Category Archives: Capitalismo

Te faz mal e você tem que parar

O sino dobrou uma vez:

―Rafael.

And then twice.

―Rafael.

Went full screen e a internet não deu conta, travou e eu me vi no espelho do monitor.

And a third time:

―Rafael!

Não vou olhar.

Alguém me deu um tapinha no ombro e apontou pra trás com o polegar.

Tirei os fones de ouvido e fui até a sua mesa. Girava nervosamente a caneta, fechei um botão da camisa pra proteger o pescoço.

―Senta aí ― ele indicou a cadeira batendo a caneta na mesa ― Rafael, você terminou aquele trabalho sobre Angola?

―Sim. Te mandei por email. Você respondeu, inclusive.

―Sim, é verdade ― aprumou-se na cadeira, agarrou o mouse e clicou no desktop; não era praquilo que tinha me chamado. Ele quer saber por que eu to bêbado. Mas ele não pode provar nada, fazer uma pergunta dessas implicaria numa acusação grave demais. Eu estou sempre um paço à frente. Passo.

―Rafael ― ele não para de dizer meu nome ― Você parece desmotivado nas últimas semanas.

Ele é um filho da puta mesmo, não pode fazer nada e vai jogar pelas regras do jogo, fingindo ser meu amigo. Filho da puta. Se não fosse filho da puta não seria chefe. Mentira, ele é um cara legal até, apesar de gostar mais da empresa do que dos próprios filhos. Ele também ama a secretária mais do que a esposa.

Três vezes por semana.

17:35 na tela dele. Daqui uma hora e vintecinco minutos acaba o expediente ― sem contar que das 18h às 19h é a hora do jácabô e eu não faço nada além de cantar “tá chegando a hora” no chat do Facebook com o João, o que nos protege de trabalhar. Vinte e cinco minutos pro fim do expediente e eu não fiz nada a tarde toda, exceto por um email proustiano pra mim mesmo sobre bundinhas. Se ele joga pelas regras eu também jogo. Força, Rafael!

―Estou com uns problemas pessoais ― agora quem se apruma na cadeira sou eu, cruzo as pernas, os braços, com a mão toco minha têmpora esquerda, muito, muito dramático. Ele não pode fazer nada. Prossigo com a farsa ou já garanto os três pontos?

Escolho o caminho errado.

―Não é nada demais, é a minha namorada ― digo sem que ele tenha perguntado nada.

Merda, caguei. Estou falando demais.

Ele solta um suspiro, puxa a caneta. É agora, ele vai me fazer uma traqueostomia que eu sei.

―Rafael, você é um dos melhores funcionários da seção ― evidentemente isso não é um elogio, ele tem consciência de que a empresa contrata muito mal; esse RH é uma bosta, só vale pelas bundinhas; ah, tudo vale a pena pelas bundinhas ― Precisamos de você bem. Você precisa deixar os problemas pessoais fora da empresa.

―Beleza.

Ele não sabe o que responder; destruí o papo. Eu me seguro pra não rir. Consegui manter meu emprego.

Ele não pode fazer nada.

Ele não quer é pagar a recisão, esse filho da puta! Como se viesse do bolso dele, e não dum PSDBista bundudo perfumado.

―OK, Rafael ― que mania de falar meu nome, deve ter aprendido essa numa palestra de gestão de pessoas ― Volte ao trabalho. Qualquer problema pode vir conversar comigo, está bem?

―Beleza.

Levanto-me e saio direto pro banheiro. Antes de entrar no corredor ainda olho pra trás e tá lá meu monitor, bonito, telacheia do YouTube, o menino arrebentando, dá pra ouvir a gaita daqui. A TI se fodeu liberando essas merdas pra gente.

