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Metáforas táteis

(Obrigado ao FASM pelos comentários, por apontar os erros, por limpar o texto e por varrer os clichês)

 

 

―A comida aqui é razoável, os charutos são intragáveis; e o velho árabe, uma anta ― disse, guiando o caminho por entre as mesas.

―Me trouxe aqui por que, então?

Cumprimentei o garçom com um aceno de cabeça.

―Não sei ― peguei o prato ― Vai ver não gosto tanto de você assim.

Os charutos estavam lá, enroladinhos, ensopados no molho.

―Vai ver você não é tão legal assim.

Chegou mais alguém. Ela foi daqui ali, procurou, ameaçou e acabou sentada ao meu lado. Não cheguei a prestar atenção. Eu estava mais preocupado em transbordar meu copo de cerveja enquanto pensava ― seriamente eu pensava ― em fumar um beck pelo século XXI. Em fumar um beck contra a mídia golpista e contra o Estado militarizado. Em fumar um beck que se acendia por um isqueiro que soltasse estrelas amarelas, brilhantes num céu vermelho de fogo. Eu queria fumar um beck com Che Guevara. Mas Ernesto é morto… e a cerveja derramando pela mesa e pelas frestas entre as tábuas de madeira e sobre minha calça jeans, com dramaticidade, com que dramaticidade.

Empolava papel de bar, aqueles becks de antigamente, antes de tudo ter se profissionalizado e se tornado um produto velado, secreto, hipocrisias do capitalismo. O dinheiro vale tudo, eu pensei, sem fazer muito sentido, enquanto varria com a seda aquele rio de cerveja para o chão. Para o chão.

Ela estava sentada ao meu lado, com a bolsa no colo, e sorriu.

Sorri de volta, pensando em Bob Marley, Malcolm X, Che Guevara.

―Desculpa, mas eu não tenho cerveja pra você agora. Acabei de derrubar o último resto.

Último resto, fiquei pensando nessa construção sem sentido e na minha falta de tato com o sexo. Feminino.

―Ah, vou lá pegar.

Levantou-se e, em cinco ou seis passos, alguma coisa aconteceu no meu coração, especialmente quando ela ficou na ponta dos pés em frente ao balcão e pediu; imaginei seus lábios dizendo docemente:

―Me vê uma cerveja, por favor.

E o cara do bar, docemente:

―Qual?

Ela então olhou pra trás e eu já subia passo a passo cada centímetro de suas pernas com meus olhos, cada pequeno ponto que compunha aquela perna firme metida numa calça leggin, a panturrilha retesada, os tendões de trás do joelho, as coxas, até a bunda. Ela olhou pra trás, percebeu, apontei pra Brahma em cima da mesa e fiz um jóia. Ela se virou:

―Uma Brahma.

Meti a mão na testa. Pra que fazer esse jóia, Rafael?

Uma Brahma, ela sabia, ela percebeu, ela sabe. Quando se virou e começou a caminhar de volta à mesa eu percebi, eu soube: ela era, com a leveza dos seus passos, com seu sorriso que deixava pender o lábio e entrever seus dentes, com seus olhos tristes e com seu cabelo, com seu cabelo que segurava e enrolava entre seus dedos: ela era uma dessas meninas que se portam como gatos, que se fazem de qualquer coisa e que sabem.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só jogar 90 minutos no ataque, até que o juiz apitasse o fim do jogo.

―E aí, mas então ― eu começava mal a puxar o papo, mal, muito mal, Rafael ― o que você faz?

Ela respondeu e eu não conseguia deixar de acompanhar suas mãos, seus cabelos, seus lábios; ela fazia isso pois ela sabia, ela queria que eu olhasse.

Merda, estamos fodidos. Isso vai mal, isso vai muito mal, eu pensei.

―E você, o que faz?

―Eu? Eu não faço muita coisa ― tinha vontade de me humilhar, de revelar coisas vergonhosas, de me expor de forma sem precedentes, como nunca antes na história desse país. Comecei pegando leve:

―Eu amo o Lula. Amo, absolutamente ― arrisquei.

Ela concordou, em termos.

―Mas não ama o Lula? Nem um pouquinho?

―Por que eu vou amar o Lula?

―Porque o Lula ― bati no coração ― o Lula é Corinthians.

―Corinthians? Você tem cara de são-paulino.

Enxuguei os lábios, pousei o copo na mesa e disse com gravidade, o dedo perpendicular à mesa:

―Eu sou Corinthians.

Ela riu e disse que sim, e concordou, disse que amava um pouquinho o Lula, então. Ela ama o Lula e o Corinthians, eu te amo, eu pensei, e talvez tenha dito, porque ela arregalou os olhos com graça e riu ainda mais um pouco.

Perguntei se ela gostava de música. A pergunta foi exatamente essa.

Ela ria e aceitava ― às vezes com certa reserva ― as merdas que eu falava. E eu me deliciava com suas respostas malcriadas.

