Te faz mal e você tem que parar

O sino dobrou uma vez:

―Rafael.

And then twice.

―Rafael.

Went full screen e a internet não deu conta, travou e eu me vi no espelho do monitor.

And a third time:

―Rafael!

Não vou olhar.

Alguém me deu um tapinha no ombro e apontou pra trás com o polegar.

Tirei os fones de ouvido e fui até a sua mesa. Girava nervosamente a caneta, fechei um botão da camisa pra proteger o pescoço.

―Senta aí ― ele indicou a cadeira batendo a caneta na mesa ― Rafael, você terminou aquele trabalho sobre Angola?

―Sim. Te mandei por email. Você respondeu, inclusive.

―Sim, é verdade ― aprumou-se na cadeira, agarrou o mouse e clicou no desktop; não era praquilo que tinha me chamado. Ele quer saber por que eu to bêbado. Mas ele não pode provar nada, fazer uma pergunta dessas implicaria numa acusação grave demais. Eu estou sempre um paço à frente. Passo.

―Rafael ― ele não para de dizer meu nome ― Você parece desmotivado nas últimas semanas.

Ele é um filho da puta mesmo, não pode fazer nada e vai jogar pelas regras do jogo, fingindo ser meu amigo. Filho da puta. Se não fosse filho da puta não seria chefe. Mentira, ele é um cara legal até, apesar de gostar mais da empresa do que dos próprios filhos. Ele também ama a secretária mais do que a esposa.

Três vezes por semana.

17:35 na tela dele. Daqui uma hora e vintecinco minutos acaba o expediente ― sem contar que das 18h às 19h é a hora do jácabô e eu não faço nada além de cantar “tá chegando a hora” no chat do Facebook com o João, o que nos protege de trabalhar. Vinte e cinco minutos pro fim do expediente e eu não fiz nada a tarde toda, exceto por um email proustiano pra mim mesmo sobre bundinhas. Se ele joga pelas regras eu também jogo. Força, Rafael!

―Estou com uns problemas pessoais ― agora quem se apruma na cadeira sou eu, cruzo as pernas, os braços, com a mão toco minha têmpora esquerda, muito, muito dramático. Ele não pode fazer nada. Prossigo com a farsa ou já garanto os três pontos?

Escolho o caminho errado.

―Não é nada demais, é a minha namorada ― digo sem que ele tenha perguntado nada.

Merda, caguei. Estou falando demais.

Ele solta um suspiro, puxa a caneta. É agora, ele vai me fazer uma traqueostomia que eu sei.

―Rafael, você é um dos melhores funcionários da seção ― evidentemente isso não é um elogio, ele tem consciência de que a empresa contrata muito mal; esse RH é uma bosta, só vale pelas bundinhas; ah, tudo vale a pena pelas bundinhas ― Precisamos de você bem. Você precisa deixar os problemas pessoais fora da empresa.

―Beleza.

Ele não sabe o que responder; destruí o papo. Eu me seguro pra não rir. Consegui manter meu emprego.

Ele não pode fazer nada.

Ele não quer é pagar a recisão, esse filho da puta! Como se viesse do bolso dele, e não dum PSDBista bundudo perfumado.

―OK, Rafael ― que mania de falar meu nome, deve ter aprendido essa numa palestra de gestão de pessoas ― Volte ao trabalho. Qualquer problema pode vir conversar comigo, está bem?

―Beleza.

Levanto-me e saio direto pro banheiro. Antes de entrar no corredor ainda olho pra trás e tá lá meu monitor, bonito, telacheia do YouTube, o menino arrebentando, dá pra ouvir a gaita daqui. A TI se fodeu liberando essas merdas pra gente.

Vomito ou não vomito, pregunto encarando a privada. Já mijei, já dei descarga, mas não consigo me decidir se me ajoelho ou não pra vomitar. A preguiça de voltar pra minha mesa e enrolar é maior, então apoio as mãos nos joelhos e busco inspiração nos detritos de outras pessoas que a faxineira não foi capaz de eliminar. Meus olhos quase saltam das órbitas. Os azulejos do chão se levantam como cartas de baralho sopradas pelo vento.

