Interpretando Caetano

Esse blog não vai se atualizar sozinho, né? Essa, aliás, é a máxima dos últimos tempos. Aparentemente, nada mais se faz sozinho. O que é uma pena, pois eu morro de preguiça de fazer certas coisas. Lavar a louça, por exemplo. Nossa. Escovar os dentes, então?

Sábado agora minha noite foi arruinada na pizza, não agüentava mais mastigar aquela merda. Meu Deus, quanta pizza, pra que tudo isso?

Bem, mas hoje não vamos falar sobre preguiça (porque eu fiquei com preguiça desse papo): hoje vamos falar sobre Caetano Veloso sendo gay e voltando atrás (ops) e aceitando de bom grado um bola de uma mina (que era bem dahorinha, pelo que eu entendi).

Essa história, claro, será contada sem a menor aprovação ou ciência do Caetano, que uma hora dessas deve estar muito do feliz da vida, na casa dele, pensando “Uhm, amanhã é terça-feira, dia de futebol com os caras da firma”, e depois “Putz, não, é segunda, tenho dentista, que merda.”

“À merda meus dentes”, ele vai falar, super-poético.

Vamos hoje interpretar “Queixa”, do Caetano, às luzes de Freud, para quem tudo se resumia a “putaria e abominação” (“A Transitoriedade”, 1916). “E pinto, tem muito pinto também” (“Complemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos”, de 1917).

QUEIXA

Um amor assim delicado
Você pega e despreza 
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Caetano começa falando da delicadeza do amor. Não do sentimento, mas do ato, aqui apresentado de forma implícita. A menina agitou, mas depois ficou com frescura. No último verso, porém, as coisas começam a andar bem para Caetano: vocês sabem: se ela ajoelhou e não está rezando, menina religiosa que é, bem.

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado 
Disso eu tenho a certeza

Caetano justifica sua ereção (aparentemente colossal), dizendo que ele não é o único culpado – afinal, ela o excitou, como já sabemos.

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora me diga aonde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Aqui entra o combate entre a homo e a heterossexualidade, mas ainda de forma encoberta. “Surpresa”, ele diz, que a princesa o tenha arrasado. Mal sabe ela que uma transformação íntima acaba de ocorrer dentro de Caê.

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Ele tenta dar uma disfarçada, pois as coisas já ficavam óbvias demais. Então Caetano divaga sobre os vaivéns do amor. Ele inclui até um “contra tua dureza”, para tentar confundir o ouvinte. “Mas então ela tem um pau?” Não, não é esse o caso. Apesar de vanguardista, sexo com travestis não é tema da conversa de Caê. Trata-se apenas de uma mulher, como qualquer mulher, dada a mudanças de humores, reminiscências de ódios, pequenas vinganças e intransigências.

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora me diga aonde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Fizeram as pazes, repete-se o refrão.

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Aqui fica mais bela e explícita a batalha homo versus hétero de Caetano. Ele volta ao tema do amor delicado, pra dizer que “Nenhum homem daria” – ou melhor: “nem um homem daria”. Sabe-se muito bem (se vocês não sabem, eu sei) que homens chupam pau muito melhor que mulheres. Isso quando eles querem. Bem, na verdade eu não sei, quem me disse foi um tio meu, que chupou o pau de um traveco. Quer dizer, de um traveco tio meu que chupou meu pau. Quer dizer, Caetano Veloso deixa claro aqui o que todo mundo já está careca de saber mas tem vergonha de admitir. “Um amor assim delicado/ Nem um homem daria”, e, abalado pela destreza feminino, Caê reconsidera seus romances homossexuais pregressos, afirmando que talvez tenha sido pecado apostar na alegria.

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito essa queixa

Acredito que vocês já tenham pego a manha. Caso contrário, pelo amor de Deus, é tão difícil encontrar metáforas sexuais em qualquer construção mais abstrata? É como encontrar formatos de pênis numa parede cuja tinta descasca, ou pênis na oxidação de um espelho, ou pênis em ranhuras na madeira, ou pênis, pênis, pênis! Calma. Então, como vinhamos dizendo, a menina ajoelhou e não rezou. Muito pelo contrário, com avidez e diligência ela acredita que Caê possua o sumo da vida (e não é que ele possui?!), e vazio Caetano fica. Essa loucura não fica por isso mesmo, pois Caetano sabe que Deus, o Altíssimo (Ele mesmo) não quer que Caetano silencie, pois Deus curte uma sacanagem. Deus acha isso não apenas normal mas legal. Então Caetano, no ponto alto do amor (oral), grita esta queixa:

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora me diga aonde eu vou
Amiga, me diga

Caê fica perdidinho, não sabe o que fazer, cai prostrado na cama, as calças pelo joelho. Num suspiro carinhoso, chama pela menina, que sorri envergonhada enquanto com a mão limpa o queixo – que é o masculino de queixa.

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Filed under Gay's the way, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, poesia pra caralho, Putaria e abominação, Que papo é esse?

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