“Tem certeza que você quis dizer isso?”, “Você não é negro, sabia?”, “Spike Lee e Spike Jonze são pessoas diferentes.”

―Eu tenho uma curiosidade: saber como é um pinto judeu ― Mano, de onde tiramos isso? Tava nessa outro dia, né. Lembra? “Jewish Porn”, no Google, e nada. Eu pegaria uma mina judia, com certeza.

Mas voltemos ao pênis hebreu.

Corria o risco de me passar por homossexual e antissemita de uma vez só. E não era hora de se passar por homossexual e antissemita. Não. Não agora, não aqui.

―Estou lendo “O Estrangeiro” ― disse.

―Aquele do Camus?

―Isso, Camus ― ela disse, numa pronúncia impecável. Maravilha, puta que pariu, agora essa porra fala francês também. O que eu vou fazer?

O que eu vou fazer? O que um pobre rapaz como eu pode fazer? Não há saída, não há alternativa, eu pensava, enquanto mergulhava os olhos em suas coxas e ia subindo por entre as pernas. De súbito, um mundo novo se desvelada diante dos meus olhos, por debaixo daquela calça, daquela calcinha polpuda, daqueles pêlos, aquela boceta, aquele amor que falava francês. Observava sua virilha com obstinação. Subi o olhar e encarei-a. Semicerrou os olhos me indagando.

Ergui as sobrancelhas e fiz um bico:

―Eh! Fazer o que, né?!

Ela menciona Mia Couto. Digo que não gosto, que não me convenço nessas merdas que ele escreve. Além do mais, o cara é branco.

―E Milton Hatoum?

―Gosto, mas não me convencem os diálogos.

―Como assim?

―Não sei, as pessoas me parecem muito eloqüentes. Mas pode ser, deve ser, uma avaliação prematura e babaca da minha parte, que dizer, Milton Hatoum, sabe, essas coisas.

―C-

―Essas coisas ― eu lhe assegurei.

―E como as pessoas falam?

―Não sei, não sou bom nisso.

Não sou bom nisso, não sou bom em nada. Não sei como as pessoas falam, não sei falar com as pessoas. Como lidar, qual a saída? Não há meio prático, exit this way. Só confusão, falha de comunicação. Falha da comunicação. As pessoas se escondem, fogem, tomam calmante pra dormir. Mas eu sou um homem à moda antiga, encaro meus problemas, minhas limitações, tento superá-las. Com a bebida.

Enchi o copo e contei que tinha uma história que queria escrever. Era sobre um cara que só cons-

―Você?

Não, não, um cara que só conseguia escrever sobre mulh-

―Certeza que não é você? ― ela riu.

Fiz um gesto mas congelei as palavras na boca e a mão no ar. Concedi: OK, sou eu.

―Tá ― sorriu com maldade ― e aí?

É esse cara-

―Você.

Eu: é esse cara, que sou eu, Rafael Lacerzanatto, que só consegue escrever sobre mulheres, e ele gosta de escrever… e gosta de mulheres… (eu perdia o fio da meada)… mulheres…

―Tá bom, você gosta de mulheres, vou acreditar nessa. Mas e aí?

Aí que esse cara escreve apenas sobre mulheres, ele quer chupar até- Ela franziu as sobrancelhas, calma, calma, Rafael. Outro verbo. Ainda não é hora de usar essa carta.

Ele quer… reter, reter cada mulher que conhece, que lhe atrai, quer como que eternizar sua essência, ou pelo menos aquilo que mais lhe atrai, ele quer marcar aquilo pra sempre no papel. Começa na faculdade: ele derruba um lápis no chão; o lápis cai, quica e rola pra debaixo das mesas. Ele se ajoelha e, bem no momento em que está de joelhos, vê uma menina no fundo da sala, de saia, descruzando e cruzando as pernas. Ele vê sua calcinha, e é uma calcinha linda, listrada em várias cores, e a perna da menina é firme e bronzeada, morena, ele consegue ver os pêlos quase transparentes em toda a extensão da coxa e fica maravilhado. Pega o lápis e quer reter aquilo da melhor forma possível, quer guardar aquela memória para sempre, transformá-la em algo físico e palpável e tê-la para sempre perto de si. Ele tem essa tara, além das mulheres, de catalogar, de sistematizar, de arquivar e conservar tudo, congelar o momento para sempre. Ele é louco com a manutenção da memória. Ele começa a desenhar os pés da cadeira, os pés da menina, mas ele é extremamente limitado no desenho e não consegue criar uma perspectiva que dê conta da profundeza que se cria entre aquelas duas pernas, toldada pela saia, ele quer tudo, ele quer aquela calcinha, aquelas pernas, a saia, o verão, a faculdade, ele quer tudo exprimido em um desenho. Mas desenha mal demais e pensa: Eu queria desenhar com palavras. Então começa a descrever, cuidadosa e detalhadamente, ele escreve, reescreve, risca, troca palavras e passa a limpo ― a aula é longa. Então passa para um amigo, que lê, olha pra trás, vê a menina e volta, balançando a cabeça: “Porra”, ele diz, “Também chuparia aquela mina”. E não tem nada de chupar no texto, nada, e ele fica maravilhado que consegue, enfim, captar um momento e transpor no papel, como se fizesse uma fotografia ou um desenho. Então ele continua a fazer esse tipo de coisa e vai se aperfeiçoando ― eu não sou tão bom assim ― mas vai se aperfeiçoando e começa a variar, escreve um haikai sobre o decote da menina no ônibus, um poema de extrema sacanagem sobre a namorada de um amigo, fantasias das mais variadas com todo tipo de mulher que conhece, inclusive ― especialmente, aliás ― no sentido bíblico. Ele se aprofunda de tal forma nessa pira, nessa tara, que toda mulher que lhe chama a atenção deve ser imediatamente eternizada em palavras, às vezes frases soltas, às vezes quatro, cinco páginas sobre o vislumbre de um mamilo. Ele se torna obsessivo. Compra um smartphone e quando está com uma menina, corre para o banheiro, com a desculpa de que vai mijar, para registrar nas exatas palavras qualquer coisa insignificante que ela diga, o seu hálito, a cor da alça do sutiã, a espessura dos seus pêlos pubianos, bem como o formato da depilação. Ele vive pra isso, e muitas vezes leva situações às últimas conseqüências não pelo sentimento, seja amor ou pura vontade de fazer sexo, mas para poder depois registrar, numa riqueza de detalhes e manobras, o que há de mais verdadeiro e real naquela mulher. Ele-

