Monopólio do mal

Por um instante desejei que ela estivesse morta.  Eu não poderia ser incriminado, com Deus do meu lado. E o caminho aberto. Entrei no quarto e ela estava morta, eu diria. Choraria, com sinceridade, e ficaria com os livros do Kawabata, as obras completas do Borges, aquele “Angústia” lindo que ela encontrou na barraquinha da Letras. De óculos escuros, poria até minha gravata preta; alguém ainda fica de luto? E outra, estaria mó calor, não faria sentido. Óculos escuros e uma camiseta preta, lisa, estamos bem. Eu poderia escrever algo, poderia ser o gatilho a disparar algo grande! Não, nada sentimental. Algo terrível, horrível. Pseudônimo. Rafael, Ricardo, Renato, Ronaldo, Roberto. Z, tem que ter o Z. RZ; é muito óbvio. Tudo é muito óbvio, Rafael. Entrei no quarto e ela estava no banheiro. Pode ter morrido no banheiro.

Ficamos na torcida.

Um brilho, forte, leve, fugaz, pisca o LED. Seu celular. Quanto tempo? Tratando de obsessões, perco a noção. Os acontecimentos parecem todos logo atrás de mim, empilhando-se às minhas costas, prestes a desabar. Não sei quanto tempo, mas não suporto esse seu celular. Tenho ganas de pular por cima da cama, agarrar o aparelho na mão e devassar tudo, tudo, ligações recebidas, feitas, perdidas, mensagens, rascunhos, contatos, fotos, nada, nada vai me escapar; nada pode me escapar! Ela pensa que pode esconder algo de mim. Só tem lugar para um vilão aqui, e este sou eu. Detenho o monopólio do mal. Essa frase foi boa, poderia usar em algum lugar. Não! Não agora! Ao celular! Pulo por cima da cama esticando os braços com sofreguidão tentando alcançar a cômoda e cléc, abre o trinco do banheiro, giro no meu corpo, deito like one of your french girls.

Ela me olha ainda debaixo do batente e começou a tirar a blusa, dançando, cheia de maldade. Eu avanço, como um gato!

Ninguém vai esconder nada, Rafael prevalecerá.

Montado nela, da forma mais convencida que podia; prazer, eu sou um gato; agora, cuidado, estamos do mesmo lado; joguei seus braços pra cima, desci raspando a barba em seu pescoço, beijei seus peitinhos, mordi seus mamilos, abracei-a com força, passei os lábios por suas costelas, sua barriga, seu ventre, puxei seus shorts, divisando o começo dos seus pêlos. Abri os olhos e ela segurava meus cabelos e me observava sorrindo.

O sol brilhava pela janela entreaberta:

―Coloca um biquíni, vamos levar o molequinho pra praia antes que fique tarde.

Sentei na cama, ela levantou, encontrou o biquíni, tirou os shorts, a calcinha, fiquei olhando aquela bundinha indo de lá pra cá, olhando pra mim como se eu não fosse fazer nada. Vai pensando, vai pensando, bundinha. Quando ela levantou o pé para colocar o biquíni ― aí, quando ela se fez mais vulnerável ―, aí sim era a hora. Agarrei-a pelas costas, descendo a mão pelo seu corpo, joguei-a com a bunda pra cima na cama, subi desde os tornozelos, beijando as costas dos joelhos, as coxas, mordi a bundinha, abri bem suas pernas e lambi com carinho o seu cu. Ahhh…

Sentei-me, pousei a latinha no chão, peguei um punhado de areia e disse: Sabe de onde veio a areia? Ele fez que não. A areia era antes pedra, pedra como aquelas pedras ali, como aquela pedra enorme ali que nem uma pedra parece, de tão grande; então a água bateu na pedra, bateu e bateu por muito tempo ― imagina quanto tempo leva pra uma pedra daquele tamanho virar uma pedra pequenininha e depois de tão pequenininha ir se esfarelando até se tornar um grão de areia, tão pequenininho que nem pedra parece; tudo isso pela força do mar, pelas ondas que vão e vem sem parar sem um segundo de trégua. E isso acontece desde muito tempo e vai continuar acontecendo, até que tudo vire pó.