Vomito ou não vomito, pregunto encarando a privada. Já mijei, já dei descarga, mas não consigo me decidir se me ajoelho ou não pra vomitar. A preguiça de voltar pra minha mesa e enrolar é maior, então apoio as mãos nos joelhos e busco inspiração nos detritos de outras pessoas que a faxineira não foi capaz de eliminar. Meus olhos quase saltam das órbitas. Os azulejos do chão se levantam como cartas de baralho sopradas pelo vento.

Cansei da vida.

Vomito profusamente meu almoço: cerveja e azeitonas. O que me deu de comer tantazeitona? Limpo a boca com papel higiênico ― chega de falar merda por hoje. Solto uma risadinha pela piada e alguém bate na porta da cabine, é a polícia moral, proibido se divertir no emprego.

―Tá tudo bem aí?

-To bem.

Um caroço de azeitona repousa calmamente nas profundezas do meu lago de cerveja e suco gástrico.

Volto pra sala direto pro meu chefe:

―Podemos conversar rapidinho?

―Claro, Rafael. Diga.

―Quero me demitir. O que eu faço pra me demitir?

―Agora? ― ele foi pego de surpresa, mas está feliz ― Bom, você tem certeza? Você sabe que nós contamos com você.

Nós, nós, nós. Merda nenhuma de nós! Estou sozinho nessa merda!

―Certeza. Ando cansado, aborrecido, preciso fazer isso.

―OK ― no more Rafael for me ― Até quando você pode ficar com a gente?

Olho pro monitor dele:

―Até as 19h.

Acho que ele esperava uma semana ou coisa assim. Hoje, amanhã, depois de amanhã, tanto faz.

―OK, vou ligar pro RH e adiantar as coisas.

Volto pra minha mesa e tem mensagem do João no Facebook:

aaaaai aaai ai ai
taaa chegaaando a hora
o dia já vem
raiando meu bem

Vomitei agora

rs

Pedi demissão também

kk serio

Sério

fica ate quando

Até as 19h. Vamo tomar uma??

opa demoro

Agora é ouvir música e ver GIFs até a hora de bater o ponto e adeus, so long, até nunca mais, emprego.

Meu celular ali deitado na mesa, contando ele mesmo as horas que nos separam da liberdade. Ele também tem esperado um bom tempo. Ele também quer se divertir. Ele também deu uma melhorada depois de vomitar. Ele também beberia mais hoje. Não beberia mais hoje? Mas beber a bebida que só uma mulher pode proporcionar. Água na boca.

Levanto e chuto a cadeira do João. Tá vendo um GIF de galinha, o vagabundo…

―Então mano, aquela cerveja: miou. Vou sair, sair com uma mina ― to falando demais; ele tem a Sara no Facebook, olho seus contatos online, ela não está lá; pior que se estivesse; offline: o que os olhos não veem, meu coração sente; to paranoico; vacilo ― Não conta pra Sara, não conta pra ninguém.

―Take it easy.

―Bom, preciso correr.

―Corra ― ele diz, colocando um cigarro na boca (dois minutos pra bater o ponto, os funcionários são ótimos) ― e se precisar pular, você pula.

O Iago mora muito bem obrigado pois mora numa edícula nessa casa enorme bancada pelo senhor seu pai, engenheiro respeitado pelos seus avanços na manutenção da ordem vigente. Um verdadeiro visionário après la lettre. Talvez suas únicas qualidade sejam o uíque e o cigarro, que promove e protege como verdadeiros bens nacionais, com a mesma paixão com que defende o PSDB (vota no Serra de 2 em 2 anos) e o porte de armas (tem uma PT na gaveta do criado-mudo).

Estico a mão escangalhada e aperto a campainha. Ao contrário do filho, a mãe do Iago gosta de mim. Tiro até os óculos em respeito.

―Oi, Rafael! Nossa, o que aconteceu com a sua mão?

Levanto aquele rolo porco de gaze e sangue pisado, digo que não foi nada, só um cortezinho. Posso tomar uma água, pregunto descolando a camiseta suada do corpo.

Meu reino por um copo d’água, que quase morri do metrô praqui.