―Você.

Isso, eu. Eu tenho essa teoria ― quase religiosa ―, em que ele diz que a melhor forma de se chegar ao real, à Verdade, é a partir da ficção, dos rodeios, das invenções, de discursos indiretos e de cantos de olhos. Ele pensa em Deus, em todas as parábolas, em tudo que roça a questão mas não diz nada explicitamente. De tudo que está prestes. Para ele, o que importa nunca pode se manifestar, como a face de Deus, como a interdição do tetragrama, todas essas coisas.

Até que conhece uma menina que o arrebata e ele sente, com toda convicção, que ela é sua obra definitiva. De ela tudo flui. Imagina narrativas em cada curva de seu corpo, aforismos emanam das suas pernas, Bataille invejaria suas clavículas, seqüências eletrizantes sobem das costas dos seus joelhos até a bunda, onde bonito e bom, luminoso, quente como o sol e aconchegante como uma rede, depois do almoço, já um pouco bêbado de cerveja. “Metáforas táteis”, ele escreve no topo da página e se senta para escrever aquilo que é a realização de tudo que já viveu e pretende ainda viver.

Mas ele não consegue. Saem apenas palavras dispersas, uma frase ou outra, nada muito bom, talvez legal de publicar no twitter, mas não há consistência, não há uma seqüência, nada se encadeia nem funciona. Ele se torna cada vez mais obcecado em dar forma ao livro, em jogar no papel todo o turbilhão que toma sua mente dia e noite mas não, o negócio não vai pra frente, a escrita não anda, as coisas escapam pelos seus dedos. Sente uma profunda frustração e começa a beber (mais), pensando que isso vá lhe dar alguma inspiração, mas ele apenas queima cada vez mais papel, faz anotações em caderninhos, em post-its, na mão, na esperança que vá dar uma forma de ligar notas esparsas, mas nada, a coisa não marcha. Ele bebe, bebe, cria uma violenta aversão à mulher ― agora eles estão juntos ― mas ainda a idolatra, totalmente reverente, beija seus pés. Todo seu esforço e carinho, cada ereção, porém, é dedicado não à mulher, mas ao livro que pretende escrever, à sua obra prima. A relação se deteriora e ele acha que o melhor é se separar, que sozinho vai conseguir juntar a tristeza e a frustração de forma que consiga pôr em palavras aquela mulher. Senta-se em frente ao computador, o cigarro na boca, “Metáforas táteis”, serifado, zunindo em preto no topo da página, bate o dedo em alguma teclas, deleta letra por letra. Não consegue.

Ela ergue as sobrancelhas e alonga as vogais:

―Aaahh…

―É mais ou menos, né?

―É, mais ou menos.

―Extremamente mais ou menos ― eu digo sem convicção de mais nada e encaro o fundo do copo, que gira na minha mão.

―Sua vez de pegar cerveja.

Levanto-me e volto como o fantasma do falecido rei, com uma péssima notícia do mundo dos mortos:

―Tão fechando o bar, não servem mais cervejas.

Ela arregala os olhos e pergunta, séria:

―Sério?

Sério, respondo:

―Sério ― respondo, e balanço a cabeça com importância.

―Então vamos pra outro lugar.

