Metáforas táteis

(Obrigado ao FASM pelos comentários, por apontar os erros, por limpar o texto e por varrer os clichês)

 

 

―A comida aqui é razoável, os charutos são intragáveis; e o velho árabe, uma anta ― disse, guiando o caminho por entre as mesas.

―Me trouxe aqui por que, então?

Cumprimentei o garçom com um aceno de cabeça.

―Não sei ― peguei o prato ― Vai ver não gosto tanto de você assim.

Os charutos estavam lá, enroladinhos, ensopados no molho.

―Vai ver você não é tão legal assim.

Chegou mais alguém. Ela foi daqui ali, procurou, ameaçou e acabou sentada ao meu lado. Não cheguei a prestar atenção. Eu estava mais preocupado em transbordar meu copo de cerveja enquanto pensava ― seriamente eu pensava ― em fumar um beck pelo século XXI. Em fumar um beck contra a mídia golpista e contra o Estado militarizado. Em fumar um beck que se acendia por um isqueiro que soltasse estrelas amarelas, brilhantes num céu vermelho de fogo. Eu queria fumar um beck com Che Guevara. Mas Ernesto é morto… e a cerveja derramando pela mesa e pelas frestas entre as tábuas de madeira e sobre minha calça jeans, com dramaticidade, com que dramaticidade.

Empolava papel de bar, aqueles becks de antigamente, antes de tudo ter se profissionalizado e se tornado um produto velado, secreto, hipocrisias do capitalismo. O dinheiro vale tudo, eu pensei, sem fazer muito sentido, enquanto varria com a seda aquele rio de cerveja para o chão. Para o chão.

Ela estava sentada ao meu lado, com a bolsa no colo, e sorriu.

Sorri de volta, pensando em Bob Marley, Malcolm X, Che Guevara.

―Desculpa, mas eu não tenho cerveja pra você agora. Acabei de derrubar o último resto.

Último resto, fiquei pensando nessa construção sem sentido e na minha falta de tato com o sexo. Feminino.

―Ah, vou lá pegar.

Levantou-se e, em cinco ou seis passos, alguma coisa aconteceu no meu coração, especialmente quando ela ficou na ponta dos pés em frente ao balcão e pediu; imaginei seus lábios dizendo docemente:

―Me vê uma cerveja, por favor.

E o cara do bar, docemente:

―Qual?

Ela então olhou pra trás e eu já subia passo a passo cada centímetro de suas pernas com meus olhos, cada pequeno ponto que compunha aquela perna firme metida numa calça leggin, a panturrilha retesada, os tendões de trás do joelho, as coxas, até a bunda. Ela olhou pra trás, percebeu, apontei pra Brahma em cima da mesa e fiz um jóia. Ela se virou:

―Uma Brahma.

Meti a mão na testa. Pra que fazer esse jóia, Rafael?

Uma Brahma, ela sabia, ela percebeu, ela sabe. Quando se virou e começou a caminhar de volta à mesa eu percebi, eu soube: ela era, com a leveza dos seus passos, com seu sorriso que deixava pender o lábio e entrever seus dentes, com seus olhos tristes e com seu cabelo, com seu cabelo que segurava e enrolava entre seus dedos: ela era uma dessas meninas que se portam como gatos, que se fazem de qualquer coisa e que sabem.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só jogar 90 minutos no ataque, até que o juiz apitasse o fim do jogo.

―E aí, mas então ― eu começava mal a puxar o papo, mal, muito mal, Rafael ― o que você faz?

Ela respondeu e eu não conseguia deixar de acompanhar suas mãos, seus cabelos, seus lábios; ela fazia isso pois ela sabia, ela queria que eu olhasse.

Merda, estamos fodidos. Isso vai mal, isso vai muito mal, eu pensei.

―E você, o que faz?

―Eu? Eu não faço muita coisa ― tinha vontade de me humilhar, de revelar coisas vergonhosas, de me expor de forma sem precedentes, como nunca antes na história desse país. Comecei pegando leve:

―Eu amo o Lula. Amo, absolutamente ― arrisquei.