Cansei da vida.

Vomito profusamente meu almoço: cerveja e azeitonas. O que me deu de comer tantazeitona? Limpo a boca com papel higiênico ― chega de falar merda por hoje. Solto uma risadinha pela piada e alguém bate na porta da cabine, é a polícia moral, proibido se divertir no emprego.

―Tá tudo bem aí?

-To bem.

Um caroço de azeitona repousa calmamente nas profundezas do meu lago de cerveja e suco gástrico.

Volto pra sala direto pro meu chefe:

―Podemos conversar rapidinho?

―Claro, Rafael. Diga.

―Quero me demitir. O que eu faço pra me demitir?

―Agora? ― ele foi pego de surpresa, mas está feliz ― Bom, você tem certeza? Você sabe que nós contamos com você.

Nós, nós, nós. Merda nenhuma de nós! Estou sozinho nessa merda!

―Certeza. Ando cansado, aborrecido, preciso fazer isso.

―OK ― no more Rafael for me ― Até quando você pode ficar com a gente?

Olho pro monitor dele:

―Até as 19h.

Acho que ele esperava uma semana ou coisa assim. Hoje, amanhã, depois de amanhã, tanto faz.

―OK, vou ligar pro RH e adiantar as coisas.

Volto pra minha mesa e tem mensagem do João no Facebook:

aaaaai aaai ai ai
taaa chegaaando a hora
o dia já vem
raiando meu bem

Vomitei agora

rs

Pedi demissão também

kk serio

Sério

fica ate quando

Até as 19h. Vamo tomar uma??

opa demoro

Agora é ouvir música e ver GIFs até a hora de bater o ponto e adeus, so long, até nunca mais, emprego.

Meu celular ali deitado na mesa, contando ele mesmo as horas que nos separam da liberdade. Ele também tem esperado um bom tempo. Ele também quer se divertir. Ele também deu uma melhorada depois de vomitar. Ele também beberia mais hoje. Não beberia mais hoje? Mas beber a bebida que só uma mulher pode proporcionar. Água na boca.

Levanto e chuto a cadeira do João. Tá vendo um GIF de galinha, o vagabundo…

―Então mano, aquela cerveja: miou. Vou sair, sair com uma mina ― to falando demais; ele tem a Sara no Facebook, olho seus contatos online, ela não está lá; pior que se estivesse; offline: o que os olhos não veem, meu coração sente; to paranoico; vacilo ― Não conta pra Sara, não conta pra ninguém.

―Take it easy.

―Bom, preciso correr.

―Corra ― ele diz, colocando um cigarro na boca (dois minutos pra bater o ponto, os funcionários são ótimos) ― e se precisar pular, você pula.

O Iago mora muito bem obrigado pois mora numa edícula nessa casa enorme bancada pelo senhor seu pai, engenheiro respeitado pelos seus avanços na manutenção da ordem vigente. Um verdadeiro visionário après la lettre. Talvez suas únicas qualidade sejam o uíque e o cigarro, que promove e protege como verdadeiros bens nacionais, com a mesma paixão com que defende o PSDB (vota no Serra de 2 em 2 anos) e o porte de armas (tem uma PT na gaveta do criado-mudo).

Estico a mão escangalhada e aperto a campainha. Ao contrário do filho, a mãe do Iago gosta de mim. Tiro até os óculos em respeito.

―Oi, Rafael! Nossa, o que aconteceu com a sua mão?

Levanto aquele rolo porco de gaze e sangue pisado, digo que não foi nada, só um cortezinho. Posso tomar uma água, pregunto descolando a camiseta suada do corpo.

Meu reino por um copo d’água, que quase morri do metrô praqui.

Sigo os degraus que levam à maravilhosa edícula de Iago, que está no banho. Só de entrar eu já quero fumar um cigarro. O prazer de fumar indoor só é superado pelo prazer de beber dirigindo. Que, por sua vez… deixa pra lá.

E eu tenho o apoio da oposição, já que desde que “aquela bicha do Kassab proibiu o cigarro”, o pai do Iago incentiva o fumo entre as visitas, deixando sempre dois maços de Marlboro (vermelho e light) casualmente jogados sobre a mesa de centro, ao lado do cinzeiro heráldico e do isqueiro (em forma de pistola). Aqui é clic, clac, bum!

