Porque eu sou bobo, ué

Dei mais um beijinho nela e disse baixinho:

―Joana.

―Oi ― sussurrou quase inaudível.

―Vamos fumar aquele beck?

―Vamos!

Ia saindo, mas puxei-a pelo braço:

―Joana.

―Oi ― voz inteira agora.

―Eu te amo ― e rimos.

Saía de novo, puxei-a mais uma vez.

―Joana. Me dá um cigarro?

A fumaça me enchia de um ânimo novo. Eu voltava a ser um cara feliz. E devo tudo a você, Marlboro Light.

Pronto, agora começa então a putaria.

Peguei a Ana Maria pelas mãos e colei-a bem juntinho do meu corpo, dançamos a caminho da cozinha, girei-a e trouxe-a de volta de costas, colando sua bundinha no meu pau. Ela esfregou ainda as costas no meu peito, como que dizendo “sim, sim; mas calma”. Joguei-a pela porta e mandei que pegasse dois copos. Ou lavasse.

Servi as doses e bebemos. Abri duas cervejas no antebraço (agora já cheio de esfolados circulares) e brindamos. Servi mais duas doses.

Minha cabeça estava vazia, as coisas se sucediam. Olhei para a geladeira e saí pra sala. Helô estava fumando na janela, juntei-me a ela e lhe ofereci o copo:

―Uíque?

―Por que você fala assim?

―Porque eu sou bobo, ué! Por que mais?

Ela achou graça e bebeu.

―Eu gostei do seu cabelo ― disse, passando a mão pela sua cabeça, bagunçando tudo ― Eu gostei, ele é enroladinho. Eu amo cabelo enrolado.

―Ah, gostou? ― ela tentava manter a compostura, não estava gostando tanto ― Achei que ficou muito menininho, num ficou?

―Eu adoro menininhos ― eu disse e me virei pra Joana que vinha rindo, com um míssil entre os dedos.

―Meu Deus, isso é uma bomba, Joana! Não, não dá! Vou ficar louco demais.

―É Ano Novo, Rafa!

Ela me chamou de Rafa (não sei se vocês perceberam).

―Bom… se é isso que o povo quer, é isso que o povo terá!

―Vou colocar um vinil! ― gritou a Luiza, desmiolada.

Achei aquela uma grande ideia e a persegui inadvertidamente pelo corredor.

―Vai colocar o quê?

Entrei junto no quarto e a ajudei a carregar a caixa com os discos pra sala.

―Aqui, pra começar ― e colocou o “Death of a ladies man”, do Leonard Cohen.

Fechou os olhos, ergueu os braços e começou a dançar, rodopiando lentamente o seu corpo negro estampado de flores, com uma tranquilidade perturbadora. Mexia aquele quadril estreito, deixando cair o cabelo pelo rosto.

Fiquei sentado olhando. Quietinho.

True love leaves no traces.

Chegou o beck.

Quando começou a tocar “Memories” miamos o banza pra mais tarde. Ficamos em silêncio, passava os olhos por todas as meninas. Luiza continuava com os olhos fechados. Agora movendo os lábios, cantando junto com o Leonard.

She said “No you cannot see”

A Joana do meu lado, beijando meu pescoço. Levantei num pulo e perguntei se alguém queria cerveja. Todo mundo queria cerveja. Busquei uma pancada de cervejas e a garrafa de uíque, com copos empilhados. Estava me complicando e por pouco não derrubei tudo no chão. No chão! Seria o fim de Rafael. Tudo isso durou uns 40 minutos, o disco nem chegara na metade, eu tava era muito loco mesmo.

Conversamos um pouco e acabei chutando o pé da Luiza:

―Luiza.

―Que dia você nasceu?

Não sei por que perguntei isso. Na verdade sabia.

―Dia 28 de janeiro de 1986 ― e completou com maldade ― Dia em que a Challenger explodiu.

―Eita porra.

Fiquei viajando um pouquinho. Ela tinha quase a minha idade, se for ver.

―Luiza.

―Rafael.

―Eu vi o “Blonde on blonde” no Iago! Não sabia que você gostava de Bob Dylan.

―Eu sabia. Vou colocar um pra você.

Se levantou também num pulo (sua saia levantou e gravei na mente os músculos posteriores da sua coxa se retesando, as perninhas fortes e bem dispostas), remexeu os discos e colocou na agulha. Era o “Desire”.

―Porra, Luiza, você quer me matar.

Não disse nada e foi sentar como se eu não existisse.

1 Comment

Filed under Bunda, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis, Zimmerman

One response to “Porque eu sou bobo, ué

  1. She said, “Where ya been?” I said, “No place special.”
    She said, “You look different.” I said, “Well, I guess.”
    She said, “You been gone.” I said, “That’s only natural.”
    She said, “You gonna stay.” I said, “If you want me to, yes.”

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