Ela concordou, em termos.

―Mas não ama o Lula? Nem um pouquinho?

―Por que eu vou amar o Lula?

―Porque o Lula ― bati no coração ― o Lula é Corinthians.

―Corinthians? Você tem cara de são-paulino.

Enxuguei os lábios, pousei o copo na mesa e disse com gravidade, o dedo perpendicular à mesa:

―Eu sou Corinthians.

Ela riu e disse que sim, e concordou, disse que amava um pouquinho o Lula, então. Ela ama o Lula e o Corinthians, eu te amo, eu pensei, e talvez tenha dito, porque ela arregalou os olhos com graça e riu ainda mais um pouco.

Perguntei se ela gostava de música. A pergunta foi exatamente essa.

Ela ria e aceitava ― às vezes com certa reserva ― as merdas que eu falava. E eu me deliciava com suas respostas malcriadas.

“Tem certeza que você quis dizer isso?”, “Você não é negro, sabia?”, “Spike Lee e Spike Jonze são pessoas diferentes.”

―Eu tenho uma curiosidade: saber como é um pinto judeu ― Mano, de onde tiramos isso? Tava nessa outro dia, né. Lembra? “Jewish Porn”, no Google, e nada. Eu pegaria uma mina judia, com certeza.

Mas voltemos ao pênis hebreu.

Corria o risco de me passar por homossexual e antissemita de uma vez só. E não era hora de se passar por homossexual e antissemita. Não. Não agora, não aqui.

―Estou lendo “O Estrangeiro” ― disse.

―Aquele do Camus?

―Isso, Camus ― ela disse, numa pronúncia impecável. Maravilha, puta que pariu, agora essa porra fala francês também. O que eu vou fazer?

O que eu vou fazer? O que um pobre rapaz como eu pode fazer? Não há saída, não há alternativa, eu pensava, enquanto mergulhava os olhos em suas coxas e ia subindo por entre as pernas. De súbito, um mundo novo se desvelada diante dos meus olhos, por debaixo daquela calça, daquela calcinha polpuda, daqueles pêlos, aquela boceta, aquele amor que falava francês. Observava sua virilha com obstinação. Subi o olhar e encarei-a. Semicerrou os olhos me indagando.

Ergui as sobrancelhas e fiz um bico:

―Eh! Fazer o que, né?!

Ela menciona Mia Couto. Digo que não gosto, que não me convenço nessas merdas que ele escreve. Além do mais, o cara é branco.

―E Milton Hatoum?

―Gosto, mas não me convencem os diálogos.

―Como assim?

―Não sei, as pessoas me parecem muito eloqüentes. Mas pode ser, deve ser, uma avaliação prematura e babaca da minha parte, que dizer, Milton Hatoum, sabe, essas coisas.

―C-

―Essas coisas ― eu lhe assegurei.

―E como as pessoas falam?

―Não sei, não sou bom nisso.

Não sou bom nisso, não sou bom em nada. Não sei como as pessoas falam, não sei falar com as pessoas. Como lidar, qual a saída? Não há meio prático, exit this way. Só confusão, falha de comunicação. Falha da comunicação. As pessoas se escondem, fogem, tomam calmante pra dormir. Mas eu sou um homem à moda antiga, encaro meus problemas, minhas limitações, tento superá-las. Com a bebida.

Enchi o copo e contei que tinha uma história que queria escrever. Era sobre um cara que só cons-

―Você?

Não, não, um cara que só conseguia escrever sobre mulh-

―Certeza que não é você? ― ela riu.

Fiz um gesto mas congelei as palavras na boca e a mão no ar. Concedi: OK, sou eu.

―Tá ― sorriu com maldade ― e aí?

É esse cara-

―Você.

Eu: é esse cara, que sou eu, Rafael Lacerzanatto, que só consegue escrever sobre mulheres, e ele gosta de escrever… e gosta de mulheres… (eu perdia o fio da meada)… mulheres…

―Tá bom, você gosta de mulheres, vou acreditar nessa. Mas e aí?

