no vagão. 24/10, Ana Rosa”.

Crônica de uma morte anunciada

Comentário alheio à leitura, página 115:

Tava na cara que o FGV bêbado branquelo boy de condomínio ia descer na Chácara Klabin 19/11/2010

Idem, 116:

Beija a porta logo. Stos-Imigrantes, 19/11

Grifo na página 118:

“Estava esvaindo-me em merda”

A insustentável leveza do ser

Milan Kundera escreveu:

A sedução proseeguia: esse comportamento que deve sugerir que a aproximação é possível, esmo que seja apenas como uma eventualidade, sem garantia e totalmente teórica.

Rafael Zanatto comentou:

Num viaja.

Página 200, Milan Kundera fala de uma mulher que parecia “girafa e cegonha” (isso mesmo, ruim assim). Comentei “Que merda, Kundera”.

Ainda na página 200, a escalada do sexo. Comentários meus em itálico:

(…) orifício anal (…) sexy

Ela o tinha extremamente protuberante [o orifício anal], o que sugeria com nitidez a idéia [com acento mesmo, e a nova ortografia, Cia?] do comprido tubo digestivo que terminava ali com uma ligeira saliência. sexier

Apalpou o anel firme e sadio, o mais belo de todos os anéis, chamado esfíncter em linguagem médica (…) SEXIEST!

Na página seguinte, uma passagem que realmente me agradou, grifada:

Lavou-se, urinou na pia (hábito comum entre os médicos tchecos) (…)

Ao ler isto, pensei “Isso sim, Milan Kundera, isso sim é literatura!”

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Flashback – Ela diz qualquer coisa

Pra começar 2011, nada melhor que um flashback, né?

Grande parte dos textos previamente publicados no meu fotolog não tem título. E assim descobri, vejam vocês, que dar títulos não é o meu forte. Dificilmente meus títulos são bons, né? E os textos então, nem se fala.

O flashback de hoje é o meu texto favorito. Por ele recebi alguns dos elogios que mais gostei. Não que eu costume receber muitos elogios, né? Nem minha mãe me elogia. Ela nem me chama de “filho”, vocês acreditam? Ela chama o Bruno de filho, isso ela chama, né?

Aliás, falando no Bruninho, o blog dele (recém-criado) tá linkado aqui à esquerda. Direita, quer dizer. É legal, dá uma lida lá.

Ah, que alegria aqui. Toca o telefone.

Bem, como eu dizia, eu gosto deste texto, e por ele recebi alguns comentários (elogiosos ou nem tanto) que me agradaram. Aliás, o próprio texto fala um pouco disso. Então, chega de enrolação (é que esse teclado é muito gostoso), e behold the future (the past, actually):

Ela diz qualquer coisa

Já estava half past drunk, fazendo um esforço monumental (algo realmente invejável, deveriam ver minha força de vontade, meu empenho em tentar voltar o longo corredor que percorri com rapidez surpreendente, como o diabo fugindo da cruz, como uma porra dum moleque enterrando um problemão com pazadas e mais pazadas de barro e lama, muita lama, e, no final, o serviço é totalmente cretino e estou enterrado e escorregadio, até as canelas, totalmente perdido – mas ainda assim fazendo um esforço monumental) para manter o mínimo de consciência e não rebentar numa explosão de vômito e saliva, que resultaria, muito provavelmente, numa bela barba gosmenta de macarrão, suco gástrico e cerveja. Pelo menos não na frente da menina.

-Eu sei o que você é.
-Ah é? – eu disse – então me diz.
-Você é um tarado tentando se passar por inteligente.

Oh, but what am I? Nunca fui um cara brilhante, nunca fui absolutamente porra nenhuma. Eu, eu sinceramente não sei. Eu só quero… só quero alguém pra chupar meu pau. Quando eu digo alguma coisa, eu digo “Life’s but a walking shadow”, as pessoas não entendem. É um código. É tipo um código, por favor, faça amor comigo. Por favor, me dê um pouco de amor. Por favor, qualquer coisa…

-Rafael – eles dizem – você tá decadente, cara.

