O privilégio de estar bêbado

Pessoas falando bem na sua orelha, mas você consegue deixar tudo de lado para adivinhar o corpo daquela menina em pé perto do bar. Este é, meu amigo, o privilégio de estar bêbado.

Gostosa, gostosa pra caralho, você fala sozinho e concorda com as pessoas, como se estivessem falando da mesma coisa. Que delícia, as pernas na meia calça, a silhueta através da saia contra a luz, a blusa apertada, a linha sinuosa da barriga, das costelas, os peitos, ombros, pescoço. E agora, o que eu faço da vida?

Esse é um dos mistérios da existência, e você vai mijar tentando revelar a exata razão do ser. Começa, de cara pra parede, oscilando, os riscos do cimento, os azulejos, o vitrô sem vidro, você procura e acha uns cacos, muito bem encravados no metal – a ação do homem é constante e sempiterna, todas arestas foram aparadas, esse banheiro é perfeito. Você olha lá fora, caixas de cerveja, um risco que não faz sentido, bujão de gás, morre de medo de ver uma barata, alguém chegar de repente, a parede fica a uns 30 centímetros, meu braço tem 30 centímetros? eu alcanço a parede? eu alcanço a parede. Estendo o braço direito, o pau ainda pra fora, nenhum medo de me cortar – a ação do homem – encosto na parede. Tá, e aí?

E aí?

E aí que você volta pra mesa, com a braguilha aberta, senta, cruza as pernas, apóia a mão na cabeça, faz cara de quem tá entendendo alguma coisa e diz:

-Ow, dá pra encostar a mão na parede de trás do bar.

Quê?

-O banheiro, a janela do banheiro, tem uma parede depois, né? Dá pra encostar lá.


E aí?

O privilégio de estar bêbado. Tá bom, então. Só uma questão de tempo até as trevas se instalarem definitivamente. Quem disse isso? Ela vem, a barriga perfeita no risco da calça jeans, a blusinha preta segue a linha, sobe, faz a curva, abre o decote, a pele suave, lisa, uma depressão entre os seios o peito segue recto os ossos da clavícula, a traquéia, os ombros e o pescoço magros enxutos e batendo o copo na mesa tec tec, vou quebrar essa merda se continuar assim.

Agarro a garrafa e despejo um monte de cerveja, tudo fora, dentro, tanto faz, dou um gole da espuma next thing you know você está pisando fora do chinelo, tudo torto, pela calçada:

-Que se foda esse bar, mano. As minas são muito dahora.

-São pra caralho. Vamos tomar uma cerveja?

-Vamos.

Você entra na loja de conveniência, saca uns reais amassados, entrega pro cara, ele te dá o troco e você vai saindo.

-Ei, ei! Você não pegou a cerveja.

-Ah, só.

O que o capitalismo fez com a gente. Que sacanagem o capitalismo fez com a gente.

-Que vontade de ver uma mina pelada.

-Como assim?

-Ver uma mina pelada, peladaça.

-Ué, vê na internet.

-Não, to falando de ver uma mina pelada de verdade, sabe? Sem nada, assim, sem roupa nenhuma ali, peladinha.

-Só… seria dahora mesmo.

As coisas são todas as mesmas, tudo é mais ou menos igual, tanto faz qualquer coisa. Você diz isso aqui, isso ali, as meninas tão sempre por aí, e você não. Você bebe, enche a cara, paga a conta e vai dormir. Depois acorda, acorda pra beber mais, pra ficar um tempo sem beber, tanto faz, as coisas fluem da mesma forma, nada, nenhuma idéia nova, as coisas param de acontecer. Nenhuma surpresa.

Três da tarde, observando o decote da menina ao seu lado.

-Eu preciso comer uma mina hoje.

-E eu então, que tava pensando em bater punheta no metrô. Mas pensando sério mesmo. Cheguei a levantar pra ver se tinha câmera no vagão.

-E tinha?

-Entrou gente, aí eu miei.

-Dahora.

Ver uma mina pelada, peladinha, bem ali. Você dorme com isso na cabeça e tem um sonho.

Essa menina, deitada só de camiseta, virada pra lá, vendo tevê. Aquela bundinha deliciosa, nua ali, simples assim. Ela se vira, você ao pé da cama, ela desliza deitada, aproxima as pernas nuas, faz um charme, começa a erguer o corpo, você se curva só um pouco, em reverência, ela ergue o corpo ainda mais, praticamente impossível, você se olhos fechados ela se aproxima você sente os pêlos o cheiro beija a parte úmida.

Você acorda, senta na cama, esfrega os olhos. Então é isso?

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Filed under Bunda, Coitado do Manolo, Mulheres gostosas, Peitos

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