Born to lose

Nascido para perder tempo, dinheiro e fazer merda.

Por muito tempo fui um desempregado orgulhoso do meu papel. Eu era uma roda girando em falso na engrenagem capitalista, dando prejuízo ao meu pai. Ao meu pai e à sociedade, afinal eu estudava numa universidade pública, sentado no dinheiro dos contribuintes, bombando duas vezes a mesma matéria às custas dos cidadãos de bem que não fazem greve nem precisam estudar história pra saber que a vida não é brincadeira.

Mas que se foda esse tipo de gente. Por isso eu ficava lá, deitado no banco de cimento depois do almoço, os braços cruzados atrás da cabeça, observando aquele céu azul sem fim, os pássaros passando de lá pra cá, e eu pensando que toparia, sim, claro, uma cerveja. Sexta-feira à tarde, me sentindo muito brasileiro por passar calor de bermuda e chinelo, a caneta na mão, escolhendo o lugar mais gelado possível pra sentar e escrever sobre as pernas das meninas, dando nota pra cada uma delas.

Na lanchonete, tomando café, mate gelado, e a mesticinha vai pegar seu pão na chapa, na ponta dos pés, a saia preta, o tecido leve, se ajustando às suas curvas e deixando as pernas longilíneas nuas para, entre um gole e outro, a gente dizer “Porra, eu chuparia essa mina – e o que ela tem a perder deixando? Nada!”

It’s a win-win situation.

Meu conselho para as próximas gerações é: evite o trabalho. E orgulhe-se disso!

Um cara, inveterado maconheiro, dizia com a voz rouca de fumaça “Tanta gente aí, morrendo do coração, estresse… eu vou evitar trabalhar o quanto puder”.  A jóia da família.

Mas então, que se foda, deixa tudo pra lá, e você pega e diz que não tem dinheiro, que precisa arranjar um trabalho, mas então, que se foda, pede uma cerveja pra pensar melhor, e outra enquanto nenhuma idéia boa aparece, e quando você percebe qual é a boa, você já está bêbado, e beber é como fazer sexo: você quer mais, mais, até vomitar.

Então lá está você, sentado com a mão em cima da mesa, o dedo no copo, apertando os olhos, míope de bêbado. A menina do outro lado, fica difícil saber o que ela quer, se ela está preocupada com a hora ou se está fazendo charme. Mas você nasceu pra perder, não foi? Nasceu pra fracassar. Essa hora é a sua única hora. Ela sai pra fumar, você pede o prazer da companhia, faz uma piada qualquer, pisa na poça d’água e agora seu pé fica sambando no chinelo. Mas você deve sempre ter orgulho das merdas que faz.

Surpreendentemente, eu me formei. E foi fácil. Tudo foi fácil, a escola, vestibular, a faculdade. Bombar foi fácil, moleza. Até explicar é simples. Da primeira vez, a culpa foi o futebol. Copa de 2006, matava aula pra ver jogo, cheguei atrasado à prova, aborrecido (a Argentina acabava de ser eliminada), tirei 4,5. Simples. Relutei até o último instante em fazer a recuperação, não queria ocupar minha cabeça com essas merdas, data, horário, mas fiz. E tirei 4,5.

Da segunda vez, bombei por causa das mulheres. Mais especificamente pela falta de mulheres. Sempre fui um aluno aplicado, fazendo anotações antes mesmo de a aula começar e bem depois de terminada. Escrevia sobre as meninas, quais eram gostosas, por que eram gostosas, onde estavam sentadas, o que poderiam nos oferecer (um upskirt, um downblouse, o quê?), o que sabíamos delas (rede de amizades, leitura, gosto musical, nome, etc.). Aconteceu de, bem nessa maldita aula de sexta-feira, não ter uma única mulher digna de nota. Ao meu lado, um sujeito que desenhava dragões e princesas (um papo meio estranho), ali atrás, uma menina com cara de assustada, aqui à minha frente, um grupo de semi-conhecidos, que fiz questão de ignorar por um semestre inteiro.

Lá eu batendo o lápis no caderno, a professora falando, e uma única menina decente, do outro lado da sala. Como estávamos alinhados longitudinalmente, eu tinha de me esticar para frente para ver seu perfil. Ela tinha bons peitos, mas raramente demonstrava ousadia na hora de se vestir. Já não era aquelas coisas, então ela largou a aula e eu fiquei lá, sozinho no meio de semi-conhecidos. Bombei. Desta vez, foi direto: 2,5, sem direito a recuperação.

Fiquei abalado. Caminhei da faculdade à Casa de Cultura Japonesa debaixo de chuva, perdi um botão da minha camisa, me joguei na cadeira e não lembro o que o Felipe disse. Provavelmente ele riu. Puta cagada da minha parte. Bom, a vida continua, e no final eu me formei muito bem.

