De mal com o mundo

To com tanta raiva que fico louco de raiva só de pensar na raiva que eu to.

Primeiro esse calor infernal, mal consigo dormir, acordo todo suado, uma camiseta por dia, acordo sujo, melado, uso um mísero lençol e mesmo assim acordo todo suado, o cabelo sujo, imundo, tomo a minha porra do meu banho, me seco, talz, coloco as calças já começo a suar, suar feito um louco, um pirado, insanidade total suando minhas pernas peludas dentro dessa porra dessa calça!

Saio de casa, o elevador é uma imundice, estou cercado por idiotas, sou oprimido pela imbecilidade todos os dias toda a hora, a ignorância tomou conta desse condomínio. Quero ir embora metralhar todo mundo, que se foda, tenho graduação, cela especial e os caralhos, metralhando, todo mundo, meus vizinhos japoneses (coitados, não fizeram nada), e desço metendo bala, aí fico escondido e mato a porra do moleque que o cara da pizzaria da frente paga uma miséria pra subir e descer essas merdas desses prédios enviando quela porra daquele cardápio safado de pizzas dele. Essa merda de pizza de padaria que ele faz! Um lixo! E se não bastasse ser na frente de casa, o desgraçado tem a porra da pachorra de enfiar a merda do cardápio três vezes por semana por debaixo da minha porta. metralharia, pegaria o carro (que tá uma merda, aliás), abaixaria o vidro do carona e passaria num drive by, metralhando o estabelecimento, os azuleijos brancos, a vidraça, balde de cebola picada, de tomate cortado, a porra do forno que faz derreter quem tem a idéia imbecil de esperar a pizza ficar pronta lá dentro – metralhava todo mundo.

E aí o metrô só tem mina feia. Só gordinhas, gordinhas, é uma epidemia, gordinhas, o que aconteceu com as pessoas normais? Normais, essa é a palavra (to imitando Luis Carlos Prates)! Gordinhas, por todo lugar, um bando de meninas horríveis, mal acabadas, mal arrumadas, e eu lá, eu lá, sempre mal vestido pra ocasião. Se levo uma porra duma blusa, é um trem velho, lotado, quente, todo mundo suando em bicas, derretendo, o velho com bafo do meu lado, e a outra velha, só o pó, praticamente me abraçando pra segurar na barra, e eu só tenho vontade de dar uma bica na pobre coitada – mas depois, vão lá e dizem que é crime isso, que é crime aquilo, então eu fico lá, passando calor, aguentando o bafo do gordo desgraçado ouvindo música eletrônica no máximo – são 8 da manhã e você não teve a decência de escovar os dentes antes de sair?

Aquele calor, saio da estação, aquele calor, aquele calor, pessoas mal educadas por todo lugar, me sinto um estrangeiro, louco pra metralhar todo mundo, sem reflexão, sem absolutamente nada, só eu, o calor, metralhando todo mundo, suado, puro desgosto, tá tá tá, a gordinha apressada caindo ensanguentada na faixa de pedestres, a outra que engana que é gostosa de costas mas é um tribufu de frente que me faz me arrepender de um dia ter olhado pra bunda caída dela pensando ter encontrado algo que valha a pena olha nesse mundo desgraçado nessa hora desgraçada nesse calor desgraçado, metralho, metralho a todos e mesmo assim, ainda assim, especialmente assim chego ensopado pra tomar o elevador, todo perdido sem ter onde colocar os óculos, o livro, a carteira, minhas pernas peludas, lá dentro da calça, suando, ensopando o jeans, fervendo minha cabeça.