No topo de tudo, oferendas e sacrifícios, brilham as horas: 22:53. Estava eu como uma pedrinha bem assentada, que fica parada, quietinha, observando os pés, os kickflips, a garrafa de Skyy, o travesti, a bicicleta do Olafur, essa desordem, pequeno caos que se repete toda semana até que um chute faz a pedrinha rolar, pular, pegar velocidade e começa a descer a rua.

Meu celular toca, não é ela:

―Tiago, to indo pro Charm, meet me there. Falou. I hear them talk as I walk, yes I hear them talk. I hear they say: Expect the final blast!

Hoje as coisas serão diferentes, hoje tudo muda:

―Me vê uma, não. Duas cervejas!

A-ha, o destino me sorri e aí vem Iago, sem um sorriso, uma má vontade do caralho.

―Tiago. Ta feliz? ― sirvo-lhe um copo de cerveja, cerveja pois temos muitas coisas a fazer nesta noite. A primeira é arranjar alguma coisa a fazer. Mas antes disso: beber; e é isso que fazemos.

―Você e essa merda de lugar, não dá nem pra sentar. Você tem um cigarro aí? ― passo-lhe o maço ― Vamos terminar essa e vamos descer, não aguento esse bar.

Esse bar, esse bar que tantas alegrias já nos serviu em seus copos americanos, em seus pratos transparentes, em seu porão sufocante, em seu banheiro abarrotado. Opa, calma.

Silêncio. Com os olhos perscruto o público do Charm. Sempre uma nova leva da mesma coisa: gatinhas, engravatados que se demoram, rapazes de barba e camisa xadrez (nesse calor) e um casal chama minha atenção: ele chega, enorme, espichado, magrelo, desajeitado, barba preta desgrenhada, parece o Gonzaguinha, mas gay, curva-se para frente e beija os lábios de uma gordinha, aqueles braços brancos, enormes, dois pães Pullman, saindo um de cada manga da blusa, o horror, o horror. Gonzagay e Gordelixo, o casal perfeito: esses vão levar a humanidade longe.

O Charm não vai virar nada não nada mesmo puta que pariu será que vamos viver essa merda toda novamente? Não, hoje, não; não, nem agora.

Dali já se pode ver o enxame na esquina, meninas de meia-arrastão, moleques de bandana na cabeça, caras gays, minas gatinhas, tudo misturado, como se tivesse sido comido com muita, muita bebida e depois vomitado, sem controle, mirando a borda e acertando a rua.

E assim continuamos descendo, rolando rumo ao início do início do início de nossas vidas. Só promessas. Nesse meio tempo a gente bebe e faz merda. Nossos pais passaram por isso, eu me perguntava olhando pra sarjeta cheia de guimbas, latas e cacos de vidro. E se ela agora fosse a mãe dos meus filhos? É assim que a vida se desenrola, é assim que a vida se desenrolou para os meus pais e para os pais dos meus pais? Um vai-e-vem sem fim, tateando bêbados em meio a essa neblina de passado e presente e futuro como se tudo fosse agora, como se agora finalmente fossemos começar o começo do começo de nossas vidas e, num flash, tudo iria se cristalizar, se amalgamar e diríamos aos nossos filhos bem, foi isso assim que aconteceu, conheci sua mãe por puro acaso e depois de namorar nós nos casamos e ela cortaria dizendo que não foi bem assim, que você tinha aquela sua namorada, lembra, você tinha uma namorada quando nos conhecemos e eu também então nós nos conhecemos imaginem os dois namorando então depois de um tempinho despachamos os respectivos e começamos a namorar agora eu e o pai de vocês e essa história que passa como um detalhe, duas três palavras, um segundo entre os seus pais se conhecerem e começarem a namorar esse segundo, perdido na eternidade do tempo, é dividido em horas dias meses e principalmente em noites sujas como esta, esqueci de jantar e já to meio bêbado sem querer saber mais quem era a quem, esgueirando-me agora na esquina da Fernando Albuquerque, abaixando o olhar para não ver nem ser visto por nada nem ninguém pois ali vai um conhecido; ali alguém que estudou comigo na faculdade; ex-colega de trabalho; meu primeiro amor; um primo que não vejo faz tempo. E não vai ser hoje nem aqui que vou vê-lo.