―Dê-mo-rou ― digo, como se tivesse quinze anos e me humilho mais um pouco diante daquela menina que me congela e me eletriza jogando o cabelo e mexendo os lábios, dizendo coisas quaisquer que aos meus ouvidos parecem as maiores indecências já proferidas. Meu peito se aperta, fico desesperado. De decência eu já estou cheio, e parece que vou morrer de ouvir o que quero. Penso nas suas pernas, e de fato as acompanho quando ela anda até o banheiro e puxa a camiseta pelos quadris, para cobrir a bundinha, linda bundinha, metida naquela calça leggin, tenho vontade de chamar meu advogado, pegar um táxi para o cartório, reconhecer firma: eu estou de pau duro.

As luzes da cidade brilham enquanto passamos queimando gasolina, cigarros e pneus. Meninas gritando na calçada e Bob Dylan tocando baixinho. Coloco o braço direito pra fora do carro, encosto a cabeça na janela e canto, sussurrando entre os dentes:

―He takes himself so seriously…

Olho pra esquerda e ela está dirigindo feliz.

A torre da Band
goteja luz
na Minas Gerais

Na Augusta, a ação acelera e eu abro uma, duas cervejas no meu braço, jogando as tampinhas pra cima e metendo a bica para longe, para o alto, chuto a guimba que explode em fagulhas malucas, voam todas para cima dos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas de duas meninas que dividem um misto nas mesinhas do Charm, que me olham feio, e o bar já fecha. Todas essas merdas fecham.

―Temos que entrar em algum lugar se não quisermos descer a rua toda.

Ela dá um gole com classe nenhuma, um olho fechado e o outro aberto:

―Com certeza; o que você sugere? Eu topo qualquer coisa.

―Qualquer coisa?

―Qualquer coisa ― responde com malícia, e eu só quero puxá-la pela cintura e meter minha língua na sua boca, for starters.

Aponto pro outro lado da rua, guio o caminho por entre os carros, e dois minutos depois estamos dividindo uma cerveja já sem nenhuma condição de nada.

Dançando ela sobe as mãos pelo quadril, pela barriga, pelos seios e rebola tão bonitinha, balançando a cabeça. Estamos completamente bêbados. Puxo-a pela cintura, agora é a hora, mas eu sou um gato e já que é tão certo, vamos brincar.

O ritmo é cada vez mais acelerado, a luz estroboscópica não dá trégua, mil rotações, a batida sobe num crescendo alucinante, estourando meu peito, minhas pernas, meu coração, minha boca, um gole de cerveja, se você tem que ir, que vá agora, adeus Brasil, adeus Cuba, adeus século XXI, adeus minha ascendência e a futura geração. O negócio é aqui e é agora. E tá pegando fogo essa porra.

Vamos brincar.

Essa menina tem um tufão nos quadris, gira, aperta sua barriga contra a minha, sinto seus seios enquanto ela roda no meio daquele inferno, sua boceta indo de lá pra cá, na minha perna, no meu pau, próxima coisa estamos sentados, a milésima cerveja da noite.

Bebo por inércia e quero vomitar.

Próxima coisa:

―Você está bem pra dirigir?

Próxima coisa, o metrô está andando pro lado errado e avisa:

―Estação Consolação.

Putaquepariu.

Próxima coisa, o porteiro me oferece o jornal dizendo bom dia.

Próxima coisa, o rosto dela numa chapa fotográfica metalizada, brilhante, a imagem que construí na minha cabeça; é o que vejo logo antes de abrir os olhos.

Levanto, pego uma cerveja e sento na varanda. O cachorro vem, cheira minha perna e senta-se ao meu lado. Observamos o horizonte. Pego-o pelo focinho:

―Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Falhe.

Contei-lhe minha história.

―O que eu faço, Senhor Cachorro?

―Você poderia chamá-la para um au-moço.

―Aw, Senhor Cachorro, como você consegue ser tão fofo?

Matutei um tempinho sobre o assunto. Isso: almoço: boa idéia. Dei um gole na cerveja, que já havia esquentado, e não consegui segurar o vômito.

Diligente, Senhor Cachorro abanou o rabo e comeu tudinho.

Cortei o charuto. Não sei por que peguei essa merda. Sempre caio em tentação.

Entrego meu cartão pro velho árabe e ele passa errado logo de primeira. E depois de segunda. Quantas formas diferentes um velho árabe pode passar errado um cartão? Bato a cabeça no vidro do caixa, me dá vontade de dizer “Dá essa merda aqui, vovô! Eu passo essa porra!”, mas em vez disso brinco com as gomas. O vovô me olha por cima dos óculos e diz:

―É brinde, pode pegar. Brinde.

―Valeu.

Valeu, agora passa essa merda. Ele está passando na máquina errada, tenho absoluta certeza. Me entrega, digito a senha, transação aprovada.

―Não precisa da minha via, tá?

Ele me dá mesmo assim.

Saímos pra rua, uma bela segunda, andando pela calçada quebrada, um vaivém sem parar, carros, motos, bancários, jatomóveis, coloco meus óculos escuros e, com as mãos no bolso, pergunto:

―Vamos tomar um café?

―Você não tem que voltar?

Estendo o braço para protegê-la do farol que acabou de abrir. O que eu queria mesmo era pegar nesses seus peitos.

