Miguel Fallabella salvou minha vida

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Se o assunto não voltar, está resolvido. E a melhor forma de fazer um assunto não voltar era não tocar nele. Como um bicho que você julga estar morto e, por receio de que esteja vivo, não cutuca com um pedaço de pau. Morto, morto, encerrado. Mas a noite sempre vinha, e logo, como um cachorro que saliva com a campainha, eu me enchia de medo antes de ir dormir. Primeiro receoso de que acontecesse mais uma vez de não dormir, depois acelerado ao remoer e remontar todo o cenário das noites em claro, e então já imerso na certeza de que não iria dormir e que tudo começava outra vez.

2
Passar a noite em claro é especialmente doloroso quando você não consegue organizar suas ideias, e era assim que acontecia quando eu era criança. Era como se houvesse uma TV ligada dentro da minha cabeça, que não me deixava manter a concentração por mais de vinte segundos em alguma coisa. Logo vinha aquele som estourado e a imagem azulada para roubar qualquer linha de raciocínio e jogar o esforço no lixo. Eu não sabia, mas o terror que me mantinha acordado e irrequieto tinha um só fundamento. Quem me mostrou a verdade foi Miguel Falabella. Naquela época ele provavelmente apresentava o Vídeo Show, e tinha aquela aura mística que me intrigava: o homem bonito e gay que se despedia com uma piscadinha e uma reverência. Como eu ainda não entendia o que significava exatamente ser gay, pensava apenas que ele não gostava de mulheres. Essa renúncia, agravada pelo fato de ele ser lindo, me causava grande impressão, e a cada namastê eu acreditava mais nele. Não sei pra qual programa foi, mas um dia ele deu uma entrevista curtinha em algum quadro da Globo; basicamente falava de amenidades, e então mencionou que sofria de insônia. Aquilo me deixou incrível. Eu dividia alguma coisa com o Miguel Falabella. E ele continuou. Suas palavras, corretas e prudentes, brilhavam como carvão em brasa. Ele disse que sofria com insônia, e que o pior de ficar acordado era que ele se sentia sozinho, como se fosse a única pessoa acordada na cidade inteira. Ele traduzia exatamente o que se passava na minha atormentada cabeça de 11 anos. E continuou. Para amenizar um pouco o sofrimento, disse, ele se lembrava que não era a cidade toda que dormia, que havia muita gente acordada, muitos trabalhando – na manutenção do metrô, por exemplo. O metrô. Era isso aí que eu precisava. Desde então, sempre que me vi em apuros na madrugada, pensei no metrô. Em como aqueles bravos homens e mulheres atravessavam a noite em pé, sem pregar os olhos, trabalhando para o bem da população, na manutenção de um dos símbolos de avanço, conforto e engenhosidade da civilização. Nunca havia andado de metrô. Minha compreensão do mundo deu um salto. Miguel Fallabella salvou minha vida.

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Filed under Crise!, Não foi bem assim, Seres Humanos Reprováveis

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