Coloco um cigarro na boca de passo olhando os tênis ― Adidas, Nike, Vans, Converse, babaca de Croc ― na esperança de não ser reconhecido.

―Rafael! ― alguém diz e eu gelo. Não é comigo. Passa um cachorro. Obrigado, Deus, você é foda.

Na subida, lá está: o Aquário. Colo a cara no vidro e olho pra dentro. Vejo (e finjo ver) amores, novos e antigos, que passam por mim, acompanhadas ou fingindo não me ver. Todas fora do meu alcance. A menina com cara de brava da faculdade, a prima gatinha de uma amiga minha. Rodo os olhos procurando por ela.

―Merda.

Checo o celular. Nada. Atravesso a rua entre os carros e sento com Iago, que já pediu uma cerveja e tá fumando um dos meus cigarros. Filho da puta ficou com meu maço e ela que não liga?

Então vem como uma assombração, desliza por mim como se eu não existisse, olhando sempre pra frente. A pele como seda, o rosto fino, o corpo magro, ela passa, os peitinhos pequenos soltos na blusa, anda olhando obstinadamente para frente (para frente! Para frente!), para além, as sobrancelhas grossas, o cabelo preto. Discuti com o Autor os pormenores e não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-la de perfeita.

―Dá essa merda de isqueiro.

Acendo o cigarro e fico a observá-la subindo a rua, os passos decididos de quem tem algum lugar pra ir e alguém pra encontrar. Me deixa lá humilhado. Maquino frases na cabeça e acho melhor anotar para não esquecer. Saco o celular ― nada ― e anoto: “Encontro novos e velhos possíveis amores que passam por mim como se eu não existisse”.

Checo as mensagens. Nada. Estou ficando louco.

À procura
giro meus olhos
pela rua

Olho pra trás e ela está lá, debaixo do guarda-sol, lendo um livro, o celular no colo. Deito a cabeça na areia, meio bêbado, o centro do universo são estes meus dois olhos, ao redor dos quais giram todo o mundo, a areia, as montanhas, o ar; o mar é uma linha no horizonte oscilando de um lado pro outro. Que horas são? O molequinho vem avisar que é meio-dia, sabe pela sombra. Maluco, você é esperto demais!

―Aprendi na escolinha! É hora do almoço.

Sim, as sombras; e sim, nós vamos pra casa.

Sim, se sim, vamos. Se não, ficamos aqui.

―E aí, vamo? ― estendo a mão.

―Vamos! ― ela fecha o livro, põe-se em pé e me dá um beijo.

Rasgar aquele livro no meio, arrebentar o celular no asfalto, mas, não, mantenho os bons modos.

― Você tá bêbado, num tá?

―To bêbado.

―Eu to meio alegrinho não vou ser hipócrita.

―Eu to puto.

―Por quê?

―São vários motivos. Porque a porra da minha namorada foi pra praia com a “galera do colégio” (usei aspas aqui) e porque a merda da Rita (Rita é o nome dela) não me liga, mano. Não liga!

―Rita, Rita é a mina que você foi almoçar outro dia? Você pegou ou não pegou essa mina afinal?

―Eu, pegar mina? Prefiro morrér a pegar uma mina de primeira.

―É verdade, você tem certas idiossincrasias que coincidem com aquele comportamento muitas vezes classificado como homossexual.

(Ele fez um itálico, juro) (E continua:)

―Mas caralho, vocês não tinham ido à praia semana passada?

―Isso, isso aí. E agora ela foi com os amigos dela. É tudo que um namorado quer.

―Você não queria terminar?

―OK, isso também. Mas essa não é a questão cara-

―Qual a questão?