Sigo os degraus que levam à maravilhosa edícula de Iago, que está no banho. Só de entrar eu já quero fumar um cigarro. O prazer de fumar indoor só é superado pelo prazer de beber dirigindo. Que, por sua vez… deixa pra lá.

E eu tenho o apoio da oposição, já que desde que “aquela bicha do Kassab proibiu o cigarro”, o pai do Iago incentiva o fumo entre as visitas, deixando sempre dois maços de Marlboro (vermelho e light) casualmente jogados sobre a mesa de centro, ao lado do cinzeiro heráldico e do isqueiro (em forma de pistola). Aqui é clic, clac, bum!

Preserve a sua glória.

Acendo um careta mas saio pra varanda. Iago tem uma formidável varanda: um banco de madeira que dá de frente prum muro de uns 4 metros, obra do vizinho insensível que subiu as costas do sobrado dele nos limites legais da propriedade. Ele reclama, eu já acho simpático. E, além do mais, o cara tá no direito dele, né. Sensibilidade é subjetiva, as leis são objetivas. Vamos nos ater ao aqui e ao agora.

Sentado de cara pro muro vejo as linhas que avançam, ora mais rápidas, ora parecendo que vão parar. Inexoráveis porém, elas nunca param. Vão consumindo todo o tecido possível, comendo tudo que eu e a Sara vivemos nesses últimos cinco anos, elas limpam toda a culpa e toda a memória, lavam as alegrias e as dores. Tudo se torna pálido, indiferente. O movimento do esquecimento é implacável, dilui o tempo e as ações. Rumo à devastação total de todas as coisas, não perdoa nada. É frenético o ritmo da erosão, da inércia, do desgaste, da degeneração, da falência. Da combustão. As linhas queimam alaranjadas, descendo coordenadamente como uma auréola diabólica pelo lápis de cinzas que levo entre os dedos e então elas mordem!

No susto derrubei a guimba na barriga. Bato as mãos pra limpar a sujeira. Porra, fiz um buraco na minha camiseta do Bob Dylan.

Agarro o filtro e dou-lhe um piparote que o faz voar até o outro lado do muro (já sou especialista nesse arremesso).

―Vai tomar no cu cigarro do caralho.

Iago entra.

―E aí, mano.

-E aí.

―Li os textos. Fiz uns comentários.

Sigo-o para dentro do quarto. Ele é um grande filho da puta, imprimiu todos meus textos só pra poder me humilhar em papel. Senta-se na cadeira e me dá as costas como se fosse um professor.

―Queimei a porra da minha camiseta. Culpa do seu muro aí.

Ele se vira, olha pra minha camiseta, olha pra mim, volta pra escrivaninha e pregunta, sem interesse:

―Quem é?

Puta que pariu, quem é.

―É o David Bowie.

―O Bowie? ― ele diz “báui”, pra me desagradar que eu sei ― Pensei que ele fosse diferente.

―Ele é o camaleão, mano. Mas e aí, leu o textos?

―Li. Boa parte é lixo ― fecho os olhos e balanço pesarosamente a cabeça. Cagada mandar os textos pra ele, dar confiança presse filho da puta ― Algumas coisas se salvam. Você tem um estilo, mas ele é muito difuso. Você usa muito o gerúndio. Toda hora. Parece que traduziu do inglês umas partes. Olha isso ― ele puxa uma folha e lê ― “Mas você nasceu pra perder, não foi? Nasceu pra fracassar. Essa hora é a sua única hora”. Isso é inglês, carai! ― ele recita, improvisando um inglês ensaiado; deve bater punheta pensando em me foder ― “But you’re Born to lose, weren’t you? Born to fail. This hour is your only hour”.

Já estou com a mão na testa. Não vale a pena dar ideia presses tipo aí.

―Você acha que eu escrevi em inglês depois traduzi, é isso?

―O que você fez na mão?

―Machuquei numa garrafa, tava bebaço.