Aí que esse cara escreve apenas sobre mulheres, ele quer chupar até- Ela franziu as sobrancelhas, calma, calma, Rafael. Outro verbo. Ainda não é hora de usar essa carta.

Ele quer… reter, reter cada mulher que conhece, que lhe atrai, quer como que eternizar sua essência, ou pelo menos aquilo que mais lhe atrai, ele quer marcar aquilo pra sempre no papel. Começa na faculdade: ele derruba um lápis no chão; o lápis cai, quica e rola pra debaixo das mesas. Ele se ajoelha e, bem no momento em que está de joelhos, vê uma menina no fundo da sala, de saia, descruzando e cruzando as pernas. Ele vê sua calcinha, e é uma calcinha linda, listrada em várias cores, e a perna da menina é firme e bronzeada, morena, ele consegue ver os pêlos quase transparentes em toda a extensão da coxa e fica maravilhado. Pega o lápis e quer reter aquilo da melhor forma possível, quer guardar aquela memória para sempre, transformá-la em algo físico e palpável e tê-la para sempre perto de si. Ele tem essa tara, além das mulheres, de catalogar, de sistematizar, de arquivar e conservar tudo, congelar o momento para sempre. Ele é louco com a manutenção da memória. Ele começa a desenhar os pés da cadeira, os pés da menina, mas ele é extremamente limitado no desenho e não consegue criar uma perspectiva que dê conta da profundeza que se cria entre aquelas duas pernas, toldada pela saia, ele quer tudo, ele quer aquela calcinha, aquelas pernas, a saia, o verão, a faculdade, ele quer tudo exprimido em um desenho. Mas desenha mal demais e pensa: Eu queria desenhar com palavras. Então começa a descrever, cuidadosa e detalhadamente, ele escreve, reescreve, risca, troca palavras e passa a limpo ― a aula é longa. Então passa para um amigo, que lê, olha pra trás, vê a menina e volta, balançando a cabeça: “Porra”, ele diz, “Também chuparia aquela mina”. E não tem nada de chupar no texto, nada, e ele fica maravilhado que consegue, enfim, captar um momento e transpor no papel, como se fizesse uma fotografia ou um desenho. Então ele continua a fazer esse tipo de coisa e vai se aperfeiçoando ― eu não sou tão bom assim ― mas vai se aperfeiçoando e começa a variar, escreve um haikai sobre o decote da menina no ônibus, um poema de extrema sacanagem sobre a namorada de um amigo, fantasias das mais variadas com todo tipo de mulher que conhece, inclusive ― especialmente, aliás ― no sentido bíblico. Ele se aprofunda de tal forma nessa pira, nessa tara, que toda mulher que lhe chama a atenção deve ser imediatamente eternizada em palavras, às vezes frases soltas, às vezes quatro, cinco páginas sobre o vislumbre de um mamilo. Ele se torna obsessivo. Compra um smartphone e quando está com uma menina, corre para o banheiro, com a desculpa de que vai mijar, para registrar nas exatas palavras qualquer coisa insignificante que ela diga, o seu hálito, a cor da alça do sutiã, a espessura dos seus pêlos pubianos, bem como o formato da depilação. Ele vive pra isso, e muitas vezes leva situações às últimas conseqüências não pelo sentimento, seja amor ou pura vontade de fazer sexo, mas para poder depois registrar, numa riqueza de detalhes e manobras, o que há de mais verdadeiro e real naquela mulher. Ele-

―Você.

Isso, eu. Eu tenho essa teoria ― quase religiosa ―, em que ele diz que a melhor forma de se chegar ao real, à Verdade, é a partir da ficção, dos rodeios, das invenções, de discursos indiretos e de cantos de olhos. Ele pensa em Deus, em todas as parábolas, em tudo que roça a questão mas não diz nada explicitamente. De tudo que está prestes. Para ele, o que importa nunca pode se manifestar, como a face de Deus, como a interdição do tetragrama, todas essas coisas.