Depois, muito tempo de desemprego, o que foi ótimo. É realmente excelente. Eu só recomendo às pessoas que sejam ricas. Sendo rico, você pode se dar ao luxo de não fazer nada – e fazê-lo com estilo. Já eu, vivia sob o fantasma da obrigação de arranjar um emprego. Pior ainda: sob o fantasma de não ter dinheiro pra beber.

Mas vocês sabem que com bebida a linha se distorce, nada é retilíneo. Então eu sempre bebi muito bem. E eu não sou um cara de comprar roupas. Essa camiseta, por exemplo, já tem uns 5 anos. A calça, nem se fala. A meia foi baratinha. E esse All Star tá só o pó. Bem, mas nunca deixei de beber, deixei?

Não tenho grandes aspirações, e não tenho mesmo. Não quero comprar um carro, ou um apartamento. Você tem que arranjar um lugar pra morar, né. Mas tudo bem, depois a gente pensa nisso. Agora não é a hora. Agora é a hora de beber. Minha mãe diz que eu não posso tomar destilado, que faz mal. Eu respondo que não apenas posso como devo. Eu preciso beber agora. Porque quando ficar velho, já era. Aí azeda tudo, você vai morrendo e tem de cortar destilados – ou pior: bebidas em geral. Aí sim você sopesa sua vida e vê o que é melhor daí pra frente: viver ou morrer.

Já o meu pai diz que é loucura beber uísque com cerveja, mas po, é muito bom.

Desempregado e sem dinheiro você não pode se dar a um luxo desses. Você mantém a dignidade tomando cerveja, sempre a mais barata, no lugar mais barato. Talvez comprando umas aqui outras ali, alguma qualidade, você economiza o almoço e compra umas longnecks pra passar a tarde, você toma pinga vendo futebol, você mistura uísque com vinho pra sentar e escrever alguma coisa.

Você abre a janela e a noite encharcada invade o quarto. Todo o céu leitoso, pastoso, as ruas laranjas. É como se você pudesse subir no parapeito, depois se sentar, e escorregar lá pra baixo, deslizando pela neblina, pela noite muito próxima.

A vida é assim, e tá lá: quarta-feira, três horas da tarde, você de óculos escuros, bermuda e chinelo tomando uma cerveja no boteco, lendo jornal. Os passarinhos cantando sem parar, o cachorro deitado melancólico na calçada; o chão mosqueado em dourado através das folhas das árvores. Lindo dia de sol.

Mas aí eu arranjei um emprego e as coisas começaram a ficar cinzas.

3 Comments

Filed under Bunda, Capitalismo, Coitado do Manolo, Crise!, Escrever, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Que papo é esse?

3 responses to “Born to lose

  1. Larissa

    Sabe, eu me identifiquei muito com esse texto aí. Estou desempregada, deixa eu ver, desde sempre. E eu tenho 22 anos. Meus pais tem fornecido um dinheiro racionado pras bebidas do fim de semana, os céus nascem azuis, dá pra ver novela e futebol na TV, fazer uma maratona. Tudo foi fácil até agora, nunca nem bombei. Nem na faculdade, nem no colégio e até passei na pós veja só eu faço uma pós graduação. Sou uma boa menina. E não tem porquê eu estar contando a minha vida aqui assim. Só queria dizer que eu senti invejinha porque sendo mulher eu não posso sentar no bar e tomar a pior cerveja lendo jornal. Vai ter sempre alguém anotando (no caderno ou mentalmente) a nota das minhas pernas, e isso é meio constrangedor.

    (do que eu tô falando)
    Tô precisando de um emprego pra minha vida acinzentar e eu ter dinheiro pras guiness (as cervejas, não o livro, claro claro).

  2. FASM

    Puta papo de psicóloga, mas “eu vi um Fafá diferente nesse texto”. Ou exatamente igual, mas por outro ângulo. Sei lá.
    Muito bom, como sempre, mas – não sei se porque posso me relacionar com a história ou porque lembro daquela mesticinha (posso te descrever em detalhes cada parte do corpo e vestimentas dela) – mas, sinceramente, terminei o último parágrafo com os olhos marejados.

  3. como um outro universitário que vai na aula de bermuda e chinelo, dorme o tempo todo, sai de lá direto pra encher a cara como se não houvesse amanhã e repete essa rotina incessantemente, não tem como não dizer que eu não dizer que isso aí é a vida eterna. vazia pra caralho, sem perspectivas, mas eu não troco por nada.

    mas enfim, esse ano eu me formo e tenho que arrumar um emprego. fim da linha. dias cinzas pela frente.

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