Impossível ter uma boa noite de sono com o mundo essa merda que está

Eu tenho preocupações, milhões de preocupações, acordo no meio da noite, preocupado, totalmente preocupado, suando frio só de pensar em levantar e trabalhar, pois acordei agora com essa preocupação, esse problema incontornável. Acordei gravemente preocupado com o impacto dos tablets no meu trabalho.

Fiquei um bom tempo me revirando tentando achar uma saída razoável, mas ficava cada vez mais claro que, assim que tocasse o despertador, eu teria de levantar para uma jornada de fracasso, pois os tablets acabariam com o meu trabalho, com o que eu poderia fazer, pelo menos. Não tem saída. Os tablets acabaram com a minha carreira. Então eu decidi acordar mais um pouco, abri os olhos, senti sede, e pensei “Que papo imbecil de tablets é esse? Que se fodam os tablets”. Então eu dormi até a hora em que o despertador me acordou.

Ontem adjetivos me preocupavam. Alguma besteira que li me fez acordar no meio da noite preocupado com o uso de adjetivos na escrita. Jornalística, literária, tudo. Até frases insignificantes de panfletos, tudo me trazia horror, pensar no uso de adjetivos. Eu não conseguia conceber exatamente se era ruim, por que era ruim, mas era certo: tinha algo seriamente errado. E eu, em semi-consciência, deitado suado na minha cama, me revirando nas cobertas, desesperado com o uso dos adjetivos. Quaisquer adjetivos. Eu não saberia classificar as coisas. Eu não sei, nada é tangível, tudo é subjetivo, relativo. Nem as cores são certas, eu não posso afirmar nada, eu não tenho como afirmar nada, pesquisas científicas seriam necessárias para dizer que um carro é novo ou velho, ou um lápis está apontado ou não. Não sei, não dá. Terrivelmente preocupado com adjetivos. Abri os olhos, senti sede e pensei em como aquela preocupação era irrelevante.

No meio da noite fui acometido pela terrível certeza de que todos meus amigos eram misóginos, inclusive as meninas, e eu não sabia o que fazer. Como vou me relacionar com essas pessoas. Se todos são, serei eu também? O mundo é misógino? Há saída? Não sei, não conseguia encontrar um caminho, lá, deitado na cama, no meio da madrugada, misoginia, misoginia. E tinha também o sexismo, o machismo. Ah, o machismo. Meu Deus, tinha o machismo também. Sentia meus cabelos caindo de preocupação só de pensar na hora em que o relógio despertaria, vibrando, piscando, tocando Bob Dylan (misógino) e eu teria que me levantar para este mundo podre, contaminado pelo ódio às mulheres, o ódio fundamental ao gênero feminino. Como eu poderia tomar banho e me trocar nesse mundo? Como eu peguei metrô tantas vezes, como consegui olhar na cara das pessoas e até mesmo ser simpático com a moça do café, sabendo que eu, ela ―todos―, éramos misóginos. Acordei sentindo sede e pensei que era bobagem tudo aquilo. Claro, as mulheres são seres de segunda classe, mas também nunca fizeram por merecer sorte melhor. Deitei a cabeça no travesseiro depois de um bom copo de água fresca e dormi pontualmente até a hora em que Bob Dylan me acordou falando coisas de mulheres que fazem merdas sem sentido.

Acordei e desta vez era definitivo. Eu antecipara questões fundamentais da humanidade e era certeza: caminhávamos para um beco sem saída: a literatura estava fadada a morrer, a viver vegetando com autores sem talento nem qualidade, um bando de misóginos que adjetivavam as coisas mais babacas do mundo, escrevendo por dinheiro. Pensei no Borges, e ele tinha dito: “Eles aprenderam a escrever do mesmo modo como um homem pode ter aprendido a jogar xadrez ou brigde. Eles não eram realmente poetas ou escritores. Era só um truque que aprenderam, e o aprenderam para valer. Tinham tudo na ponta dos dedos. Mas a maioria deles parecia ver a vida como se não tivesse nada de poético ou misterioso acerca dela. Para eles, está tudo garantido. Eles sabem que, na hora de escrever, precisam de repente ficar tristes ou irônicos.” Borges, cego, cantara a bola e só agora eu me dava conta. Era o começo de um processo, lá em 1967, e agora vivíamos no zênite da banalização intelectual. Tudo agora era jornais revistas e outras bobagens. Você abria a última página de qualquer coisa e estava lá, umas bobagens escritas por alguém que sabia escrever, alguém bem calçado e vestido escrevendo essas merdas sobre as calçadas de Higienópolis como se o mundo estivesse OK e ser escritor fosse uma profissão como qualquer outra. Fiquei preocupado, seriamente preocupado. Pensei em alguns casos, pensei que o Nobel estava aí todo ano, os escritores não deveriam ser de todo mal, um laureado nunca me decepcionou antes. Mas e se for tudo um esforço de estilo, e se o homem tiver soltado seu último ganido e a última pedra estiver lá, posta, meu Deus, é irreversível. E eu não poderia fazer nada, não havia merda nenhuma que eu pudesse fazer. Eu não tinha capacidade e ninguém poderia me ajudar. Meu Deus, essas pessoas confundem Kafka com kafta, acham que Harold Bloom é o protagonista de “Ulisses”. Estamos danados, todos. Levantei para tomar um copo d’água e voltei rápido pra cama pois já ficava claro lá fora e logo mais o despertador vai tocar e vamos ter que nos levantar, nos banhar, alguns fazer a barba, alguns preparar o café, pegarmos o carro o ônibus e o metrô e ir trabalhar num mundo de merda de preocupações em que absolutamente nada se realiza.

E ainda tem essas pessoas que usam realizar como fosse perceber. Esse mundo é uma bosta mesmo. Dormi e acordei.

2 Comments

Filed under Não foi bem assim, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis, Zimmerman

2 responses to “Impossível ter uma boa noite de sono com o mundo essa merda que está

  1. Mano.. tudo é só uma pira, como qualquer outra. Então a sensação é zero, neutra..

  2. siola

    Ah os tablets. Chegou-se a conclusão que nenhum ser humano é capaz de aprender sem a presença de tal equipamento dentro da sala de aula. Justo, inquestionável. Como argumentar contra isso?

    Alegre-se, eles também acabaram com a minha carreira(?).

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s