Até que conhece uma menina que o arrebata e ele sente, com toda convicção, que ela é sua obra definitiva. De ela tudo flui. Imagina narrativas em cada curva de seu corpo, aforismos emanam das suas pernas, Bataille invejaria suas clavículas, seqüências eletrizantes sobem das costas dos seus joelhos até a bunda, onde bonito e bom, luminoso, quente como o sol e aconchegante como uma rede, depois do almoço, já um pouco bêbado de cerveja. “Metáforas táteis”, ele escreve no topo da página e se senta para escrever aquilo que é a realização de tudo que já viveu e pretende ainda viver.

Mas ele não consegue. Saem apenas palavras dispersas, uma frase ou outra, nada muito bom, talvez legal de publicar no twitter, mas não há consistência, não há uma seqüência, nada se encadeia nem funciona. Ele se torna cada vez mais obcecado em dar forma ao livro, em jogar no papel todo o turbilhão que toma sua mente dia e noite mas não, o negócio não vai pra frente, a escrita não anda, as coisas escapam pelos seus dedos. Sente uma profunda frustração e começa a beber (mais), pensando que isso vá lhe dar alguma inspiração, mas ele apenas queima cada vez mais papel, faz anotações em caderninhos, em post-its, na mão, na esperança que vá dar uma forma de ligar notas esparsas, mas nada, a coisa não marcha. Ele bebe, bebe, cria uma violenta aversão à mulher ― agora eles estão juntos ― mas ainda a idolatra, totalmente reverente, beija seus pés. Todo seu esforço e carinho, cada ereção, porém, é dedicado não à mulher, mas ao livro que pretende escrever, à sua obra prima. A relação se deteriora e ele acha que o melhor é se separar, que sozinho vai conseguir juntar a tristeza e a frustração de forma que consiga pôr em palavras aquela mulher. Senta-se em frente ao computador, o cigarro na boca, “Metáforas táteis”, serifado, zunindo em preto no topo da página, bate o dedo em alguma teclas, deleta letra por letra. Não consegue.

Ela ergue as sobrancelhas e alonga as vogais:

―Aaahh…

―É mais ou menos, né?

―É, mais ou menos.

―Extremamente mais ou menos ― eu digo sem convicção de mais nada e encaro o fundo do copo, que gira na minha mão.

―Sua vez de pegar cerveja.

Levanto-me e volto como o fantasma do falecido rei, com uma péssima notícia do mundo dos mortos:

―Tão fechando o bar, não servem mais cervejas.

Ela arregala os olhos e pergunta, séria:

―Sério?

Sério, respondo:

―Sério ― respondo, e balanço a cabeça com importância.

―Então vamos pra outro lugar.

―Dê-mo-rou ― digo, como se tivesse quinze anos e me humilho mais um pouco diante daquela menina que me congela e me eletriza jogando o cabelo e mexendo os lábios, dizendo coisas quaisquer que aos meus ouvidos parecem as maiores indecências já proferidas. Meu peito se aperta, fico desesperado. De decência eu já estou cheio, e parece que vou morrer de ouvir o que quero. Penso nas suas pernas, e de fato as acompanho quando ela anda até o banheiro e puxa a camiseta pelos quadris, para cobrir a bundinha, linda bundinha, metida naquela calça leggin, tenho vontade de chamar meu advogado, pegar um táxi para o cartório, reconhecer firma: eu estou de pau duro.

As luzes da cidade brilham enquanto passamos queimando gasolina, cigarros e pneus. Meninas gritando na calçada e Bob Dylan tocando baixinho. Coloco o braço direito pra fora do carro, encosto a cabeça na janela e canto, sussurrando entre os dentes:

―He takes himself so seriously…

Olho pra esquerda e ela está dirigindo feliz.