Estendo a mão, ele examina como se soubesse de alguma coisa, assim como fez com meus textos. Abre o curativo e vê aquela massa de sangue coagulado e carne cindida.

―Você lavou isso aí?

―Esterilizei.

―O texto é complexo até certo ponto, não sei se seu inglês daria conta. Mas as construções que você usa são da língua inglesa, isso é evidente. Eu digo que você escreve de certa forma… colonizada. Todas suas referências são inglesas, americanas.

―E você quer que eu faça o quê? Que cite Eça de Queiroz.

-Eça era português.

―Eça eu não sabia ― admito.

Pega um cigarro do meu maço, acende e diz, cruzando as pernas entre a fumaça:

―Os ventos do Norte não movem moinhos.

―Ah. Você quer que eu escreva sobre o Saci Pererê?

―Não, mas algo original, autêntico, nacional.

―Vou… vou escrever sobre um tatu-bola passeando no jardim.

―É uma boa ideia.

―É um plágio, isso sim.

―E olha esse títulos ― muda de assunto, perdendo a compostura e se debruçando sobre meus papéis; começa a recitar, com desdém ― “The freewheelin’ Rafael Z”, “Rafael runs the voodoo down”. Além de usar muitos títulos em inglês, que não querem dizer nada, você tem uma certa fixação por si mesmo.

―Egolatria.

―Não ― ele afasta a ideia junto com a fumaça ― é pior que isso. Você tem umas manias. E uns erros crônicos. Olha aqui: toda hora escreve “tramquilo”, “pregunta”, “uíque”. Tem que prestar atenção…

―Não são erros… ― murmuro.

―E que mais? ― ele ignora ― Ah, os trocadilhos! Melhor desistir dos trocadilhos. Olha esse verso ― levanta-se e limpa a garganta, declamando bem alto ― “Estou cheio até a garganta/ mas o vazio nada preenche/ sinto uma azia na Augusta/ sinto uma angústia”. Cara, isso é muito ruim! E eu já falei pra você parar de comer naquele restaurante chin-

―Japonês.

―Japonês? Com comida quente?

―Japonês também come comida quente.

―Enfim, que seja. Chinês, japonês, indiano, o fato é que te faz mal, você tem que parar.

―Bom, dá uma olhada aí ― ele me entrega umas vinte páginas de textos meus, todas canetadas em vermelho ― Tem alguns bons momentos, apesar de tudo. Vou pegar uma cerveja pra gente.

Agradeço entre os dentes e mordo o cigarro que pula do maço. Sento na varanda e vou folheando os textos enquanto fumo. Boa coisa que Iago não sabe absolutamente nada sobre Bob Dylan. Elogia todas as citações que faço.

Puxa uma flecha e escreve “Grande frase” (Visions of Johanna); “Boa sacada” (Subterranean Homesick Blues); “Ótimo” (It’s All Over Now, Baby Blue); a lista continua, Spanish Harlem Incidente, Isis, I’ll Be Your Baby Tonight ao vivo, Day of the Locust etc.

Ele chega a ter um olho clínico, já que elogia todas as frases do Bob Dylan.

Nossa, graças a Deus ele não conhece Bob Dylan.

Nossa, graças a Deus ele voltou com a cerveja.

―Viu? Pela leitura que fiz não acho que seja a hora de você largar seu emprego.

―Larguei o trampo ontem, pedi demissão ― abro a tampinha no antebraço e dou um gole ― Ou você acha que eu to trabalhando agora, aqui, plena sexta-feira na sua casa, de óculos escuros bermuda e chinelo?

Ele balança a cabeça; compreende tudo, o Tiago.

―É verdade. Não tinha percebido. É que esse horário flexível meu às vezes me faz perder noção do tempo.

Ele diz horário flexível, eu digo vagabundo.

―É. Pedi as contas.

―Tem alguma coisa em mente? ― ele me oferece um cigarro meu.

