Grifo (não o animal mitológico)

Em “A puta com Ph. D.“, do livro Sem plumas de Woody Allen, o detetive particular Kaiser Lupowitz (“É o que diz na minha licença”) investiga um esquema de prostituição em que meninas são agenciadas para proporcionar prazer intelecual aos clientes. Kaiser marca um encontro para discutir Melville, e acaba enquadrando a menina, em busca da cáften que está por trás da organização. O que segue é a breve descrição da menina, em tradução de Ruy Castro.

Vomitou tudo – a história inteira. família grã-fina de Nova York. passava as férias com o pessoal da esquerda festiva. Podia ser vista em todas as sessões dos cinemas de arte. Viciada em escrever “É isso aí!” nas margens dos livros de Kant. Mas agora tinha dado um passo em falso.

Exatamente por cultuar os livros, por muito tempo não me atrevi a maculá-los com meus comentários ou grifos. Grifava as cópias que lia para faculdade, mas raramente ousava marcar a lápis ou caneta algum livro meu. Adquiri confiança em minhas idéias (e desprezo pelas alheias) e comecei a comentar e corrigir clássicos da literatura, sendo um dos mais criticados A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, que foi massacrado pelo meu lápis vermelho (e lindo, ele é lindo, gente, eu coloco na boca e finjo que estou fumando, quando não estou rabiscando “Cala a boca, Kundera, que que tem a ver essas merdas que você está falando? Você nunca vai conseguir o Nobel, seu babaca”. Mentira, eu não escrevi isso, mas cheguei perto). Investiguemos meus hábitos de leitura e grifos em uma breve retrospectiva de apreciação literária.

Ulisses

A intervenção humana no livro (já dá pra ver que estou falando merda) deve ser evitada apenas em livros emprestados, especialmente se for da biblioteca, pelo amor de Deus ficar rabiscando o livro da biblioteca, se liga. Para aqueles que, como eu, prezam pelo controlo total do passado e de nossa evolução intelectual, grifar e anotar em livros (próprios, se liga) é ótima forma de situar a obra em sua vida. Dedicatórias são as formas mais comuns de intervenção, especialmente se o livro for presente pra alguém (dedicar o livro pra si mesmo é coisa de onanista). Stela me deu Ulisses, de James Joyce, sem razão nenhuma – além do meu desejo de possuí-lo (o livro) (opa) – e, tendo em vista meu protesto pelo presente descabido, anexou uma nota que dizia “Feliz dia dos pobres”. Isso foi em 22 de março de 2008, e, abrindo uma página à sorte, um grifo:

-Bobagem! – disse Stephen rudemente. – Um homem de gênio não comete erros. Seus erros são voluntários e são os portais de descoberta

On the road

Datado de fevereiro de 2009, aberto em uma página à sorte, um grifo:

He was reaching his Tao decisions in the simplest direct way. ‘What’s your road, man? – holyboy road, madman road, rainbow road, guppy road, any road. It’s an anywhere road for anybody anyhow. Where body how?’ We nodded in the rain.

Um bom par de sapatos e um caderno de anotações

24/09/2010, página 40, um pequeno relato meu, escrito a lápis entre os parágrafos, de um encontro com uma amiga do tempo da escola, no shopping, enquanto lia; seguido da reprodução de uma inscrição feita à caneta no mictório:

Encontrei com a Julia agora. Fiquei tão aéreo que pensei ter esquecido o livro no banheiro. “Negros tem pinto grande”

Como notamos, encontrar com a Julia no shopping me fez perder-me em pensamentos a ponto de guardar o livro na mochila e acreditar sinceramente que o havia esquecido no banheiro, onde fora furtado sorrateiramente por um bibliófilo baixo e sujo. Notamos também que a nova ortografia, abolindo acentos diferenciais, facilita a língua e premia a ignorância transformando erro em acerto.

Outra anotação entre os parágrafos, página 53. Não sei se no metrô ou no shopping:

“One day” – sotaque africano do cara ao telefone. “Oan dae”

O que isso nos diz? Que um africano anglófono esteve ao telefone próximo de mim.

Radical chique e o Novo Jornalismo

Lendo Tom Wolfe descobri muitas coisas, todas elas relacionadas a como Tom Wolfe é babaca e por isso eu o odeio. Histérico, ele faz um panorama do nascimento do “Novo jornalismo”, modalidade que atende também pelo odioso nome de “jornalismo literário”.