―A questão é quem saca primeiro. Isso aqui é o faroeste, cara – ou “far west”, como diriam nossos antepassados-

―Os antepassados deles, você quer dizer.

―Deles, nossos, isso. O negócio é matar ou morrer.

―E você quer matar sua mina?

―De desgosto, preferivelmente ― peguei o copo e dei um gole; não tinha nada ― Vê-me mais uma Brahma, amigo. – pro Iago agora – “Vê-me”, li isso num escritor uruguaio e sempre quis usar.

―Escritor uruguaio? Quem?

Fiz gestos vagos, desenhando círculos com os dedos. Vai se foder.

―Você não conhece ― chegou a cerveja ― Obrigado, amigo.

Algaravia, barulho, saias, triste Bahia transbordando do outro lado da Augusta. O vento confuso sopra em todas as direções, contra as paredes dos prédios, contra os carros na rua, contra si mesmo.

Tiago, ele olha com desdém, já nem se importa mais Vou fazer uma lista; amigo, tem papel e um lápis pra emprestar? Opa, brigado. Aqui, vejamos, sopesemos [com afetação]. Minha mina, Rita. Minha mina, a vantagem dela é que ela é bonitinha, não? Sim, gracinha, impressionante ela estar com você todo esse tempo. Duvido que você vá arranjar coisa melhor. OK, gracinha, [anoto] e loirinha também, né? Tem esse fetiche [anoto]. Você anotaria se ela fosse negra? Sim, claro, é um fetiche, tudo é fetiche. Se tudo é fetiche então nada é fetiche. É, sei lá, foda-se; Rita, Rita é uma gracinha também [anoto] e moreninha [anoto]. Difícil ver aonde você quer chegar. Eu quero chegar, é, OK, não faz muito sentido ainda, vamos às diferenças que realmente importam: minha mina tem uma bundinha pequenininha [anoto], enquanto Rita tem uma bunda maior, mais preza [anoto]. Você não disse que ela tinha uma “bundinha”? foi essa palavra que você usou. Porra, acredita que eu não lembro? Faz tempo que não a vejo, estou ficando louco, não consigo me recordar dela direito, tenho apenas impressões. Não me lembro se ela tem peitos grandes ou pequenos, lembro que vidrei nas pernas dela, nas coxas, a bunda eu adorei – isso eu nunca senti pela minha mina – certeza é que a Rita é mais fornida que ela. Não é você que ama minas magrelas? São os mistérios do coração. Magrelinha / Fornida [anoto]. Isso não está ficando muito bom. Ele nem se dá ao trabalho de comentar. Vai, então, predicados intelectuais: mina mina fala um ótimo inglês [anoto], mas a Rita fala francês; pelo menos eu acho. Como você acha? Ela disse Camus do jeito mais lindo. Camus, ele diz, numa pronúncia afetada, claramente tentando estragar minha recordação. Não, foi bem melhor que isso, você não sabe francês. Nem você! Mas a Rita sabe, ponto pra ela [anoto]. Minha mina não é muito boa pra interpretar as coisas; ela não entendeu “A Invenção de Morel”, veio me perguntar se ele tava vivo ou morto, credita? Ah, mas isso é discutível. Você sempre defende essas más interpretações! Só porque te deram esse nome desgraçado você acha que tudo tem dois lados; interpreta mal os textos [anoto]. E a Rita, interpreta bem? Não sei. Se bem que ela comentou do Mia Couto. Sua mina também lê Mia Couto. Lê, lê, que merda, bom, nem tudo é perfeito. Vamos ficar com o que temos, repassando:

Minha mina               Rita
gracinha                    gracinha
loirinha                      moreninha
bundinha                   mais preza
magrelinha                fornida
good english             french girl
interpreta mal           no ló sé
Mia Couto                  Mia Couto

Adiciono (Camus) à lista da Rita.

―É, acho que isso não ajudou muito.

―Você não larga desse celular, hein?