―Já estou quarenta minutos atrasado.

―E não tem problema?

―Não há nada que eles não possam fazer sem mim. E outra: que se foda o trabalho.

―Uma cerveja, então? ― essa menina fala o que eu quero ouvir, ela é um amor. O farol abre.

―Aí sim, hein. Demorou. Aliás, você não trabalha, né?

―Não.

Tá certo, amo essa menina.

Sirvo seu copo, depois o meu: um brinde: um brinde:

―Um brinde. A mim.

O telefone toca. Ela atende:

―Alô. Oi, tudo bem e aí? To, to almoçando com uma amiga ― ela não me olha― e já já vou passar na livraria. É, e você? Ah, aham…

Esparramado na cadeira, dou um gole da cerveja, giro o copo na mesa, fico observando. Ela desliga, eu pergunto:

―Então é verdade aquele papo?

Ela balança a cabeça como se “pois é, é verdade, fazer o quê”.

―Bom, a bola tá rol- ― toca o meu telefone. Atendo ―Alô, oi ah, e aí? Beleza. É, então, to aqui tomando um café cos moleques. É, saí mais tarde. Não, já to subindo. Só esperando o Pedro terminar o dele. É, beleza. Ah, vai lá? Legal.

Agora ela me olha.

―Nossa, é mesmo? Ah, nada a ver! Haha. Olha só. Mas ela era dahora? ― não tiro os olhos dela e sei que ela gosta. Desço até sua boca, seu pescoço, seus peitos ― Ah, pelo menos isso! Haa, ei, to brincando. Ai ai. Beleza, então, tá bom então, beijo. Beijo. Tchau ― seguro o telefone longe do rosto ― tchau, tchauu.

―Então você namora também?

Estendo os braços e viro as mãos atadas pros céus: o que eu posso fazer? As setas do amor me atingem, a paixão de Rafael.

―E o pior: ela disse que sonhou hoje que eu a traía.

Meu coração pesa, mas tenho um coração pesado há tempo o bastante para não me importar. Se não se pode contar com o passado e nem com o futuro, só o presente lhe resta. E é assim: de segunda a sexta à espera do fim de semana. E não há forma melhor de se começar uma semana do que em busca da leveza de um amor livre e tranqüilo. E já que não temos um amor livre e tranqüilo, vamos com um que é escravo das vielas, dos corredores e escadas, um amor que não se revela, obscuro e suicida.

Não sabia onde pôr as mãos. Comecei a palitar os dentes.

Ela não via gravidade em nada. É uma menina linda e cínica, que fica triste só às vezes e aí conta a verdade, o que realmente sente. Isso esmaga meu coração, e isso eu só aprendi depois. Ali ainda acreditava que ela só queria mesmo tocar fogo nas coisas.

Ela disse que sonhou hoje que eu a traía…

―E o que senhor acha disso?

―Coincidências de um mau escritor.

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fique lisonjeado sinta-se bem

