Calcinhas

Pelo retrovisor você observa a menina se despedir do namorado. Ele está no carro, estacionado, e agora ela se debruça para lhe dar um beijo. Seu mundo é tudo e somente aquilo que o espelhinho reflete. “Deus, se Você gosta de mim, permita-me ver a calcinha dela”. O vento sopra, a saia ameaça, a menina já beijou o namorado, começa a atravessar a rua, hesita, pára, o vento tenta novamente, ela segura a saia, pernas, pernas, você olha pra cima, Ele olha pra baixo.

–É, num deu.

Mal cheguei já avistei duas gracinhas do lado de lá. Uhm, são duas gracinhas, sim, senhor. Daqui já posso dizer, sem medo de errar – duas branquinhas, cabelo liso, dessas que têm família, mãe que trabalha, café da manhã todo dia e moram perto do metrô. Esse tipo você reconhece de longe. Passo a catraca só pra ter a confirmação, essas estão melhores do que o esperado, mas tão ficando boas demais. São do tipo que fazem algum curso que dá dinheiro, universidade pública é um bom palpite. Ou não, talvez não, mas uma universidade paga, cara, de nome – nada de uniqualquer merda, não. Essas nem olham pra mim, são daquelas que nunca tomaram uma cerveja quente, e só pegam caras com dentes perfeitos, do tipo que usaram aparelho, tudo nos esquemas, faziam a barba religiosamente desde que os primeiros pêlos apareceram, mas agora deixam crescer cuidadosamente, fazem o tipo casual. Café da manhã incluído, todo dia – até de final de semana. Esse tipo eu sei de longe, sinto entrando no metrô, passando por mim na rua, esse tipo que é paulistano com orgulho e planeja um passeio bem “orra, meu” pra comemorar o aniversário da cidade, alguma coisa inusitada e roots, mas o Mercadão vai estar lotado, é feriado – ficaram na praia mesmo. Mas as duas tão aqui, sentadas na escada, conversando e sorrindo, os dentes perfeitos, mas descuidadas – esta aqui acha que está num ambiente civilizado. Vai vendo. Confiando na cordialidade do homem moderno e bem educado, desses que sexo é só em cativeiro, sentou-se, com seu vestidinho estampado, uma falha juvenil, coisa que eu peço todo dia no metrô, mas lá as mulheres estão calejadas, cansadas do assédio masculino, todo mundo exausto voltando do trabalho querendo chegar em casa pra bater uma punheta. Aqui, não. As duas perninhas, bronzeadas, descruzadas, o tecido leve do vestido tentando fazer uma sombra, mas lá eu fui, fingir que ia fazer qualquer coisa – será que dá? – e pior que dava: a calcinha branca, que meiga, polpuda, despreocupada, essa aí deve se depilar toda semana, sempre impecável, vários por aí querendo chupá-la, todo dia. Eu também não consegui fugir disso aí. Sou só mais um.

Ah, a vida é bela quando se consegue ver a calcinha de uma menina. Fingi qualquer coisa, dei um passo pra frente, apoiei-me à parede, dei outro pra trás e mandei os olhos bem no meio das pernas da menina, linda menina, linda calcinha, branca, carnuda, que mundo maravilhoso em que vivemos, como Deus foi legal conosco, criando essas coisas, permitindo, incentivando essas coisas. Sentei-me também na escadaria, peguei abri meu livro e escrevi, a caneta, meu indelével triunfo:

Nem 10 da manhã, vi a calcinha de uma menina descuidada sentada nas escadas (é gatinha) (calcinha branca)