―Que tem? Não posso deixar no chão, a areia vai riscar a tela ― ela pára, pensa e volta, com raiva ―E que tem eu ficar com o celular? Você implica com tudo que eu faço! Se não ando com celular, reclama que eu não atendo. Se fico com ele na mão, reclama que eu não largo dele. Que saco!

―Não sei, só que você vive nesse celular. Nem dá bola pra mim.

―Você tava brincando com ele! Eu tava lendo! ― ela enfatiza as frases com uma raiva cada vez mais desesperada; seus olhos se enchem de lágrimas ― Não posso fazer nada que você reclama!

Fico de pau duro.

―Tá, calma, desculpa. Não fica triste, to só enchendo o saco.

Ela passa a mão nos olhos, me abraça e diz:

―Tá, mas não fala assim, eu não gosto.

―OK, desculpa.

O cara é branco e tem olhos azuis. Podem me chamar de racista, mas eu esperava mais de um moçambicano. Sem contar que fico enjoado de vê-lo vomitar esses trocadilhos babacas. O filho da puta é um Humberto Gessinger em texto corrido.

Como ela consegue ler essa merda? Como ela consegue ler essa merda tranquilamente, sem olhares furtivos, sem suar as mãos, sem tentar esconder o celular, sem o medo de ser pega no flagra, sem ter de se controlar cada segundo pra esconder sua secreta traição.

Como ela consegue? Seu cabelo agora parece explodir por todos os lados, como o sol que se reflete no mar e tinge tudo de dourado. O dia se encaminha para um fim.

Ainda agora vejo-a como da primeira vez, com os cabelos pelos ombros,  os óculos (por que você abandonou os óculos?), você chamou Faulkner de Falklands. Somos jovens, estamos aprendendo.

Largo-me na areia e observo o azul do céu. O vento sopra e as nuvens se movem cada vez mais rapidamente em revoluções que fazem meu coração acelerar. Logo o tempo fecha e tudo vira sombras.

O que te fez fazer me fazer isso com você?

Firme que nem um prego na areia. Triste São Paulo, já cansei de você, precisamos fazer alguma coisa a respeito. Giro meu celular na mesa molhada; ainda tem cerveja; 25 anos pelo ralo.

―Foda é ficar sozinho.

―Se o problema é companhia, compra um cachorro.

―Que cachorro, odeio cachorro! Cachorro. Um cachorro agora só pioraria as coisas… fazer o que da vida… cara… meu irmão, mano.

―Seu irmão o quê?

―Meu irmão, ele é mais novo que eu, tem emprego, mulher, filho. Ele comprou um carro! Comprou! Com dinheiro! Eu não tenho nada; cada vez menos, aliás. Sou uma criança perto dele.

―Porra, mas… emprego você também tem.

―Eu tenho! E é uma merda! Cacete, outro dia, mano: pessoal queria saber se a Argentina fazia parte da América Latina! – mudando de tom, agora mais sombrio – Se o Japão era da Oceania. Oceania! Meu chefe disse que era da Oceania! – melancólico – Eu preciso sair dessa porra, cara – triunfante – Preciso mostrar o meu melhor!

―Tipo bater punheta na varanda.

―Isso foi uma vez e eu falei que tava calor e eram sei lá duas da manhã não tinha ninguém acordado… ó, vai se foder.

Rimos um pouco, mas sem muita convicção; os olhos embotados, vendo o fundo do copo pensei que vida ridícula essa afinal. Meus pais, eu pensei, meu pais viveram essa merda, meu pai batia punheta na varanda.

Nossa, não, Rafael.

―E essa mina-

―A Rita, Rita é o nome dela.

―Ela tem namorado?

―Claro, óbvio; vamos fumar um cigarro.

―Você tá fumão hoje, hein. Sabe o que Freud diria sobre isso…

―Sei, que somos chupadores de pinto; pega essa merda ― passo-lhe o maço.

