O que não é a noite

Meses que durmo com uma luz piscando sobre minha cabeça (I). E não é nenhuma metáfora –essa porra dessa lâmpada realmente pisca a noite toda, mesmo apagada. Como isso? Às vezes penso que estou sendo espionado. Às vezes penso em ets. Às vezes penso que pode ser Deus, só de sacanagem.

Então acordo no meio da noite. Não sei se por causa da luz intermitente, se foi o divino que me cutucou, mas acordo. A geladeira zunindo, carros subindo e descendo a rua. Uma mulher geme no andar de cima. Fico de pau duro, penso em bater uma punheta. Não, não, uma punheta agora seria um desastre. Resolvo pensar na vida. Isso aí, masturbação.

A vida vai mal. Acordo todo dia excitado. E quando coloco a cabeça no travesseiro, à noite, custo a dormir, pensando no labirinto. No easy way out. Quanto mais tento me desvencilhar, mais me afundo, me amarro, e fico aqui, acordado, insone até depois do amanhecer (II).

A idéia me veio enquanto dirigia. Cento e tantos quilômetros por hora, a janela aberta, a caminho de uma festa marcada para ser trágica: é isso. Minha única saída, minha salvação é algo com pêlos.

Logo eu, logo eu que tiro a sobrancelha, raspo o sovaco. Deve ser Deus escrevendo por linhas tortas, tentando me pregar uma peça, me fodendo pra variar. Mas agora tenho essa certeza obstinada.

A festa prometia e foi trágica. Na saída, um porco peludo atravessando a rua. Parou no cruzamento sem movimento e cagou no chão. Eu, com a chave na porta do carro, olhando tudo. Perturbador.

Decidi que ia beber até cair.

Acordei sem saber onde estava. Ah, o quarto ia se definindo aos poucos. Ainda não me acostumei com o lugar. Nunca vou me acostumar com essa lâmpada. Maldita CIA.

“Meaaaan to me”, eu cantarolo mijando na pia, “Nanana meaaaan to me”, eu não lembro a letra. “Why must you be so meaaaan to me”, deve ser isso. Acabo, abro a torneira, lavo as mãos. A toalha está encharcada. Animais!

Deitado na cama eu a observava se vestir. Tive ímpetos, e não apenas tive como fui, levantei e a abracei, deixando-a de costas pra mim, puxei seu cabelo pro lado, beijei seu pescoço, joguei-a na cama, de bunda pra mim agora, me ajoelhei e mordi. Mordi a bundinha dela. Que sonho.

Eu já estava bêbado demais. Ela se virou na cama, me deu um tapa na cabeça e me mandou dar o fora. Okay.
“Você deu descarga?”
“Dei.”
“Não ouvi.”
“Eu dei.”
“Que que você tava cantando?”
“Bukoswki.”
“Bukowski? Bukowski tem música?”
“É Bukowski: ‘Meaaan to me. Nanana meaaan to me’. Baixa depois.”

Vou até a sacada, repouso o copo no parapeito e fico procurando alguma menina pelada nos prédios em frente. Uma vez vi um dois caras de cueca foolin’ around no sofá. É esse tipo de sorte que eu tenho na vida.

Dou um gole e olho o fundo do copo, lembro do meu avô. Do meu avô e de todos outros homens que me precederam e nunca conheci. Tudo que depositaram em mim, dinheiro, esperança, fé, tempo, saco, tudo que viveram pra chegar um dia e morrer. Tudo que gostariam de ter feito, tudo que fizeram, seus maiores e melhores momentos. E eu aqui, levanto os olhos do fundo do copo, procuro alguém pelado nos prédios em frente. A humanidade caminhou bastante, mas não suficientemente nua em frente à janela.

Me dou por satisfeito e vou dormir. Sirvo-me mais um copo no meio do caminho e deito no chão.

Now, little boy lost (III), fumando e bebendo deitado no escuro, ótimo plano. Dou um gole e me babo todo. Tenho medo de dar uma tragada e atear fogo ao meu queixo. Não teria de fazer a barba, pelo menos; ou, na verdade, teria sim, no resto do rosto, pra ninguém perceber que eu pus fogo na minha cara. Toca o telefone.
“Caralho.”

Isso é o que deve ser a salvação depois de um tempo (IV).

Dois pontos de luz na casa inteira: o verde e o laranja. E agora a lâmpada que pisca. Filha da puta. Dois pontos, o verde, do som, e o laranja. Trago o laranja entre os dedos. Cinzas caem no meu rosto. Caralho. Apoiado nos cotovelos, tento jogar o cigarro no cinzeiro, mas jogo no copo de uísque. Não explode nem nada, faz tsss.
“Merda que eu fiz.”

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Filed under Bukowski, Bunda, Zimmerman

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