Flashback – Ela diz qualquer coisa

Pra começar 2011, nada melhor que um flashback, né?

Grande parte dos textos previamente publicados no meu fotolog não tem título. E assim descobri, vejam vocês, que dar títulos não é o meu forte. Dificilmente meus títulos são bons, né? E os textos então, nem se fala.

O flashback de hoje é o meu texto favorito. Por ele recebi alguns dos elogios que mais gostei. Não que eu costume receber muitos elogios, né? Nem minha mãe me elogia. Ela nem me chama de “filho”, vocês acreditam? Ela chama o Bruno de filho, isso ela chama, né?

Aliás, falando no Bruninho, o blog dele (recém-criado) tá linkado aqui à esquerda. Direita, quer dizer. É legal, dá uma lida lá.

Ah, que alegria aqui. Toca o telefone.

Bem, como eu dizia, eu gosto deste texto, e por ele recebi alguns comentários (elogiosos ou nem tanto) que me agradaram. Aliás, o próprio texto fala um pouco disso. Então, chega de enrolação (é que esse teclado é muito gostoso), e behold the future (the past, actually):

Ela diz qualquer coisa

Já estava half past drunk, fazendo um esforço monumental (algo realmente invejável, deveriam ver minha força de vontade, meu empenho em tentar voltar o longo corredor que percorri com rapidez surpreendente, como o diabo fugindo da cruz, como uma porra dum moleque enterrando um problemão com pazadas e mais pazadas de barro e lama, muita lama, e, no final, o serviço é totalmente cretino e estou enterrado e escorregadio, até as canelas, totalmente perdido – mas ainda assim fazendo um esforço monumental) para manter o mínimo de consciência e não rebentar numa explosão de vômito e saliva, que resultaria, muito provavelmente, numa bela barba gosmenta de macarrão, suco gástrico e cerveja. Pelo menos não na frente da menina.

-Eu sei o que você é.
-Ah é? – eu disse – então me diz.
-Você é um tarado tentando se passar por inteligente.

Oh, but what am I? Nunca fui um cara brilhante, nunca fui absolutamente porra nenhuma. Eu, eu sinceramente não sei. Eu só quero… só quero alguém pra chupar meu pau. Quando eu digo alguma coisa, eu digo “Life’s but a walking shadow”, as pessoas não entendem. É um código. É tipo um código, por favor, faça amor comigo. Por favor, me dê um pouco de amor. Por favor, qualquer coisa…

-Rafael – eles dizem – você tá decadente, cara.

Eu não acredito em nada, não acredito que uma idéia possa servir mais de uma vez. As coisas perdem o brilho, a graça. Tudo deve ser inédito, a roda deve continuar a girar, incessante – ou isso, ou a morte. Decadência. Vivo com a decadência empoleirada no meu ombro há mais tempo do que consigo me lembrar. Penso que começou anteontem, lembro-me dos meus bons e velhos tempos. Olho meus cadernos, meu textos velhos, e lá está a decadência, apontando o dedo pra minha cara e dizendo: Rafael, você tá decadente, cara. Isso já faz 2, 3, 5 anos. Eu continuo, cara vez mais, decadente. Mas, mesmo assim, o herói da molecada. E o que se passa na cabeça do herói da molecada? Rafael, minha sombria consciência diz, sussurra, assustadora Você não pega ninguém. Pensamento em off: Tá, isso eu sei. Fade out sinistro, apesar de tudo.

-Eu li, outro dia, um texto seu.
-Ah, é?

A última pazada de cal. Sacramentar minha morte. Viva a morte do meu pau.

-Você fala sobre – ele diz – pederastia, né? Sobre traveco. Sobre dar o cu.

Sinto-me lisonjeado com o comentário. Às vezes eu só tenho vontade de chocar as pessoas, de dizer coisas maravilhosamente violentas, absurdas. Pura escatologia. Putaria e abominação. Mas eu não tenho a sensibilidade pra fazer pegar um lápis e fazer um risco numa folha de papel que se pareça nem de longe com um ser humano. E o meu problema é que eu dou muito valor ao ser humano. Ou a qualquer outra coisa. O menor acontecimento é um armagedom. A menor palavra é a mais perdida declaração. A menor ação é a maior ofensiva. O menor decote é o mais louco dos sexos. Não, calma, keep it real, Rafael.

Vou cozinhar, cortar cebolas, derreter manteiga, tratar com comida, para me alimentar e alimentar o tempo que me corrói por dentro e me engole vivo. Refogo, cozinho, e agora corto os corações de alcachofra. Eu sou um selvagem, eu vivo como os antigos, eu mexo na comida com as mãos. Corto os corações de alcachofras, e agora, com as mãos nuas, tempero-os. Aquela carne azeitada, escorregadia, por um segundo por uma eternidade penso numa boceta ensopada. Uma boceta. Uma boceta. O que mais me dói no português é não ter uma palavra amena, agradável, doce, para designá-la. O que mais me dói é não poder ser delicado, tenro e terno, para expressar todo meu amor. Meu amor, meu verdadeiro amor.

-Não diz uma coisa dessas – eu imploro – Não fala assim comigo.

Eu via aqueles olhinhos bebinhos de cerveja vinho e uísque brilharem cada vez mais por razão nenhuma. Era simplesmente maravilhoso, e eu não sabia nem o que fazer nem como me segurar. Abri uma garrafa de cerveja e tomei. Abri mais uma e tomei. Outra, tomei. Fui abrindo garrafas e garrafas, girando as tampas no meu antebraço ao ponto de criar vergões, ralados, feridas, até que o sangue, muito timidamente, jorrava vermelho e pacífico, apenas dizendo “Rafael, você está fazendo a coisa certa”. Já não conseguia seguir o fio da meada, perdia-me na conversa, dizia coisas sem sentido, a vida era doce e disforme, sem seguir direção alguma, simplesmente vagando, num dia ensolarado, num gramado molhado, era tão bom que eu perdia a compostura, era simples e bonito. Eu estava totalmente perdido, como num sonho viçoso e firme, erótico, perdido, perdido, afundando-me numa espécie de lama muito quente e acolhedora. Minha existência se desintegrava aos poucos, e cada vez mais o mundo era feito de um sexo ensolarado, quente, molhado – tudo e apenas isto. Oh, eu já nem sabia o que dizer, e apenas dizia. Não fazia idéia de nada, já havia esquecido de mim mesmo. Então ela abre a boca, ah, ela abre a boca, e diz qualquer coisa absolutamente luminosa, linda, explosiva:

-Eu sei o que você é.

1 Comment

Filed under Bunda, Coitado do Manolo, Flashback, Gay's the way, Não foi bem assim, Que papo é esse?

One response to “Flashback – Ela diz qualquer coisa

  1. Binho

    hahahahahahaha demais!! adoro o trecho dos corações de alcachofra e bocetas ensopadas!! Meo, você escreve muito bem!! Congratulations!!

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