Dez milhões de homens em conflito

Aspirei profundamente. O cheiro de sabonete invadia meu nariz. Eu só pensava em bocetinhas, bocetinhas molhadinhas, sentado com uma perna sobre o banco, arrumando meu meião. Bocetinhas, bocetinhas, você sabia que as meninas da natação se depilam todinhas? Um time inteirinho de futebol vem pela vereda, depois por debaixo do toldo arrebentado da lanchonete fechada e, passando pelo bebedouro, me deixa louco. Meninas, meninas de rabo-de-cavalo, shortinho e meião. Meninas de chuteira, que tesão. Que tesão do caralho. Todas suadas, o rosto vermelho, o calor que faz aqui, mesmo entre as árvores ― só à noite a vegetação é capaz de refrescar esse dezembro. Meninas, meninas conversando, soltando os cabelos, em direção ao vestiário onde, daqui a pouco, segundo após segundo, vão se despir. Sentando suas bundinhas no azulejo branco dos bancos vão primeiro desatar os nós e puxar bem os cadarços para folgar as chuteiras e livrar os pés, e agora livrar os pés das meias, talvez uma proteção, calçar o chinelo já jogado no chão, meter a caneleira suada na mochila tudo rápida e impensadamente, mecânico, pois a mulher se despindo sozinha é um ato mecânico ― e é o ato que queremos ver, queremos a intimidade total, a ponto de nos ausentarmos completamente, não ser nada além de uma coisa que, de tão normal, não chega não existir, anular-se, queimar em seu fogo mais íntimo, torna-se cinzas e ser varrido daqui pra eternidade ― então, em pé, tiram a camisa, o top, abaixam a bermuda, a calcinha, tudo numa sacola e pra dentro da mochila, a toalha, o sabonete, o xampu e o condicionador nas mãos, enquanto outras meninas levantam delicadamente uma perna por vez e se apóiam nos bancos, com as mãos espalhando creme por todo o corpo. E agora, nos chuveiros comuns, molham os cabelos, o rosto e a água se espalha pelo seu corpo nu e o sabonete agora, criando espuma nos mais diversos peitos, peitos, peitinhos, peitões, durinhos em formato de pêra, grandes e volumosos, pequenos, apontando para cima, até peitinhos portugueses, da intercambista gatinha, a das sobrancelhas grossas e cabelo castanho. A água escorre, pelas costas, e o sabonete desliza pelas pernas, a bundas, ah, a bunda, é lavada como se não fosse nada, como se não fosse matéria de vida ou morte para eu que inspiro o cheiro de sabonete pensando nas bundinhas e, especialmente, na bundinha da Carol, Carolina, que eu apertei e beijei e mordi, no calor da primavera; o crime, traição, que absurdo, as bundinhas, as bundinhas justificam tudo.

Me dá vontade de chorar.

Agora somos nós, Zico e eu, para além do bebedouro, por baixo do toldo arrebentado da lanchonete fechada e pela vereda até a quadra, os refletores ainda apagados, o dia luminoso que começa a ameaçar entardecer. Somos vinte e poucos homens com uns certos acordos entre nós: dez homens na quadra com a bola e um acordo mútuo e, de tão arraigado, tácito: dentro destas tais linhas, a bola só com o pé ― exceção feita ao goleiro, um de cada lado; e um objetivo mútuo, conflitante e declarado: o gol.

Os times são decididos por acasos e conveniências.

Muito bem, dez minutos ou dois gols, declara alguém, põe-se a bola no meio, dispara-se o cronômetro, com a mão na cintura dá-se ainda uma última volta para conferir se estamos todos e, se estamos, rola-se a bola e começam dez homens em conflito.

1 Comment

Filed under Bunda, Futebol, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Seres Humanos Reprováveis

One response to “Dez milhões de homens em conflito

  1. FASM

    ótimo. só o que tenho a dizer.

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