A torre da Band
goteja luz
na Minas Gerais

Na Augusta, a ação acelera e eu abro uma, duas cervejas no meu braço, jogando as tampinhas pra cima e metendo a bica para longe, para o alto, chuto a guimba que explode em fagulhas malucas, voam todas para cima dos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas de duas meninas que dividem um misto nas mesinhas do Charm, que me olham feio, e o bar já fecha. Todas essas merdas fecham.

―Temos que entrar em algum lugar se não quisermos descer a rua toda.

Ela dá um gole com classe nenhuma, um olho fechado e o outro aberto:

―Com certeza; o que você sugere? Eu topo qualquer coisa.

―Qualquer coisa?

―Qualquer coisa ― responde com malícia, e eu só quero puxá-la pela cintura e meter minha língua na sua boca, for starters.

Aponto pro outro lado da rua, guio o caminho por entre os carros, e dois minutos depois estamos dividindo uma cerveja já sem nenhuma condição de nada.

Dançando ela sobe as mãos pelo quadril, pela barriga, pelos seios e rebola tão bonitinha, balançando a cabeça. Estamos completamente bêbados. Puxo-a pela cintura, agora é a hora, mas eu sou um gato e já que é tão certo, vamos brincar.

O ritmo é cada vez mais acelerado, a luz estroboscópica não dá trégua, mil rotações, a batida sobe num crescendo alucinante, estourando meu peito, minhas pernas, meu coração, minha boca, um gole de cerveja, se você tem que ir, que vá agora, adeus Brasil, adeus Cuba, adeus século XXI, adeus minha ascendência e a futura geração. O negócio é aqui e é agora. E tá pegando fogo essa porra.

Vamos brincar.

Essa menina tem um tufão nos quadris, gira, aperta sua barriga contra a minha, sinto seus seios enquanto ela roda no meio daquele inferno, sua boceta indo de lá pra cá, na minha perna, no meu pau, próxima coisa estamos sentados, a milésima cerveja da noite.

Bebo por inércia e quero vomitar.

Próxima coisa:

―Você está bem pra dirigir?

Próxima coisa, o metrô está andando pro lado errado e avisa:

―Estação Consolação.

Putaquepariu.

Próxima coisa, o porteiro me oferece o jornal dizendo bom dia.

Próxima coisa, o rosto dela numa chapa fotográfica metalizada, brilhante, a imagem que construí na minha cabeça; é o que vejo logo antes de abrir os olhos.

Levanto, pego uma cerveja e sento na varanda. O cachorro vem, cheira minha perna e senta-se ao meu lado. Observamos o horizonte. Pego-o pelo focinho:

―Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Falhe.

Contei-lhe minha história.

―O que eu faço, Senhor Cachorro?

―Você poderia chamá-la para um au-moço.

―Aw, Senhor Cachorro, como você consegue ser tão fofo?

Matutei um tempinho sobre o assunto. Isso: almoço: boa idéia. Dei um gole na cerveja, que já havia esquentado, e não consegui segurar o vômito.

Diligente, Senhor Cachorro abanou o rabo e comeu tudinho.

Cortei o charuto. Não sei por que peguei essa merda. Sempre caio em tentação.

Entrego meu cartão pro velho árabe e ele passa errado logo de primeira. E depois de segunda. Quantas formas diferentes um velho árabe pode passar errado um cartão? Bato a cabeça no vidro do caixa, me dá vontade de dizer “Dá essa merda aqui, vovô! Eu passo essa porra!”, mas em vez disso brinco com as gomas. O vovô me olha por cima dos óculos e diz:

―É brinde, pode pegar. Brinde.

―Valeu.

Valeu, agora passa essa merda. Ele está passando na máquina errada, tenho absoluta certeza. Me entrega, digito a senha, transação aprovada.

―Não precisa da minha via, tá?

Ele me dá mesmo assim.

Saímos pra rua, uma bela segunda, andando pela calçada quebrada, um vaivém sem parar, carros, motos, bancários, jatomóveis, coloco meus óculos escuros e, com as mãos no bolso, pergunto:

―Vamos tomar um café?