Calcinhas, meninas de vestidos e calcinhas. Apenas. Calor, o verão, Deus, por isso Lhe agradeço. Você almoça, o garfo fincado no bife, a faca vai e vem, os dentes rompem as fibras da carne e nesse instante você pára, pára e pensa enquanto o refrigerante continua suas pequenas revoluções, você já sabe de tudo, ela vem de saia, saia plissada, trabalha bem, você adora esse restaurante, o cabelo solto, essa é bem cuidada, ela vai subir, almoçar na varanda, ela reserva mesa, você sabe de tudo, larga o garfo e a faca, o bife cortado pela metade, corre, uma boa hora pra fingir que vai ao banheiro, você sabe tudo, esse é o seu território, seu campo, no caminho para o banheiro, passa por debaixo da escada, passos calculados, atrasa a perna e coincide perfeitamente com a menina que sobe, sobe, você olha, olha, as pernas, dela, uma atrás da outra, morenas, firmes, revelam-se cada vez mais, degrau a degrau, isso aí, isso que é vida!, você tá dando pala demais, ela vai ganhar, ela vai subindo, perdendo, você ganhando, a vitória se aproxima, passo a passo, pernas a pernas, vai, vamo, vai, subindo, perna, perna, saia – ela segura a saia próxima do corpo, sobe rápido, te olha com desprezo. Ela ganhou. E agora? O que resta? O bife pela metade, o refrigerante efervescendo, uma, duas pedras de gelo, os talheres cruzados pela mesa, o vexame, a vergonha. A vergonha? De volta à mesa, o garçom recolheu o prato. Confundiu o resto de bife com fim de almoço, acha que talheres cruzados é fim de papo. Bom, foda-se, valeu a pena.

É um jogo, você contra elas. As regras não são muito claras, não se pode ter certeza se foi falta ou segue o jogo, se teve impedimento, nem se tá valendo tudo isso aí que você tá vendo.

Mas é um jogo, o jogo supõe a competição, lados contrários, desejos opostos. E, claro, a vitória e a derrota. Elas estão ganhando, isso é certeza – mas não sabemos o que elas estão ganhando com isso.

É uma relação dialética, o homem e a calcinha. Se bem que a calcinha não está no homem, nem o homem na calcinha. Ou está, se ele for um velho bem pervertido. Mas você fala assim “velho bem pervertido”, e nem desconfia (ou finge não ver) que o seu pai é um belo de um tarado.

De qualquer forma, o que vale são os três pontos, nem que seja de meio a zero, com gol de mão impedido. O que vale é a luta, e isso que o torcedor que ver: preparo, empenho, disposição e, é claro, calcinhas.

O homem e a calcinha, afinal, é o homem e o mistério. O mistério do planeta, do universo, da existência.

É básico, é simples: tem uma menina ali, e você quer ver por debaixo da saia dela. É lá que estão guardados os maiores segredos e tesouros da humanidade. Você sabe, elas sabem, esse segredo é secreto, esse tesouro é precioso – talvez por ser guardado e escondido, querido e cobiçado. Ninguém sabe exatamente como o jogo começou, but it’s on!

Oh, here she ever comes now, now, subindo a escada rolante, a 45° em direção aos céus e está aqui, pobre Rafael, Rafael, Deus é quem cura, Deus é quem faz merda, que menina é essa, braços finos, pernas firmes bronzeadas, ela ascende e desfila no tomara-que-caia verde, estampado, meu coração chora, chora agora, ri depois. Faz a volta, me dá as costas, nuas, um vão aberto, seu corpo faz uma curva, me comove, aquele corpo, bronzeado, viçoso, metido num vestido verde estampado, tomara-que-caia, as costas nuas, pára.

Verde estampado, ves-tido, ela parada ao lado da escada rolante, vou ao banheiro rezando para que ela esteja lá quando eu voltar, e ela está. Isso é diferente de tudo que o homem já fez. Ela é só uma repetição, um número, probabilidade, acaso, e é linda, única, minha chance, isso é inédito, nunca foi tentado, diferente de tudo que o homem já fez.

Eu calculo.

Seu corpo magro faz curvas dentro do vestido, as costas nuas, a cintura folgada, é agora, é a hora. Passo ao seu lado, quase me curvo, olho, mergulho pelo vão, é uma mera peça de roupa, um pano que cobre seu corpo, pelo vão eu vejo, estremeço, a calcinha cavada estampa de zebra, a pele morena, isso é demais, demais pra mim, estremeço, estremeço, agarro-me ao para-peito, suspiro, caralho, cacete, é a maior calcinha que eu já vi. Não consigo olhar de novo pra menina, estou inebriado, prazer, quero rolar de lado e pensar no assunto, é lindo, meu coração bate mais forte, respiração acelerada, o que eu vou fazer agora, o que eu vou fazer agora?

Não sei, não sei, como suportar esse peso?

Melhor ir embora, pego a escada rolante. Mas eu não sou bobo, eu não estou morto. Eu desço, ela continua lá em cima, perto do para-peito, cada vez mais alto e, pela grade, eu vejo suas pernas, alongando-se cada vez mais, morenas, bronzeadas, firmes, essa menina, essa calcinha, eu não mereço, eu não mereço. Eu agradeço.

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