Preserve a sua glória.

Acendo um careta mas saio pra varanda. Iago tem uma formidável varanda: um banco de madeira que dá de frente prum muro de uns 4 metros, obra do vizinho insensível que subiu as costas do sobrado dele nos limites legais da propriedade. Ele reclama, eu já acho simpático. E, além do mais, o cara tá no direito dele, né. Sensibilidade é subjetiva, as leis são objetivas. Vamos nos ater ao aqui e ao agora.

Sentado de cara pro muro vejo as linhas que avançam, ora mais rápidas, ora parecendo que vão parar. Inexoráveis porém, elas nunca param. Vão consumindo todo o tecido possível, comendo tudo que eu e a Sara vivemos nesses últimos cinco anos, elas limpam toda a culpa e toda a memória, lavam as alegrias e as dores. Tudo se torna pálido, indiferente. O movimento do esquecimento é implacável, dilui o tempo e as ações. Rumo à devastação total de todas as coisas, não perdoa nada. É frenético o ritmo da erosão, da inércia, do desgaste, da degeneração, da falência. Da combustão. As linhas queimam alaranjadas, descendo coordenadamente como uma auréola diabólica pelo lápis de cinzas que levo entre os dedos e então elas mordem!

No susto derrubei a guimba na barriga. Bato as mãos pra limpar a sujeira. Porra, fiz um buraco na minha camiseta do Bob Dylan.

Agarro o filtro e dou-lhe um piparote que o faz voar até o outro lado do muro (já sou especialista nesse arremesso).

―Vai tomar no cu cigarro do caralho.

Iago entra.

―E aí, mano.

-E aí.

―Li os textos. Fiz uns comentários.

Sigo-o para dentro do quarto. Ele é um grande filho da puta, imprimiu todos meus textos só pra poder me humilhar em papel. Senta-se na cadeira e me dá as costas como se fosse um professor.

―Queimei a porra da minha camiseta. Culpa do seu muro aí.

Ele se vira, olha pra minha camiseta, olha pra mim, volta pra escrivaninha e pregunta, sem interesse:

―Quem é?

Puta que pariu, quem é.

―É o David Bowie.

―O Bowie? ― ele diz “báui”, pra me desagradar que eu sei ― Pensei que ele fosse diferente.

―Ele é o camaleão, mano. Mas e aí, leu o textos?

―Li. Boa parte é lixo ― fecho os olhos e balanço pesarosamente a cabeça. Cagada mandar os textos pra ele, dar confiança presse filho da puta ― Algumas coisas se salvam. Você tem um estilo, mas ele é muito difuso. Você usa muito o gerúndio. Toda hora. Parece que traduziu do inglês umas partes. Olha isso ― ele puxa uma folha e lê ― “Mas você nasceu pra perder, não foi? Nasceu pra fracassar. Essa hora é a sua única hora”. Isso é inglês, carai! ― ele recita, improvisando um inglês ensaiado; deve bater punheta pensando em me foder ― “But you’re Born to lose, weren’t you? Born to fail. This hour is your only hour”.

Já estou com a mão na testa. Não vale a pena dar ideia presses tipo aí.

―Você acha que eu escrevi em inglês depois traduzi, é isso?

―O que você fez na mão?

―Machuquei numa garrafa, tava bebaço.

Estendo a mão, ele examina como se soubesse de alguma coisa, assim como fez com meus textos. Abre o curativo e vê aquela massa de sangue coagulado e carne cindida.

―Você lavou isso aí?

―Esterilizei.

―O texto é complexo até certo ponto, não sei se seu inglês daria conta. Mas as construções que você usa são da língua inglesa, isso é evidente. Eu digo que você escreve de certa forma… colonizada. Todas suas referências são inglesas, americanas.

―E você quer que eu faça o quê? Que cite Eça de Queiroz.

-Eça era português.

―Eça eu não sabia ― admito.