Olho por baixo das sobrancelhas:

―Já to fumando, caralho… E eu ter algo em mente? Tenho merda nenhuma. Ou você acha que se tivesse eu viria pra cá? Vou deixar o ano virar. 2012 eu vejo.

―Torcendo pro mundo acabar, né?

―Vamos ver quem acaba primeiro…

―Típico de você ― teatral ― Eu, infelizmente, não poderei lhe acompanhar e assessorar nessas suas férias forçadas. Dia 23 pego um avião e vou pra Banda Oriental. Pode ser bom pra minha tese.

―Montevidéu?

―Punta del Este, mas acho que vou passar en Montevideo ― diz com afetação.

―Punta vai ser boa pra sua tese, é isso? Ouvi dizer que as praias são muito boas, sem contar os cassinos. E tem aquela escultura da mão também, claro.

―Fiz uns contatos en Montevideo.

Claro que fez, digitou “Uruguai” no Google.

―Talvez dê uma esticada pra Buenos Aires, visitar a Bib-

―Então a Luiza tá solteira a partir do dia… 23, é isso? Quando você volta?

―Volto dia 2 ― ele sorri ― E até lá quem tá solteiro sou eu, isso sim.

Sim, mil minas.

―Pega mais uma pra nóis lá, faz favor.

Será que ele trai a Luiza? Não deveria, é uma gatinha. Eu mesmo tenho mil motivos pra trair a Sara e nunca traí ― é… nunca. Acho mancada com a Luiza. Ela parece ser boazinha. Conheço pouco, na verdade. É uma gracinha, tem os ombros ossudinhos assim. Vi algumas vezes só, na verdade. Tenho curiosidade de vê-la pelada. Uma vez eu a encoxei. E ela gostou.

Ele volta com a cerveja, decidimos nadar, aproveitar antes que o sol se acabe.

―Mempresta uma bermuda aí.

Repouso o cigarro nas minhas Havaianas encardidas, coloco a cerveja no chão, tiro a camiseta por cima dos óculos, estico bem os braços, pra um lado, pro outro.

Dou uma longa tragada, bato as cinzas e mordo o cigarro. Uma água vai me fazer bem. Vou correndo e pulo.

―Mrd ― braço pra cima salvo a mão enfaixada, mas a cabeça dentro dágua tssss.

Passei em casa pra pegar o carro, achei que seria mais romântico (quem sabe um bolinha).

It’s been a long, long time comin’

O farol abriu, mas esqueci de pôr o carro em marcha.

Estacionei na Luis Coelho e surpreendi a Rita pelas costas na esquina da Antonio Carlos com a Augusta toquei-lhe as costelas ela se virou e me deu um abraço fiquei com medo de encontrar algum conhecido na Augusta. Era medo, vergonha, covardia, o básico. Firmão, que nem um prego na areia. Desviei o caminho na Matias pra pegar a Frei Caneca, o que na prática dava na mesma. Na esquina tive certeza de ver uma amiga da Sara sentada no bar, dois copos, bolsa no ombro da cadeira vazia. Baixei os olhos, vamos, acelerei o passo, não olhei uma segunda vez pra me certificar. Me olhavam as sombras, os carros, as janelas dos prédios. Arrastando a Rita, que falava sozinha desde que nos encontramos:

―Ela disse “Ringo”, você acredita? Ringo!

―Ringo é uma merda, você ta mal de amigos, pare de andar com ela; escuta: você tem cigarro aí?

Não, ela disse, com um sorriso lindo, deixando entrever os dentes bonitos, os lábios, seus lábios, ela queria falar mais. Fecha a matraca e deixa o homem pensar: OK, vê se paga pra entrar que eu vou buscar ali no bar. Desci pela rua, contornando o mar de gente que se formava na esquina e, aqui no canto do meu olho direito brilhou parado no farol o carro conhecido, aquele Ka vermelho sujo. Um cara ao volante, a barba loira. É? Corri pro meio dos gays que se aglomeravam bebendo em pé, pulei atrás dum cara. Fiquei quase agachado tentando ver quem era o maluco do carro. Conheço esse mal-

―Tá fugindo, amiga?