Você não sabe, você não sabe o ciúme que eu sinto daquela merda de celular. Aquele toque – é um toque padrão trinininim ― faz subir um calafrio pela minha espinha e eu começo a rodar na cabeça a cara de todos os filhos das putas que ela conhece, um por um, quem será quem será. Você acha que ela faria alguma coisa, mano? Você acha que ela seria filha da puta dessa forma? Eu acho que, geralmente, não; mas como eu ando só fazendo merda ― faz uns dois meses que eu mordo a bunda dela pensando na bunda da Rita, ah, Ritinha, meu amor, andando na ponta dos pés, as batatas da perna na calça leggin, as coxas se insinuando pelo vestido, aquela malícia mostrando a boca entreaberta num sorriso sem vergonha, ela tem namorado, ela tem namorado, sabia? Ela me manda mensagens e ela tem namorado.

―A ironia da vida é foda ― ele fala com a voz cheia de fumaça ― Mas então vocês trocam mensagens? Que filho da puta que você é.

―Filha da puta é essa mina, que acabou com a minha vida.

―Que tipo de mensagens?

―O tipo de mensagem que eu tenho que apagar. Se ver ela me mata. Pior que pego a porra do celular dela e não tem nada, cara, nada de suspeito! Nada, nunca! Filha da puta! Nem email, Facebook, bosta nenhuma! Fico puto! Certeza, cara.

―Certeza o quê?

―Que ela tá escondendo alguma coisa.

―Mas ela não tem nada! – ele diz, esticando os ombros.

Você tenta encobertar alguém? Ele faria isso? Não, não, estou bêbado.

―Exatamente. É muito suspeito não ter nada suspeito.

―Isso não faz sentido.

De que lado você está?

―Claro que faz! Eu não tenho nada suspeito. Eu! Eu só faço merda! Não sei até que ponto ela é tão esperta quanto eu. Não deve ser. Ninguém é melhor que eu-

Ele ri.

―Ninguém é melhor que eu nessas merdas. Em ser um filho da puta profissional. Logo, eu deveria ter encontrado alguma coisa, ela deveria ter pisado fora da linha já! Não há nada mais suspeito que estar acima de qualquer suspeita.

Meus olhos se nublaram, entrei no mar e larguei meu corpo à deriva. Pelas lentes dos óculos o céu parecia mais escuro. Pensava esses pensamentos óbvios. Fechei os olhos, indo de lá pra cá no oceano Atlântico, ao gosto do vendo e das ondas, a chuva que não para em São Bernardo, o céu se avolumando, revoluções e trovões, as árvores perto da linha do trem tremendo como vassouras, a molecada correndo desesperada na rua de paralelepípedo, na calçada arrebentada, os pés descalços, eu alheio a tudo, sem camisa, trocando olhares com a namorada do meu primo; o apito anuncia a chegada do trem; garrafas de vinho e latas de cerveja; a grande máquina faz a curva e surge entre as cercas de bambu e arame farpado; ela tem aquela beleza, justamente aquela, os olhos pretos, sobrancelha grossa, o rosto fino, corpo magro e esbelto; e é namorada do meu primo; o trem apita e passa fazendo um estardalhaço;
entre um vagão e outro
eu a vejo
movendo os lábios
trilhos e dormentes
dizendo alguma coisa

Eu me aproximo, insidioso, cheio de más intenções:

―Há quanto tempo vocês namoram?

Ela não diz nada.

Eu abro a boca, mas não falo nada.

―Pois é isso: não há certo ou errado: apenas convenções. Você decide o que você acha melhor, o que você consegue conciliar, aguentar (manter uma traição, por exemplo) e levar até o fim. E lembre-se: você não deve nunca contar isso pra sua mina. Você toma suas decisões e, por mais estúpidas que sejam, deve abraçá-las até o inferno, levá-las às últimas consequências! Se isso significa levar um tapa na cara, um murro, que seja: você deve se ater às suas convicções. O importante é ser decidido, não revelar seus segredos e queimar até o fogo se apagar.

―Você acha isso mesmo?