Pega um cigarro do meu maço, acende e diz, cruzando as pernas entre a fumaça:

―Os ventos do Norte não movem moinhos.

―Ah. Você quer que eu escreva sobre o Saci Pererê?

―Não, mas algo original, autêntico, nacional.

―Vou… vou escrever sobre um tatu-bola passeando no jardim.

―É uma boa ideia.

―É um plágio, isso sim.

―E olha esse títulos ― muda de assunto, perdendo a compostura e se debruçando sobre meus papéis; começa a recitar, com desdém ― “The freewheelin’ Rafael Z”, “Rafael runs the voodoo down”. Além de usar muitos títulos em inglês, que não querem dizer nada, você tem uma certa fixação por si mesmo.

―Egolatria.

―Não ― ele afasta a ideia junto com a fumaça ― é pior que isso. Você tem umas manias. E uns erros crônicos. Olha aqui: toda hora escreve “tramquilo”, “pregunta”, “uíque”. Tem que prestar atenção…

―Não são erros… ― murmuro.

―E que mais? ― ele ignora ― Ah, os trocadilhos! Melhor desistir dos trocadilhos. Olha esse verso ― levanta-se e limpa a garganta, declamando bem alto ― “Estou cheio até a garganta/ mas o vazio nada preenche/ sinto uma azia na Augusta/ sinto uma angústia”. Cara, isso é muito ruim! E eu já falei pra você parar de comer naquele restaurante chin-

―Japonês.

―Japonês? Com comida quente?

―Japonês também come comida quente.

―Enfim, que seja. Chinês, japonês, indiano, o fato é que te faz mal, você tem que parar.

―Bom, dá uma olhada aí ― ele me entrega umas vinte páginas de textos meus, todas canetadas em vermelho ― Tem alguns bons momentos, apesar de tudo. Vou pegar uma cerveja pra gente.

Agradeço entre os dentes e mordo o cigarro que pula do maço. Sento na varanda e vou folheando os textos enquanto fumo. Boa coisa que Iago não sabe absolutamente nada sobre Bob Dylan. Elogia todas as citações que faço.

Puxa uma flecha e escreve “Grande frase” (Visions of Johanna); “Boa sacada” (Subterranean Homesick Blues); “Ótimo” (It’s All Over Now, Baby Blue); a lista continua, Spanish Harlem Incidente, Isis, I’ll Be Your Baby Tonight ao vivo, Day of the Locust etc.

Ele chega a ter um olho clínico, já que elogia todas as frases do Bob Dylan.

Nossa, graças a Deus ele não conhece Bob Dylan.

Nossa, graças a Deus ele voltou com a cerveja.

―Viu? Pela leitura que fiz não acho que seja a hora de você largar seu emprego.

―Larguei o trampo ontem, pedi demissão ― abro a tampinha no antebraço e dou um gole ― Ou você acha que eu to trabalhando agora, aqui, plena sexta-feira na sua casa, de óculos escuros bermuda e chinelo?

Ele balança a cabeça; compreende tudo, o Tiago.

―É verdade. Não tinha percebido. É que esse horário flexível meu às vezes me faz perder noção do tempo.

Ele diz horário flexível, eu digo vagabundo.

―É. Pedi as contas.

―Tem alguma coisa em mente? ― ele me oferece um cigarro meu.

Olho por baixo das sobrancelhas:

―Já to fumando, caralho… E eu ter algo em mente? Tenho merda nenhuma. Ou você acha que se tivesse eu viria pra cá? Vou deixar o ano virar. 2012 eu vejo.

―Torcendo pro mundo acabar, né?

―Vamos ver quem acaba primeiro…

―Típico de você ― teatral ― Eu, infelizmente, não poderei lhe acompanhar e assessorar nessas suas férias forçadas. Dia 23 pego um avião e vou pra Banda Oriental. Pode ser bom pra minha tese.

―Montevidéu?

―Punta del Este, mas acho que vou passar en Montevideo ― diz com afetação.

―Punta vai ser boa pra sua tese, é isso? Ouvi dizer que as praias são muito boas, sem contar os cassinos. E tem aquela escultura da mão também, claro.

―Fiz uns contatos en Montevideo.