zzzumzoiszrezzatacaar ela gosta de enrolar dançando girando no sofá difícil saber qual a melhor coisa a se fazer palavra a escolher ela tem uns peitos uns peitos dahora várias minas têm peitos dahora os peitos eu tenho uma teoria todos peitos são dahora quer dizer todos peitos são legais em algum momento da vida eles são como flores como frutas como romãs mamões laranjas maçãs o ciclo da vida é o mesmo para qualquer um nascimento crescimento então o apogeu algumas meninas desenvolvem peitos muito novas e vão pra escola só de camiseta sem sutiã que inocentes pois os peitos cresceram e elas não tão ligadas ainda e os meninos de bigode aquela penugem rala você bêbado fala pelugem elas de camiseta ou vestido vestido aí já estão maiores sabem o que querem vestidos e sutiã e calcinha e meia e tênis são quatro peças cinco peças de roupa ela está usando cinco peças de roupa strip poker você strip dominó strip algum jogo que eu sei jogar você perde strip verdade ou desafio ou ficar sem roupa rouba com bebida a bebida cinco peças de roupa e dá migué tirando uma meia por vez mas mesmo assim cinco quatro cinco seis sete peças de roupa então você um tênis dois meias quatro calça cinco camiseta seis sete ok não dá certo então tênis não conta descalços mas há algo de incrível nas mulheres há uma peça de roupa apenas cobrindo o corpo todo você doido olhando a silhueta o corpo contra a luz entre as pernas o tecido diáfano você vê as duas colunas subindo luzes estroboscópicas olhando pro chão como quem não quer nada o clarão as luzes as pernas as pernas o pesadelo o pesadelo você sobe sobe as pernas então uma bunda bunda uma bunda pode ser algo maravilhoso ou algo deprimente subindo a escada no metrô aquela bunda minúscula que cabe na palma da mão a calça jeans apertada eu tenho nojo dessas bundas tem algo errado aí uma bunda tem a curvatura perfeita você diz como dizem aqueles os dizem que sempre que tem um assunto complicado ou pelo menos um assunto extenso ou um assunto que realmente é interessante dizem esse assunto isso renderia um semestre isso renderia um curso poderíamos discutir anos esse assunto pura retórica fala do assunto uma bunda uma bunda pode ser discutida por anos na verdade uma bunda pode ser admirada a bunda a curvatura perfeita é uma bunda ela e linda a menina é loira em pé as pernas sobem para uma bunda perfeita elas nem desconfiam mas sustentam uma bunda maravilhosa amada por todos o namorado está me olhando ele me viu olhando a bunda feito um louco feito um louco um tarado olhando a bunda da mina dele feito um fanático um tarado pensando várias bundas fique lisonjeado sinta-se bem sinta-se bem ele tem tetas ele tem tetas e a mina dele tem uma bunda perfeita loirinha loirinha e eu sentado aqui sem tetas tem algo de errado com o mundo o daí passa cada segundo minuto o mundo você pensa dois dois dividido pela metade é um um dividido pela metade é meio meio dividido pela metade é zero vinte cinco zero vintecinco dividido pela metade cada segundo cada inconcebível fração de tempo que passa cada minúsculo recorte é um avanço é cheio de revoluções de fins de retrações de movimento completo repouso completo cada insignificante momento eu olhando a bunda dela minha barba crescendo cada vez mais rompendo a pele a pele escurecida a barba saltando especialmente pelo queixo então cinco da manhã andando bêbado cansado pra casa passando as costas da mão pra limpar a boca e os pêlos cada pêlo com seu diâmetro em crise rompendo como o sol por entre milhões de quilômetros milhões de anos muito tempo muito longe o pêlo cortado pela metade por um pedaço de metal muito muito afiado afiado a ponto de deslizar pela minha cara agora raspa as costas da minha mão eu limpo os lábios uma gota de cerveja uma gota dos trezentos e cinqüenta e cinco mililitros contados precisão a precisão vai até um certo ponto então as coisas se borram como a vista que não consegue ler muito longe tudo tem um limite muito longe ou muito perto quando você está chegando é como se as pessoas passassem pela sua vida ela se aproxima você pensa alguma coisa você pensa essa pessoa tem daddy issues qualquer coisa você enquadra a pessoa num estereótipo e então você conhece a pessoa e há nuances há pequenos milagres acontecendo todo dia derrubando o sabonete no banho os calçados apertados cada favelado você não sabe as pessoas brutalizadas diz essas pessoas pensam ignorance is bliss but thats all bout patronizing people todo mundo sente todo mundo se fode mas alguma coisa faz com que ninguém pare nem um segundo nada não há motivo para continuar mas continua é inevitável talvez um desígnio superior uma cerveja no final de semana uma pequena esperança mas não há fim é inesgotável o homem é pobre infeliz e inesgotável cada pequeno pêlo na cada de cada desgraçado esperando a fila da escada rolante atrás de uma bunda nada apetitosa cada segundo desses guarda uma miséria e uma esperança a esperança de um som de um toque um limite entre uma coisa e outra a expectativa de uma briga uma violência sexo qualquer coisa qualquer coisa que faça algo se movimentar e a esperança é totalmente fundamentada pois o homem é inevitável e alguma coisa vai acontecer então a pessoa vem e você diz qualquer coisa essa pessoa tal essa pessoa gosta de carros qualquer coisa essa vai longe esse é um filho da puta esse é babaca então você entra e dentro há milhões de pequenos detalhes e interpretações cada um tem um deus um pequeno prazer a última mordida de um cachorro quente com purê de batata instantâneaao água do pó ao pó milhões de dólares ou trinta centavos qualquer coisa então é lá dentro conhecendo qualquer pessoa algumas com mais apelo que outras mas qualquer pessoas a conseguir dar formas a seus pensamentos sentimentos pois todos sentimos então aquele momento dentro da pessoa todos todos inúmeros todos acontecimentos simultâneos este é se você quiser é o som e a fúria de cada um esse turbilhão torvelinho de ações emoções pais tios professores momentos tudo isso então a pessoa passa você deixa ela pra trás como ela te deixa pra trás então looking back você pensa essa pessoa tem daddy issues essa pessoa é tal coisa define qualquer um com uma palavra um selo uma identificação qualquer pois no final das contas é isso tudo muito simples muito complexo todos assuntos são um só do sexo à morte do sexo à necessidade de qualquer coisa alguém alguém para isto para aquilo para morrer para matar um arranhão cada vez mais fundo um pêlo nas costas da mão o vermelho o sangue todas as coisas estão sob o sol mas ainda nem amanheceu a garrafa vazia rompe o silêncio se quebra em mil verdinhos brilhantes cintilam tilintam correm pulam brilham e desaparecem

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Onde, quando e como (por que não?)

Hoje é dia do que, criançada?

-Chuva de graniiizoooo!

Não, não! Nada a ver! Só por que tá chovendo vocês gritam isso?

-Rafael, onde foi parar sua criatividade?