―Não sei, estou só falando frases de efeito [bate o copo na mesa]. Eu nem penso, elas não querem dizer nada. Na verdade, frases de efeito não precisam fazer sentido, elas têm que fazer o homem agir! O homem nasceu para agir, mas algo (a civilização, o contrato social, talvez) o impede de ser implacável. E as frases de efeito servem pra isso: agir! Tudo que você precisa é uma boa sintaxe e cuidado na escolha das palavras. As melhores são as pouco usuais, mas sempre misturadas às mais básicas, fundamentais, como chão, fogo, força, história, homem. Aí você parece fugir do supérfluo e evocar uma verdade ulterior do homem, que o faça acreditar em alguma coisa (que já acredite, talvez) e se mover em direção a essa coisa. [Ele faz uma pausa, está bêbado e supereloquente] “Ulterior”, por exemplo. Nem sei o que significa.

―Só preciso achar um jeito…

―Não há coisa melhor que a derrota, cara.

―E a derrota?

―A derrota é uma merda mesmo ― ele diz, enxugando a gordura dos lábios.

―Eu não vou aguentar essa porra ― jogo o resto do lanche no prato.

―Mas e a Luiza, mano? Nunca teve vontade de pegar outra mina, sei lá?

―Você se decide e vai, mano. Posso querer pegar, e posso pegar inclusive, mas não falo nada, não digo nada. Tudo passa, Luiza fica.

Ele se vira, serve-se de um cigarro e me joga o maço.

―Isso é seu ― acende e me joga o isqueiro ― Vamos fazer três anos essa semana e ela me acha ridículo por ficar contando o tempo.

Funde-se e desaparece na luz laranja do amanhecer.

Através da neblina as coisas ganham a incerteza e a melancolia dos sonhos. Através da neblina de coisas irreais vejo o Viadutos, volto os olhos pras ruas que se emaranham, atravesso a rua na faixa e subo a Martins Fontes e então a Augusta e é a pior Augusta de todos os tempos agora que ascendo, cada vez mais claro as impressões vão se desfazendo em certezas, homens andando feito zumbis, enrolados em trapos, deitados no chão e o lixo, o lixo, o lixo. A grande onda veio, desceu da Paulista e varreu tudo e todos, desde o Charm até o Estadão, e a marca da água está lá na parede e como as margens de um rio passada a cheia estão copos, garrafas, cigarros e cacos de vidro, na sarjeta e calçada e o sol das oito da manhã agora queima as costas e eu devia ter trazido meus óculos escuros, eu não sou nada à luz do sol sem meus óculos escuros. Essas pessoas estão bebendo desde ontem ou começaram agora. São oito ou onze da manhã. Não dá pra dizer. Sofro enquanto atravesso as ruas perpendiculares sentido Paulista, metrô Consolação.

Saio enrolado na toalha, sento-me na beirada da cama e ela me abraça por trás, passa envolve meu corpo, enfia a mão por debaixo da toalha, agarra o meu pau, que fica cada vez mais duro. Escorrega a cabeça por debaixo do meu braço e, quase contra minha vontade, beija, lambe e abocanha minha rola. Num movimento ritmado vai acariciando e lambendo, aquela sua língua quente na cabeça do meu pau, ela o tira da boca com um estalo, chupa meu saco de olhos fechados enquanto bate uma punheta, em cima da cômoda o meu celular pisca: alguém me ligou enquanto estava no banheiro, ela provavelmente percebeu, ela viu, ela sabe, ela sobe lambendo cada centímetro e engole a cabeça novamente, me faz levantar os braços e, sem tirar o pau da boca, desce da cama engatinhando até ficar de joelhos no chão. Aí ela chupa, mexe e engole minha pica, o celular piscando, forço sua cabeça pra baixo com uma mão enquanto com a outra pego o telefone: chamada perdida: Rita. Ah, a vida. Gozo na sua garganta e ela engole toda minha porra.

1 Comment

Filed under Bunda, Capitalismo, Crise!, Maluco chato, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis, TL;DR

One response to “Monopólio do mal

  1. Fefe

    Frase de efeito, Mia Couto, Charm, Freud… you got me!

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