Claro que fez, digitou “Uruguai” no Google.

―Talvez dê uma esticada pra Buenos Aires, visitar a Bib-

―Então a Luiza tá solteira a partir do dia… 23, é isso? Quando você volta?

―Volto dia 2 ― ele sorri ― E até lá quem tá solteiro sou eu, isso sim.

Sim, mil minas.

―Pega mais uma pra nóis lá, faz favor.

Será que ele trai a Luiza? Não deveria, é uma gatinha. Eu mesmo tenho mil motivos pra trair a Sara e nunca traí ― é… nunca. Acho mancada com a Luiza. Ela parece ser boazinha. Conheço pouco, na verdade. É uma gracinha, tem os ombros ossudinhos assim. Vi algumas vezes só, na verdade. Tenho curiosidade de vê-la pelada. Uma vez eu a encoxei. E ela gostou.

Ele volta com a cerveja, decidimos nadar, aproveitar antes que o sol se acabe.

―Mempresta uma bermuda aí.

Repouso o cigarro nas minhas Havaianas encardidas, coloco a cerveja no chão, tiro a camiseta por cima dos óculos, estico bem os braços, pra um lado, pro outro.

Dou uma longa tragada, bato as cinzas e mordo o cigarro. Uma água vai me fazer bem. Vou correndo e pulo.

―Mrd ― braço pra cima salvo a mão enfaixada, mas a cabeça dentro dágua tssss.

Passei em casa pra pegar o carro, achei que seria mais romântico (quem sabe um bolinha).

It’s been a long, long time comin’

O farol abriu, mas esqueci de pôr o carro em marcha.

Estacionei na Luis Coelho e surpreendi a Rita pelas costas na esquina da Antonio Carlos com a Augusta toquei-lhe as costelas ela se virou e me deu um abraço fiquei com medo de encontrar algum conhecido na Augusta. Era medo, vergonha, covardia, o básico. Firmão, que nem um prego na areia. Desviei o caminho na Matias pra pegar a Frei Caneca, o que na prática dava na mesma. Na esquina tive certeza de ver uma amiga da Sara sentada no bar, dois copos, bolsa no ombro da cadeira vazia. Baixei os olhos, vamos, acelerei o passo, não olhei uma segunda vez pra me certificar. Me olhavam as sombras, os carros, as janelas dos prédios. Arrastando a Rita, que falava sozinha desde que nos encontramos:

―Ela disse “Ringo”, você acredita? Ringo!

―Ringo é uma merda, você ta mal de amigos, pare de andar com ela; escuta: você tem cigarro aí?

Não, ela disse, com um sorriso lindo, deixando entrever os dentes bonitos, os lábios, seus lábios, ela queria falar mais. Fecha a matraca e deixa o homem pensar: OK, vê se paga pra entrar que eu vou buscar ali no bar. Desci pela rua, contornando o mar de gente que se formava na esquina e, aqui no canto do meu olho direito brilhou parado no farol o carro conhecido, aquele Ka vermelho sujo. Um cara ao volante, a barba loira. É? Corri pro meio dos gays que se aglomeravam bebendo em pé, pulei atrás dum cara. Fiquei quase agachado tentando ver quem era o maluco do carro. Conheço esse mal-

―Tá fugindo, amiga?

―Escondendo da minha namorada.

―Ah, já fiz muito isso, logo passa.

O farol abriu e quando a ameaça tinha já cruzado a rua eu me despedi dos senhores, entrei no bar e comprei um maço de Marlboro Light. Voltei e entramos. Pedimos uma cerveja e sentamos aos pés da “Noite estrelada”, versão Albert Richards. Brindamos:

―A mim ― eu disse entre os dentes, ela não ouviu.

Bebemos em silêncio, eu não conseguia dar atenção pra Rita. Caralho, larguei o emprego e ninguém sabe. Nem a Sara, nem meus pais. Precisava tirar aquilo de mim.

Uma cerveja pra ajudar.