―Escondendo da minha namorada.

―Ah, já fiz muito isso, logo passa.

O farol abriu e quando a ameaça tinha já cruzado a rua eu me despedi dos senhores, entrei no bar e comprei um maço de Marlboro Light. Voltei e entramos. Pedimos uma cerveja e sentamos aos pés da “Noite estrelada”, versão Albert Richards. Brindamos:

―A mim ― eu disse entre os dentes, ela não ouviu.

Bebemos em silêncio, eu não conseguia dar atenção pra Rita. Caralho, larguei o emprego e ninguém sabe. Nem a Sara, nem meus pais. Precisava tirar aquilo de mim.

Uma cerveja pra ajudar.

Ela estava usando saia jeans de um azul frio e blusa branca de alcinha que deixava as costas à mostra. Ela não sabe que eu não gosto de saia jeans? De qualquer forma era curta o bastante para que eu filmasse cada pelinho das suas coxas, subindo o olhar acompanhando os tendões, os músculos das pernas quando ela se ajeitava na cadeira cruzando as pernas, depois descendo de volta, o joelhinho, as canelas e os tornozelos (ah, os tornozelos) até a sandália de tiras de couro, os pezinhos e as unhas pintadas, cinzas. Ela não sabe que eu não gosto de unhas pintadas? Mas OK, abro uma exceção. O sutiã era de bojo, a alça era lilás com debruns pretos. Ela se vestiu pra me ver, eu sei; mas vou confirmar. Falei que era mais fácil pedir direto no balcão. Ela baixou a cabeça pra pegar a comanda na bolsa (essa mania de ficar com a bolsa no colo), estava de brincos (essa mania de usar brincos). Já olhando pra trás foi se levantando e a perna esquerda trai a direita, aberta demais, a calcinha, já imaginava os debruns pretos muito colados na pele suave, eu quase babando imaginando os pelos, pelos, por trás daquela polpa de algodão lilás, se bem que eu sou capaz de morrer se deslizar meus dedos pra dentro de uma calcinha e encontrar uma depiladinha. Meu Deus, me ajuda nessa hora. Ela andava e eu via suas costas, os ombros delicados, vontade de pular por cima da mesa e agarrá-la por trás.

Veio de combinação, quer dar.

Eu amava as costas dos seus joelhos, queria beijá-las. E se estivessem um pouco suadas, uhm, tanto melhor. Entre a saia e a blusa, uma faixa de pele se revelava, aquilo me deixava louco, agora sim, meter o pé na cadeira, dar um pulo, cair na cabriola e agarrá-la pela bunda, beijar-lhe as costas, subindo, subindo pela sua coluna, as mãos agarrando seus peitos, depois descendo pelo ventre, eu de joelhos agora, a cara na sua bunda.

Enfiar minha cara no meio das suas pernas e usar essa mina de óculos. Babava.

Um 69 seria perfeito.

Ela voltou com a cerveja e já quando servia os copos eu mandei:

―Combinando calcinha e sutiã, hein. Vai ver você gosta mesmo de mim.

Ela sorriu com tanta malícia que começou a tocar Jorge Bem. Vai ver ela já sabia que eu era um tarado profissional.

Alguma coisa me impedia de chegar mais a ela, tocar seu braço, suas coxas. Eu cobiçava cada pedacinho da sua pele à mostra ― e não era pouca ― mas tinha uma trava. Precisava beber. E bebi, bebemos.

Convém descer pra pista.

―Cuidado com a cabeça, gatinha.

A euforia não veio, havia algo de podre, fiquei bêbado, bebaço. Como uma menina faz uma coisa dessas com o namorado? Quem era aquele cara no carro? Que coisa de filho da puta. E eu queria o que, segurando seu quadril aqui, aonde vamos? Dá pra namorar uma mina dessas? Mas agora eu quero casar com todo mundo? Foda-se, só eu fico mal nessa história?