Ninguém sabe.

Mas hoje é dia de dizer onde, quando e como ver calcinhas! Yes!

Estava com isso na cabeça há muito tempo. Quer dizer, desde que bati aquela primeira punheta sem querer, lá nos meus (quantos?) 13 anos, sei lá, a fixação por calcinhas e, em menor grau, mulheres, não sai da minha cabeça. Hoje, então, é dia de criar um manual completo de

COMO VER CALCINHAS DAS MENINAS (SEM QUE ELAS DESCUBRAM) (DE PREFERÊNCIA) (DE PREFERÊNCIA)

Beleza! Primeiro, como o título já entrega, o mais importante é ver uma calcinha. Claro, você vai querer ser discreto, não vai enfiar sua cabeça debaixo da saia de qualquer gatinha por aí -VAI?

Eis a questão. Há calcinhas e calcinhas (fique claro). Há aquelas que você toparia ver. Claro, toparia ver essa calcinha. Se ela desse uma cambalhota, claro, eu olharia sua calcinha. Há aquelas que você quer ver. Sim, eu quero ver essa calcinha. Nesse caso você torce pra que o vento levante a saia dela por favor DEUS! E há aquelas calcinhas que você tem que ver. Nesse caso, levando em consideração os perigos e implicações, vale a pena se arriscar por uma calcinha. Por exemplo: você precisa ver a calcinha daquela menina, nem que isso lhe custe um tapa na cara. Beleza. Você fica esperto, segue com os olhos, antevê os movimentos e, quando ela vai se levantar pra ir ao banheiro bam! você desliza pela cadeira que nem gelatina e dá aquela olhada descarada, se pá até corre um pouquinho de quatro e enfia sua cabeça por debaixo da saia dela e levanta a menina com a nuca e suspende mais com os braços e fica delirando, olhando pra cima, pra calcinha, aquelas pernas nuas se debatendo, os gritos, movimentação assustada no bar, as sombras e luzes através da saia diáfana, ah, mais um sábado à noite.

Então, tendo isso claro, agora, para horror dos pais de família preocupados com a integridade sexual de suas filhas, vamos analisar qual o melhor momento para ver uma calcinha!

Quando

Toda hora é hora de ver uma calcinha – mas, como no relógio: algumas horas são melhores que as outras. Zooming out, eu diria que do século XX em diante ver calcinhas tem se tornado mais fácil e praticável. Antes, porém, seria muito bem mais recompensador, apesar de difícil. Imagina, ver a calcinha de uma mina no século XVII. Isso sim que era um bom tarado.

Mas, ao contrário do que diz o imaginário popular, sim: se fazem tarados como antigamente. Aliás, a tara, diferentemente de outras artes – como a literatura ou o futebol – não entrou em crise. Apesar de também ser cooptada pelo mercado, a tara tem feito apenas se especializar e aumentar sua qualidade e repertório, num espiral de ousadia, superação e satisfação.

Agora, aproximando mais a nossa lupa do tempo, eu não imporia limitações de idade ou coisa que o valha para ver uma calcinha. Desde a puberdade (ou até mesmo antes dela – instintos!) até os píncaros da decrepitude, um homem deve buscar uma calcinha. Como diria Josep Guardiola:

Som els que sempre busquem la porteria contrària

O timing é fundamental para um bom observador de calcinhas. Primeiro, você nunca deve se descuidar de sua missão. Ver calcinhas deve ser uma idéia fixa, das legítimas. Você deve ver calcinhas involuntariamente, olhar decotes de velhas, de crianças, de ops polícia federal.

Então, disposto a dedicar sua vida 24 horas por dia à observação de calcinha (isso se você, como eu, for um perdedor, daqueles que só vê calcinha na seção de roupas femininas do Wal-Mart), você começa a encontrar padrões nos movimentos femininos. Por exemplo, uma mulher sempre se agacha para pegar algo no chão. Quando agacha, aliás, toma cuidado redobrado com a saia. Portanto, não espere que, jogando uma nota de 20 reais na frente da menina, ela vá se dobrar inteira e deixar aquele rabo gostoso (que eu sei) à mostra, fácil assim, de graça (tudo bem, foram 20 reais) – a não ser que ela seja uma prostituta. Nesse caso, nunca jogue 20 reais no chão de um prostíbulo – você estará sendo um perfeito idiota.

Com o tempo, você percebe que as mulheres têm seus descuidos. Meninas novas tendem a entregar o jogo em qualquer situação adversa. Por exemplo: gritaria no andar debaixo – elas vão correndo em direção ao para-peito, mesmo sabendo que ele é vazado. Aí, sua perspicácia fala mais alto e, em vez de ver a briga de gente grande que tá comendo entre a mulher da cantina e a menina da recepção, você vê várias calcinhas descuidadas. Outra situação excepcional, para a qual as meninas novinhas não estão preparadas, é uma chuva. Uma mera chuva. Ela se molha e, quando vai se secar, sem querer entrega os pontos, suspendendo a saia demais, enxugando com excesso de zelo, essas coisas.