Ela estava usando saia jeans de um azul frio e blusa branca de alcinha que deixava as costas à mostra. Ela não sabe que eu não gosto de saia jeans? De qualquer forma era curta o bastante para que eu filmasse cada pelinho das suas coxas, subindo o olhar acompanhando os tendões, os músculos das pernas quando ela se ajeitava na cadeira cruzando as pernas, depois descendo de volta, o joelhinho, as canelas e os tornozelos (ah, os tornozelos) até a sandália de tiras de couro, os pezinhos e as unhas pintadas, cinzas. Ela não sabe que eu não gosto de unhas pintadas? Mas OK, abro uma exceção. O sutiã era de bojo, a alça era lilás com debruns pretos. Ela se vestiu pra me ver, eu sei; mas vou confirmar. Falei que era mais fácil pedir direto no balcão. Ela baixou a cabeça pra pegar a comanda na bolsa (essa mania de ficar com a bolsa no colo), estava de brincos (essa mania de usar brincos). Já olhando pra trás foi se levantando e a perna esquerda trai a direita, aberta demais, a calcinha, já imaginava os debruns pretos muito colados na pele suave, eu quase babando imaginando os pelos, pelos, por trás daquela polpa de algodão lilás, se bem que eu sou capaz de morrer se deslizar meus dedos pra dentro de uma calcinha e encontrar uma depiladinha. Meu Deus, me ajuda nessa hora. Ela andava e eu via suas costas, os ombros delicados, vontade de pular por cima da mesa e agarrá-la por trás.

Veio de combinação, quer dar.

Eu amava as costas dos seus joelhos, queria beijá-las. E se estivessem um pouco suadas, uhm, tanto melhor. Entre a saia e a blusa, uma faixa de pele se revelava, aquilo me deixava louco, agora sim, meter o pé na cadeira, dar um pulo, cair na cabriola e agarrá-la pela bunda, beijar-lhe as costas, subindo, subindo pela sua coluna, as mãos agarrando seus peitos, depois descendo pelo ventre, eu de joelhos agora, a cara na sua bunda.

Enfiar minha cara no meio das suas pernas e usar essa mina de óculos. Babava.

Um 69 seria perfeito.

Ela voltou com a cerveja e já quando servia os copos eu mandei:

―Combinando calcinha e sutiã, hein. Vai ver você gosta mesmo de mim.

Ela sorriu com tanta malícia que começou a tocar Jorge Bem. Vai ver ela já sabia que eu era um tarado profissional.

Alguma coisa me impedia de chegar mais a ela, tocar seu braço, suas coxas. Eu cobiçava cada pedacinho da sua pele à mostra ― e não era pouca ― mas tinha uma trava. Precisava beber. E bebi, bebemos.

Convém descer pra pista.

―Cuidado com a cabeça, gatinha.

A euforia não veio, havia algo de podre, fiquei bêbado, bebaço. Como uma menina faz uma coisa dessas com o namorado? Quem era aquele cara no carro? Que coisa de filho da puta. E eu queria o que, segurando seu quadril aqui, aonde vamos? Dá pra namorar uma mina dessas? Mas agora eu quero casar com todo mundo? Foda-se, só eu fico mal nessa história?

Não conseguia mais fechar os olhos, a Rita já vacilava o ritmo. Fui de encontro a ela, ficou na ponta dos pés e seus seios tocavam meu peito, nossas virilhas se colaram, cheguei a boca perto da sua orelha, inspirei frio, ela me envolvia.

―Você gosta disso?

Desceu as mãos da minha espádua pra minha cintura, um abraço triste agora. Afastou a boceta, deitou a cabeça no meu ombro, olhando pra fora. Virou devagarzinho assim raspando o nariz no meu ombro. Olhos fechados, falou:

―É só assim ― tomou mais ar; estava bêbada, triste também ― que eu me sinto bem.

―Fazendo isso?

Balançou a cabeça, apoiou a cabeça no meu ombro de novo, o globo girando, pontinhos vermelhos nas paredes.

As coisas são uma merda.

Nos soltamos, aquilo arrasava. Busquei uma cerveja. Como que por querer bati a garrafa na mesa e seu vidro se partiu em dois, formando uma lâmina que sulcou a palma da minha mão como um arado doido.

