A galera cheira, os sinos dobram, o barulho não pára

Val, o gerente, destrata a funcionária, dizendo que ela não é muito inteligente. A outra ali tem uns peitos muito bons; não consigo precisar sua idade. Ela tem umas pernas muito boas, realmente viçosas, a bunda é um espetáculo à parte, ótima curvatura, a circunferência das nádegas é admirável. Ela definitivamente não é nova o bastante pra isso ser normal natural ―as mulheres, como se sabe, em sua maioria, passam a vida como se não fosse nada, elas nascem, crescem amadurecem, e ficam gostosas praticamente por acaso. Elas têm um pico, o auge de sua forma física. E tudo passa. Sem mais nem menos, ela vai, fica gostosa, depois passa, deixando claro que nada daquilo foi intencional ou planejado. Pelo menos não por ela.

Essa daí é um desses raros casos em que ela já está velha o bastante para não ter chances de ser gostosa mas é gostosa mesmo assim, como uma menina na flor da idade. As pernas perfeitas, quentes, sem marcas, a bunda redondinha no shortinho jeans, os peitos estão bem firmes, nenhuma marca também. Muito bem, muito bom, e não há marcas no rosto tampouco. As pessoas são como livros, ficam amassadas e amareladas, e esta aqui é um belo achado no sebo.

Mas essa galera com certeza cheira. A cara toda estourada, o cara cheira. Como ele faz a barba com uma cara tão irregular. Observo com toda atenção possível enquanto ele faz as contas. Os pêlos nascem aqui e ali, ele vestido com as melhores roupas da loja é uma coisa triste, eu fico triste com a moda e com o que ela faz com as pessoas. Não sei ainda como sua barba insiste em crescer nesse rosto destruído pelas espinhas, é triste como as coisas rolam pra algumas pessoas. Eu fico triste pensado que essas pessoas cheiram, que o Val dá um tapinha inadvertido na bunda da gostosa no estoque, que a outra burra chupa o pau do cara do caixa como se fosse um favor. Não dá. Não dá pra ficar pensando nas pessoas. Todo mundo é um poço de bosta.

*

No jornal, as coisas continuam as mesmas. Sábado, tento ler as notícias. De costas pro sol, o vento vira as páginas. Me obriga a ler os quadrinhos. Empreendimentos imobiliários saem voando, as latinhas caem da mesa e ficam indo de um lado pro outro, batendo contra a parede, rolando pelo chão. Eu tento manter a calma. Quadrinhos. Vamos pelos quadrinhos. Uma coluna, sei lá, notícias, matéria, novidades, crítica de alguma coisa as latinhas, por que fui tomar latinhas. E por que tantas? O vento levanta as cinzas, tudo é imundo. Dou um gole cai uma gota. Fico olhando o jornal absorvendo minha cerveja. O papel ondula, o líquido vai entrando pelas fibras, o pequeno ponto de espuma se desfaz, o líquido está todo no jornal agora. Era só uma gota, meu Deus, e os sinos do inferno não param de dobrar, trec, trec, craaacratatata, tin tantin.

Nada de engraçado acontece. Faz tempo que não fazemos merda nenhuma. Quando tudo é liberado, não sobra muita chance de fazer cagada. Penso frases soltas e deprimidas enquanto tomo banho. Preciso comprar uma garrafa de uísque. E arrumar a internet. Bater uma punheta na sala. Uma punheta na varanda. Realmente temos poucas opções hoje em dia.

*

Nós não temos uma relação. Eu quero falar isso. Eu nem te conheço, eu tenho vontade de dizer. O que seria mentira, pois eu conheço. Mas a única relação que temos é a seguinte: você me atormenta. É isso, você é só uma preocupação. E fala muito. Ela continua falando. Cara, fala tanto. Você não tem vontade de ficar quieta de vez em quando? Pergunto isso em voz alta.

Ela é inabalável. Ficar quieta? Ela ri. Eu queria só queria te contar, você tem que ler esse livro. Pelo menos essa parte. É muito boa! Eu não quero ler esse livro, eu não quero ler livro nenhum, meu Deus. E o barulho não pára.

Eu sou um ser humano infeliz, olhando desesperadamente pros lados, querendo pegar uma cerveja, evitando sentir seu cheiro. Eu odeio seu cheiro.

Eu quero tócar fogo neste apartamento.

A cidade é tão grande, porque você quer encher logo o meu saco? Tanta gente por aí pra você dar no saco, você vai dar logo no meu? Eu sou um cara especial agora? Eu não agüento.

Porra, que saudade de jogar bola.

Mas você não gosta de nada.

Eu odeio. Odeio tudo. Bato o cigarro na mesa.

Se o Corinthians não ganhar amanhã…

Bato o copo na mesa. O copo é lindo. Eu não tenho vontade de chutar o copo, por exemplo. Vou falar uma merda.

Quero comprar um email.

Um email?

Não, um isqueiro, falei errado.

Leave a comment

Filed under Bunda, Capitalismo, Coitado do Manolo, Crise!, Mulheres gostosas, Peitos, Putaria e abominação, Ressaca, TL;DR

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s