―Você não tem que voltar?

Estendo o braço para protegê-la do farol que acabou de abrir. O que eu queria mesmo era pegar nesses seus peitos.

―Já estou quarenta minutos atrasado.

―E não tem problema?

―Não há nada que eles não possam fazer sem mim. E outra: que se foda o trabalho.

―Uma cerveja, então? ― essa menina fala o que eu quero ouvir, ela é um amor. O farol abre.

―Aí sim, hein. Demorou. Aliás, você não trabalha, né?

―Não.

Tá certo, amo essa menina.

Sirvo seu copo, depois o meu: um brinde: um brinde:

―Um brinde. A mim.

O telefone toca. Ela atende:

―Alô. Oi, tudo bem e aí? To, to almoçando com uma amiga ― ela não me olha― e já já vou passar na livraria. É, e você? Ah, aham…

Esparramado na cadeira, dou um gole da cerveja, giro o copo na mesa, fico observando. Ela desliga, eu pergunto:

―Então é verdade aquele papo?

Ela balança a cabeça como se “pois é, é verdade, fazer o quê”.

―Bom, a bola tá rol- ― toca o meu telefone. Atendo ―Alô, oi ah, e aí? Beleza. É, então, to aqui tomando um café cos moleques. É, saí mais tarde. Não, já to subindo. Só esperando o Pedro terminar o dele. É, beleza. Ah, vai lá? Legal.

Agora ela me olha.

―Nossa, é mesmo? Ah, nada a ver! Haha. Olha só. Mas ela era dahora? ― não tiro os olhos dela e sei que ela gosta. Desço até sua boca, seu pescoço, seus peitos ― Ah, pelo menos isso! Haa, ei, to brincando. Ai ai. Beleza, então, tá bom então, beijo. Beijo. Tchau ― seguro o telefone longe do rosto ― tchau, tchauu.

―Então você namora também?

Estendo os braços e viro as mãos atadas pros céus: o que eu posso fazer? As setas do amor me atingem, a paixão de Rafael.

―E o pior: ela disse que sonhou hoje que eu a traía.

Meu coração pesa, mas tenho um coração pesado há tempo o bastante para não me importar. Se não se pode contar com o passado e nem com o futuro, só o presente lhe resta. E é assim: de segunda a sexta à espera do fim de semana. E não há forma melhor de se começar uma semana do que em busca da leveza de um amor livre e tranqüilo. E já que não temos um amor livre e tranqüilo, vamos com um que é escravo das vielas, dos corredores e escadas, um amor que não se revela, obscuro e suicida.

Não sabia onde pôr as mãos. Comecei a palitar os dentes.

Ela não via gravidade em nada. É uma menina linda e cínica, que fica triste só às vezes e aí conta a verdade, o que realmente sente. Isso esmaga meu coração, e isso eu só aprendi depois. Ali ainda acreditava que ela só queria mesmo tocar fogo nas coisas.

Ela disse que sonhou hoje que eu a traía…

―E o que senhor acha disso?

―Coincidências de um mau escritor.

3 Comments

Filed under Bataille, Bunda, Capitalismo, Coitado do Manolo, Crise!, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Ressaca, Seres Humanos Reprováveis, TL;DR

3 responses to “Metáforas táteis

  1. FASM

    Rafael, gostei bastante do texto!
    Not to toot my own horn, mas achei que a escrita ficou bem mais limpa e fluente.
    A descrição do livro no bar é simplesmente épica. As palavras fluem com uma facilidade de dar inveja.

    Felipe
    PS: a cena da mina na ponta dos pés, debruçada no balcão, me lembra aquela vez com a japa da FAU.

  2. hahahah aquele foi um momento formador pra mim, com certeza. tomando um mate e vendo a japinha se debruçar no balcão

  3. vittie

    Sensacional, Zanatto! Curti pacas. Tua escrita tá muito limpinha! E a narrativa me lembrou Cortázar!

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