Certas sutilezas, então

Acordei com “Minha Menina” na cabeça, versão dos Mutantes.

Sonhei que conversava com um cara do trabalho. Sonhei que tomava uma garrafinha d’água, voracidade violenta, matando minha sede, estava gelada, pensando “Que bom tomar esta água; que bom que a ressaca passou”, mas acordei para uma realidade tenebrosa. O travesseiro parecia uma pedra.

Acordei, me ajoelhei na cama e dei o assovio de maloqueiro pela janela ―para fazer amigos. Lá embaixo. Lá embaixo…

A janela me pareceu excelente, everything went better than expected ―jóia. Fiquei contente com a janela, satisfeito pela minha ótima escolha ―olhar pela janela. Ah, os pequenos prazeres.

Tive uma porção de idéias, vários pensamentos de todos os tipos ―gays, inclusive. Mentira, não tive nenhum pensamento gay. Morning wood. Meu corpo considerava seriamente bater uma punheta; mas não, claro que não, melhor não.

Ela… eu tinha criado uma frase na minha cabeça. Depois achei uma merda. Eram duas frases. A primeira era despropositada. Começava falando alguma coisa sobre uma mulher. Mas no final das contas era sempre a mesma coisa: uma mulher, com o pé no meu peito.

Fiquei um tempo enorme olhando o botão do casaco dela.

―Não consigo entender o desenho daqui.

Eu não conseguia me decidir se não entendia o desenho por não olhar da forma correta ou se já estava bêbado o bastante pra não compreender certas sutilezas.

―O botão tá arranhado, não tem nenhum desenho aí.

Olhei os outros botões. Era verdade, era um risco qualquer, o resto não tinha nenhum tipo de desenho ou padrão indecifrável.

Certas sutilezas, então.

Ela perguntou o que eu queria. Sexo, claro. Mas como eu coloco isso?

―Pra beber; bebida; o que você quer? Cerveja, vinho, uísque?

Pulei de um pensamento a outro sem o menor constrangimento, eu me amava ali.

―Eu bebo, pode pegar. Qualquer um.

―Qual você quer?

―Qual? Quer? Um? Eu bebo o que você for beber.

Ela pegou, voltou lá com sei lá o que num copo colorido. Copos coloridos, não são pra beber álcool, copos coloridos. O meu era azul. Cheirei, era vinho. OK, ela me trouxe vinho num copo comum (azul). Ganhou pontos comigo. O copo dela era laranja. Será que ela pensou nisso, será que ela escolheu a cor dos copos? Pegou o azul pra mim porque eu sou o menino? Laranja pode ser de menina? Ela está menstruada? Isso faz sentido? Seria roxo, então.

Avaliei visualmente a quantidade de vinho nos copos; comparativamente. Será que ela colocou mais pra mim porque eu sou menino? Será que ela quer que eu fique bêbado? Isso não funciona com homens. Será que ela colocou menos porque já estou bêbado? Se for assim, por que ela não tira a roupa?

Os pequenos gestos não revelavam nada, eram inconclusíveis.

―Então… você não é daqui?

―Não, sou de X.

―Odeio X.

Odeio mesmo, me parece babaca.

―Já foi pra X?

―Não; mas me disseram que é uma cidade babaca.

―Você nem conhece.

―Mas parece babaca. Ninguém me disse, eu descobri que a cidade é babaca.

Ela simplesmente me ignorou. A indiferença, ah, a indiferença é a maior das armas de uma mulher. Por que eu fui falar que a cidade dela é babaca? Mas a cidade é babaca mesmo. Quem me disse isso? Quem teve lá? Ninguém, eu tirei minhas próprias conclusões a partir da análise de diversas referências diretas ou indiretas à cidade que surgiram ocasionalmente durante toda minha vida. Eu sou Sherlock Holmes. Talvez eu esteja julgando demais, me atendo a insignificâncias. Dou um gole de vinho.

―A minha cidade também é babaca.

Não diz nada. Seria minha cidade realmente babaca? Como sigo esta história? O que faço?

Os dois no corredor, eu pensando seriamente em sexo. Sexo. Era isso na minha cabeça: Sexo. Um luminoso, azul e vermelho: Se-xo. Sex-so. Ele vibrava, brilhava mais forte e rápido: se-xo, então calma, com calma. Ficou totalmente aceso no corredor escuro. Será uma boa pegar a bunda dela? Pra mim, indiscutivelmente sim. Mas melhor não. Ela tem umas pernas legais, eu vejo a silhueta que se revela pela luz que escapa por debaixo da porta do fundo, o corredor dá voltas, e a luz, não funciona? Ela quer me humilhar, quer que eu caia da escada e morra. Eu não entendo esses prédios.

Abre a porta: se-xo: eu não entro.

Ela é mais nova que eu todas são mais nova que eu ela abre a porta entra joga a chave no balcão me olha olha pra mim me encara ali bem na minha cara fica me olhando ―Se quiser, pode entrar Eu entro sou um cara educado eu sou como um vampiro uau entro só convidado só para VIPs os pensamentos nem sempre são bonitos adequados tampouco ficam bem no papel o papel aliás que papel sigo meu papel ela diz

―Senta aí.

Não tem cadeiras aqui. Oh, tem sim. Talvez eu estenha bebido um pouco demais.

―O que você quer?

Se-xo.

―Pra beber, o que você quer?

Ela elenca lá umas mil bebidas. Todo o cardápio.

―Bebo qualquer coisa. O que você me der.

Ela traz vinho em copos coloridos, eu falo merda sobre sua cidade.

Sento no chão.

―Senta na cadeira.

―Não. Aqui a vista é melhor.

E olho bem pras suas pernas, elas deslizam pela saia, agora inquietas, mas ela não se move, eu sei que estão inquietas, mas ela se mantém perfectly still. É um jogo agora e o meu dever é buscar a porteria contrària.

É a quarta vez que nos vemos. Logo de primeira ela sacou meu olhar e eu saquei o dela. Temos uma relação disfuncional. Ela tem aquele olhar diabólico de que faria qualquer coisa comigo, mas não faz nada, pois sabe que eu quero que ela faça qualquer coisa comigo. O acordo tácito não diz nada, apenas que existe algo. Ela quer me humilhar, mas não do jeito que eu quero. Sentado no chão, seu olhar se apagou, ela não sabe o que fazer com a bola. Uma pequena concessão:

―Fica à vontade ―eu digo.

She looks at me.

―Eu sou muito bom pra ver calcinhas.

Ela agora joga o meu jogo. O resto é irrelevante.

Leave a comment

Filed under Ressaca

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s