Logo nas primeiras páginas, começamos bem: um desenho de uma bundinha suculenta em calças leggin. Na hora, inebriado pelo sono e talvez por uma cerveja, segui com os olhos aquelas duas pernas agarradas na calça preta. Ali, sentado no sofá do shopping (o mesmo do livro anterior), acompanhei com alegria aquela bunda que passava, a calça preta leggin e a blusinha vermelha, resolvi deixar minhas mãos à vontade de Deus e com meu lápis desenhei a bundinha logo abaixo dos créditos do livro. Na hora pensei se tratar de uma obra prima. Vendo depois, notei que é um desenho primário. Mas a memória da bundinha, sua beleza que não pode ser posta em palavras, mas apenas concebida pela mente, ah, ela persiste.

Tom Wolfe é um babaca, amargurado por sua falta de talento para literatura, se descobriu capaz para o jornalismo e, atingindo certa proeminência como escritor (de não ficção), vinga-se da academia e da arte no elogio (muitas vezes a si mesmo) intitulado O Novo Jornalismo. A seguir, algumas passagens de Tom Wolf (sempre cínico) grifadas e comentadas (em itálico, aqui) por mim.

Tendo de pensar na fábula, no mito e no sagrado ofício, quem pode aceitar esta tarefa menor [representar a realidade]? Ressentido / Complexo de inferioridade (p.50)

O autor [do novo jornalismo] está um passo mais perto do envolvimento absoluto do leitor do que Henry James e James Joyce sonharam estar e jamais conseguiram. Exagerado (p.57)

Não é apenas outro recurso. O realismo elevou a arte a uma nova grandeza. Exagerado (p.58)

As mesmas objeções que saudaram o romance nos séculos XVIII e XIX começavam a saudar o Novo Jornalismo. Em ambos os casos a forma nova era vista como “superficial”, “efêmera”, “mero entretenimento”, “moralmente irresponsável”. Pensa bem, vai (p.62)

Só eu notei a bunda das bundas no vagão do metrô (anotação solta, p.62)

Ainda há várias outras anotações xingando Tom Wolfe, incluindo uma que acompanha, verticalmente, o parágrafo, onde pode-se ler “GRO-SE-LHA”. A mais interessante, porém, é uma observação do metrô. Certo momento, Tom Wolfe cita a canção “King of the road”; puxo uma flecha a lápis e comento: “Tem um cara com uma camiseta escrito ‘King of the road’ aqui no vagão. 24/10, Ana Rosa”.

Crônica de uma morte anunciada

Comentário alheio à leitura, página 115:

Tava na cara que o FGV bêbado branquelo boy de condomínio ia descer na Chácara Klabin 19/11/2010

Idem, 116:

Beija a porta logo. Stos-Imigrantes, 19/11

Grifo na página 118:

“Estava esvaindo-me em merda”

A insustentável leveza do ser

Milan Kundera escreveu:

A sedução proseeguia: esse comportamento que deve sugerir que a aproximação é possível, esmo que seja apenas como uma eventualidade, sem garantia e totalmente teórica.

Rafael Zanatto comentou:

Num viaja.

Página 200, Milan Kundera fala de uma mulher que parecia “girafa e cegonha” (isso mesmo, ruim assim). Comentei “Que merda, Kundera”.

Ainda na página 200, a escalada do sexo. Comentários meus em itálico:

(…) orifício anal (…) sexy

Ela o tinha extremamente protuberante [o orifício anal], o que sugeria com nitidez a idéia [com acento mesmo, e a nova ortografia, Cia?] do comprido tubo digestivo que terminava ali com uma ligeira saliência. sexier

Apalpou o anel firme e sadio, o mais belo de todos os anéis, chamado esfíncter em linguagem médica (…) SEXIEST!

Na página seguinte, uma passagem que realmente me agradou, grifada:

Lavou-se, urinou na pia (hábito comum entre os médicos tchecos) (…)

Ao ler isto, pensei “Isso sim, Milan Kundera, isso sim é literatura!”

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Filed under Bunda, Crise!, Maluco chato, Mulheres gostosas, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis

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