Eu não acredito em nada, não acredito que uma idéia possa servir mais de uma vez. As coisas perdem o brilho, a graça. Tudo deve ser inédito, a roda deve continuar a girar, incessante – ou isso, ou a morte. Decadência. Vivo com a decadência empoleirada no meu ombro há mais tempo do que consigo me lembrar. Penso que começou anteontem, lembro-me dos meus bons e velhos tempos. Olho meus cadernos, meu textos velhos, e lá está a decadência, apontando o dedo pra minha cara e dizendo: Rafael, você tá decadente, cara. Isso já faz 2, 3, 5 anos. Eu continuo, cara vez mais, decadente. Mas, mesmo assim, o herói da molecada. E o que se passa na cabeça do herói da molecada? Rafael, minha sombria consciência diz, sussurra, assustadora Você não pega ninguém. Pensamento em off: Tá, isso eu sei. Fade out sinistro, apesar de tudo.

-Eu li, outro dia, um texto seu.
-Ah, é?

A última pazada de cal. Sacramentar minha morte. Viva a morte do meu pau.

-Você fala sobre – ele diz – pederastia, né? Sobre traveco. Sobre dar o cu.

Sinto-me lisonjeado com o comentário. Às vezes eu só tenho vontade de chocar as pessoas, de dizer coisas maravilhosamente violentas, absurdas. Pura escatologia. Putaria e abominação. Mas eu não tenho a sensibilidade pra fazer pegar um lápis e fazer um risco numa folha de papel que se pareça nem de longe com um ser humano. E o meu problema é que eu dou muito valor ao ser humano. Ou a qualquer outra coisa. O menor acontecimento é um armagedom. A menor palavra é a mais perdida declaração. A menor ação é a maior ofensiva. O menor decote é o mais louco dos sexos. Não, calma, keep it real, Rafael.

Vou cozinhar, cortar cebolas, derreter manteiga, tratar com comida, para me alimentar e alimentar o tempo que me corrói por dentro e me engole vivo. Refogo, cozinho, e agora corto os corações de alcachofra. Eu sou um selvagem, eu vivo como os antigos, eu mexo na comida com as mãos. Corto os corações de alcachofras, e agora, com as mãos nuas, tempero-os. Aquela carne azeitada, escorregadia, por um segundo por uma eternidade penso numa boceta ensopada. Uma boceta. Uma boceta. O que mais me dói no português é não ter uma palavra amena, agradável, doce, para designá-la. O que mais me dói é não poder ser delicado, tenro e terno, para expressar todo meu amor. Meu amor, meu verdadeiro amor.

-Não diz uma coisa dessas – eu imploro – Não fala assim comigo.

Eu via aqueles olhinhos bebinhos de cerveja vinho e uísque brilharem cada vez mais por razão nenhuma. Era simplesmente maravilhoso, e eu não sabia nem o que fazer nem como me segurar. Abri uma garrafa de cerveja e tomei. Abri mais uma e tomei. Outra, tomei. Fui abrindo garrafas e garrafas, girando as tampas no meu antebraço ao ponto de criar vergões, ralados, feridas, até que o sangue, muito timidamente, jorrava vermelho e pacífico, apenas dizendo “Rafael, você está fazendo a coisa certa”. Já não conseguia seguir o fio da meada, perdia-me na conversa, dizia coisas sem sentido, a vida era doce e disforme, sem seguir direção alguma, simplesmente vagando, num dia ensolarado, num gramado molhado, era tão bom que eu perdia a compostura, era simples e bonito. Eu estava totalmente perdido, como num sonho viçoso e firme, erótico, perdido, perdido, afundando-me numa espécie de lama muito quente e acolhedora. Minha existência se desintegrava aos poucos, e cada vez mais o mundo era feito de um sexo ensolarado, quente, molhado – tudo e apenas isto. Oh, eu já nem sabia o que dizer, e apenas dizia. Não fazia idéia de nada, já havia esquecido de mim mesmo. Então ela abre a boca, ah, ela abre a boca, e diz qualquer coisa absolutamente luminosa, linda, explosiva:

-Eu sei o que você é.

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