A cerveja caía aos borbotões pelas frestas entre as tábuas de madeira e se derramava no chão de cimento. 600 ml pro saco.

O sangue, que também era bastante, vazava dessa nova linha da minha mão e corria em fio pelo meu antebraço, gotas no meu cotovelo. Da minha mão olhei pra Rita, e pela cara dela a coisa era séria. Estendi a mão pra pedir um pano e desenhei um semicírculo no chão. Na minha palma inquieta se formava uma poça vermelha e violenta. Pensei que poderia desmaiar porque perdia muito sangue, pensei na palavra hemorragia, pensei que ia melar o câmbio do meu carro, pensei que minha camiseta era branca, pensei que era igual comer macarrão. Pelo menos não vou trabalhar amanhã.

Bater punheta vai ser uma merda.

De todos os presentes, porém, acredito que eu era quem levava a situação mais na boa, seguido bem de longe pelo rapaz do bar que, verdadeiramente preocupado, queria parar um táxi pra me levar pro pronto socorro.

―Cesnumtem… ― pensei band-aid ― gaze?

Como eu ia conseguir comer a Rita desse jeito?

Enrolavam minha mão e o sangue empapava a gaze ― Acho que você vai ter que tomar ponto ― pensei que tudo tinha ido pro buraco. Meu emprego, meu namoro, a Rita. Tudo que eu tenho é essa mão fodida agora.

Perguntei se não seria muito incômodo continuar a beber (na minha cabeça eu precisava repor líquido) (além de querer beber mesmo).

Bebia com os cotovelos sobre a mesa, olhando o fundo amarelo do copo, a Rita do outro lado da mesa me olhando com carinho, como se eu fosse um cãozinho com a pata quebrada. Ninguém falava nada.

―Sabe o que é isso? ― perguntei apontando pra música ― É Paul McCartney.

―Sério que isso é Paul?

―Sério, vamos embora?

Peguei o carro, conseguia dirigir tranquilamente, apesar da mão; trocava a marcha na força dos dedos sujos. Que bom que não vou trabalhar amanhã. Liguei o som e continuamos em silêncio, rumando quietinhos pra casa da Rita.

Era triste.

Já chegava à rua dela quando Otis começou a assoviar. Ela se virou no banco, esticou o braço e pousou a mão no meu peito, deslizando o dedo por debaixo do cinto de segurança.

Parei em frente ao portão e desliguei o carro. Ficamos na mesma posição, como dois bonecos frouxos, sentados no escuro. Esperando alguma coisa acontecer.

Parece que foram uns 15 minutos, não sei, de rabo de olho tentava ver. Não via. Ela tomou coragem ― eu nunca tomaria coragem de nada ― e disse que precisava ir. Inclinou-se em minha direção, nos beijamos. Com a mão esquerda agarrei seu ombro que a noite toca cobicei, rocei o curativo no seu braço que, ainda esticado, deixava a mão ali no meu peito.

Foi embora.

Em casa me olhei no espelho, estava imprestável. Os olhos inchados de chorar, o rosto sujo de sangue seco. Peguei um copo entre os dedos e abri a garrafa de Jim Beam, me servi. Voltei pro banheiro, a única luz acesa em casa. Sentei na privada, resolvi abrir o curativo. O sangue voltou a andar; inclinei o corpo pra frente, os cotovelos nos joelhos. O sangue pingava grosso no tapete e os fios absorviam aquele vermelho, formando flores de sangue.

Com o curativo ainda aberto estendi a mão sobre a pia e joguei uíque na ferida, que a fez arder violentamente. Pensei que estava bom. Segurei o fogo na mão, com a esquerda me servi mais um pouco. Pensei ouvir passos.

Não escovei os dentes.

3 Comments

Filed under Beatles, Bunda, Capitalismo, Duplo sentido, Mulheres gostosas, Seres Humanos Reprováveis, Zimmerman

3 responses to “Te faz mal e você tem que parar

  1. zeligra

    ―Não são erros… ― murmur(r)o.

  2. muito bom, cara. a divisão em três tá bem usada e outras coisas boas que não vêm ao caso aqui, mas muito bom

  3. Layza Storer

    gostei =)

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