Já as mulheres mais velhas são páreo duro. Acostumadas com a vida, elas não dão bobeira. Em compensação, como se sabe, quanto mais velha uma mulher é, mais suscetível a aberturas intencionais ela se torna (fica safada). Essa é a forma que Deus encontrou pra equilibrar as coisas.

Deus: um grande cara.

Onde

Onde, haha, essa é risível. Por que, eu não sei. Mas to rindo aqui. Talvez seja esse baseado que eu fumei, e essa reprise de O mundo de Beakman que eu estou vendo. De qualquer forma, onde, afinal, ver calcinhas?

Primeiro, é necessário compreender a lógica física da coisa. São dois  fatores preponderantes: assentos (o ato de sentar e levantar) e desníveis (escadas, andares).

Quem sabe fazer contas logo percebeu que a faculdade é um ótimo lugar para se ver calcinhas. As escadas leves e vazadas, os andares que se comunicam, pátios internos, seminários em roda, tudo isso forma um ambiente favorável.

Outro lugar muito fértil para a observação de calcinhas é o bar. A dinâmica cerveja/banheiro é implacável. Ali, elas bebem uma, duas cervejas, e já estão descuidando na hora de ir ao banheiro. É nessa hora que um olhar treinado e incansável leva a melhor. Quando você vê, nem 2 da manhã e você já viu várias calcinhas (agora é só postar no blog).

Que vida triste, né, galera?

Como (por que não?)

Aqui não tem essa de depressão, ou desse pensamento feminino de “Ah, você gosta de olhar, não consegue pegar mulher?” Isso ela tá dizendo só porque quer que você a agarre logo pela cintura arranque suas calças mas não, você permanece virgem, prossegue a mística: 27 anos contrariando a estatística.

Zuei.

A verdade (e a verdade é uma só) é que o homem não se deixa abalar, o homem nunca pára. Nada o detém. Sexo, relacionamentos, nada o represa – pelo menos não suficientemente.

Você está sentado, e é essa força invisível que guia seus olhos, ao sabor do vento, acompanhando as dobras da saia que sobem, sobem, e quase mostram. É necessário perícia, momento certo de agir, mas você diz “Foda-se!” se levanta e vai lá ver. Chama a responsabilidade e, sem medo, vai lá ver essa calcinha. Andando alheio a todos, no meio de todos, você olha pra cima, ninguém entende, ela, lá na varanda, mal desconfia. Descuidada, vem pra beirada, o vento, seu amigo, bate e levanta a saia. Você vê, do patamar inferior: ela usa shorts por debaixo da saia.

-Vagabunda.

Uma mina que usa shorts por debaixo da saia. Que se foda uma mina dessas.

Mas nem sempre você abrir mão de sua discrição. Como eu, hoje, no shopping. Ela não era lá essas coisas, mas eu já a reconheci como alvo em potencial, quando passou, mãos dadas com o namorado, por mim. As pernas brancas, poderia ser mais magra, mas o vestido largo, aberto, easy going. Fui tentar a sorte na escada rolante – talvez eu veja uma calcinha, sorte aleatória, e ela era a única. Apoiada ao para-peito, sem dó, o namorado de um lado e um amigo do outro. Vagabunda. Eles já estão virados pra escada rolante, essa vai ser jogo duro, preciso ser invisível. Entro na escada rolante tropeçando, quase despenco em 12 metros de queda livre, direto no saguão principal – chamem as meninas da faxina. Agarro-me ao corrimão, meu Deus, que papelão. Eles com certeza me viram, esse jovem imbecil, barba na cara, tropeçando feito caipira na escada rolante. Eu vou, mantenho a cabeça travada na direção certa, os olhos de esguel vendo os três, lá em cima. Vai, vamos, olhando, com calma, quase me saltam das órbitas, eles me olham, tenho certeza, a saia vai, vai um pouco mais, aberta, larga, é a oportunidade perfeita.

Não, não dá. Eles já esperavam por essa. Fui derrotado. Mais uma vez. O perseguidor.

Mas elas não se dão contam, parecem não perceber… 103 anos, desde a invenção do Ford T, não foram o suficiente para que o gênero feminino evoluísse na sutil arte de sair do carro. E é agora que nós entramos em ação. O cenário perfeito é um (mas um bom observador contorna qualquer cenário ruim): você vem descendo e ela, parada no sentido da subida, abre a porta e sai do carro. É nessa hora. Nessa hora que toda a cautela feminina vai pro inferno, nessa hora que ela bobeia, nessa hora em que ela abre as pernas e apeia à calçada. Nessa hora que, deslizando por debaixo do tecido da saia, as pernas nuas se revelam e, subindo as coxas, pouco a pouco, a parte interna da perna, que você quer beijar, beijar, e sobe, calmamente, pacificamente, é apenas um segundo, mas tudo é muito claro, cheio de significados, e ali está, polpuda, algodão ou sintética, tão simples e clara: a calcinha.

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