O relógio vai em slow motion, de contragosto, bater 6:58 e já faz quase 10 horas que estou em cativeiro, em cárcere privado, 6:59, vou ao banheiro, lavo o rosto, mijo, faço os caralhos, tomo banho na pia, me seco (e o papel sai quase todo quando puxo, e aquilo me deixa louco, louco, jogo no lixo todo o papel limpo, limpo), faço tudo que se pode fazer no banheiro, volto: 6:59. SEIS E CINQÜENTA E NOVE. SEIS E CINQÜENTA E NOVE E MEIO. É agora! É agora que eu abro a janela e jogo o monitor lá embaixo, com sorte mato um. Os cotovelos, antebraços, todos melados, a mesa é uma sujeira, coloco o lápis na boca, tiro com nojo, meu Deus o que eu estou fazendo, o calor desistiu de me matar hoje, mas o universo continua, é implacável, he get things done.

Essa cerveja, essa garrafinha de cerveja, ideal pra me acalmar, me amansar, eu abro no antebraço, cheiro, bebo, geladinha, ah, aquilo me acalma, me amansa, meu coração bate mais devagar, respiro fundo o ar poluído dos ônibus que passam ribombando, desesperados, todos eles se desfazendo, pessoas desgraçadas correndo desesperadas pra qualquer lugar, pra chegar pra ir embora, todo mundo fodido, o mundo é uma merda, mas a molecada passa, feliz, falando alto, berrando esperando a porra do farol abrir, as minas vagabundas os moleques babacas o mundo tá errado, tá todo errado, essas calças jeans de um azul escuro, costura grosseira, tenho nojo de olhar praquela bunda e o cara, gordo, cabelo escasso, diz “Eu pegaria sem dó. Pegaria as duas. Sem dó. Pegaria. Esses moleques não pegam nada. Eu pegaria as duas. Pegaria sem dó” e me dá vontade de me virar, arrancando meus cabelos, gesticulando com a garrafa na mão “Pegaria merda nenhuma! Você é um merda, velho, gordo só o pó. Fica olhando essas menininhas vagabundas vai pra casa e bate punheta no banheiro, olhando a calcinha da sua mãe pendurada no box, seu filho da puta do caralho!”

E chegando em casa, mil quilômetros por hora, dobro a esquina e uma porra dum carro funerário no meu caminho, aquela cruz negra, lúgubre, pintada na lata, não tem espaço pra ultrapassar e eu quero que você morra seu filho da puta, mas ele já está morto.

8 Comments

Filed under Coitado do Manolo, Crise!

8 responses to “De mal com o mundo

  1. Rapaz…a minha sorte é ter uma imaginação fértil do inferno…eu consegui imaginar um ser fazendo, de fato, isso tudo. Poucos textos me fizeram rir deste jeito😄

  2. HominisCanidae

    Porra fafa, passei muito por isso hoje!

    hahahahahha

    Vontade de Matar todo mundo!

  3. Rauo

    hahahaha um dos seus melhores posts, mano! Tá no meu Top 5 Zanatto, de cabeça assim, eu não lembro dos textos e suas colocações, mas esse aqui seria tipo o 2º

  4. Siola

    Um pouco mais de sexo e já faz frente a Bukowski

  5. FASM

    Ahahahah puta que o pariu, Fafá, só você pra me fazer mijar de rir desse jeito.
    E o pior é que se você trocar o catálogo da pizzaria por um de entrega de leite e o metrô por trem é bem parecido com o que eu vivenciei por aqui no infernal calor de Julho.
    E, ah, aquela cervejinha gelada no boteco no fim da tarde, quando o mundo cuspiu na sua cara o dia inteiro… o primeiro gole gelado vai te rasgando por dentro e, por um momento, você pensa que a vida até pode ser que valha qualquer merda.
    Simplesmente fantástico.

  6. haha po, pessoal, valeu pelo apoio, que bom que gostaram, mas nenhuma menina, hein?! Tá na hora de repensar a eficiência desse blog.

  7. HominisCanidae

    Siola nao é menina?!😛

  8. Binho

    meoooo, me matei de rir!! caraleo, muito bom esse texto, rafa!! Pena que vc não é by sexual senão eu te pegava logo mais!! o mundo tá todo errado mesmo!! foda-se!! kkkkkkkkkkk

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