Não conseguia mais fechar os olhos, a Rita já vacilava o ritmo. Fui de encontro a ela, ficou na ponta dos pés e seus seios tocavam meu peito, nossas virilhas se colaram, cheguei a boca perto da sua orelha, inspirei frio, ela me envolvia.

―Você gosta disso?

Desceu as mãos da minha espádua pra minha cintura, um abraço triste agora. Afastou a boceta, deitou a cabeça no meu ombro, olhando pra fora. Virou devagarzinho assim raspando o nariz no meu ombro. Olhos fechados, falou:

―É só assim ― tomou mais ar; estava bêbada, triste também ― que eu me sinto bem.

―Fazendo isso?

Balançou a cabeça, apoiou a cabeça no meu ombro de novo, o globo girando, pontinhos vermelhos nas paredes.

As coisas são uma merda.

Nos soltamos, aquilo arrasava. Busquei uma cerveja. Como que por querer bati a garrafa na mesa e seu vidro se partiu em dois, formando uma lâmina que sulcou a palma da minha mão como um arado doido.

A cerveja caía aos borbotões pelas frestas entre as tábuas de madeira e se derramava no chão de cimento. 600 ml pro saco.

O sangue, que também era bastante, vazava dessa nova linha da minha mão e corria em fio pelo meu antebraço, gotas no meu cotovelo. Da minha mão olhei pra Rita, e pela cara dela a coisa era séria. Estendi a mão pra pedir um pano e desenhei um semicírculo no chão. Na minha palma inquieta se formava uma poça vermelha e violenta. Pensei que poderia desmaiar porque perdia muito sangue, pensei na palavra hemorragia, pensei que ia melar o câmbio do meu carro, pensei que minha camiseta era branca, pensei que era igual comer macarrão. Pelo menos não vou trabalhar amanhã.

Bater punheta vai ser uma merda.

De todos os presentes, porém, acredito que eu era quem levava a situação mais na boa, seguido bem de longe pelo rapaz do bar que, verdadeiramente preocupado, queria parar um táxi pra me levar pro pronto socorro.

―Cesnumtem… ― pensei band-aid ― gaze?

Como eu ia conseguir comer a Rita desse jeito?

Enrolavam minha mão e o sangue empapava a gaze ― Acho que você vai ter que tomar ponto ― pensei que tudo tinha ido pro buraco. Meu emprego, meu namoro, a Rita. Tudo que eu tenho é essa mão fodida agora.

Perguntei se não seria muito incômodo continuar a beber (na minha cabeça eu precisava repor líquido) (além de querer beber mesmo).

Bebia com os cotovelos sobre a mesa, olhando o fundo amarelo do copo, a Rita do outro lado da mesa me olhando com carinho, como se eu fosse um cãozinho com a pata quebrada. Ninguém falava nada.

―Sabe o que é isso? ― perguntei apontando pra música ― É Paul McCartney.

―Sério que isso é Paul?

―Sério, vamos embora?

Peguei o carro, conseguia dirigir tranquilamente, apesar da mão; trocava a marcha na força dos dedos sujos. Que bom que não vou trabalhar amanhã. Liguei o som e continuamos em silêncio, rumando quietinhos pra casa da Rita.

Era triste.

Já chegava à rua dela quando Otis começou a assoviar. Ela se virou no banco, esticou o braço e pousou a mão no meu peito, deslizando o dedo por debaixo do cinto de segurança.

Parei em frente ao portão e desliguei o carro. Ficamos na mesma posição, como dois bonecos frouxos, sentados no escuro. Esperando alguma coisa acontecer.

Parece que foram uns 15 minutos, não sei, de rabo de olho tentava ver. Não via. Ela tomou coragem ― eu nunca tomaria coragem de nada ― e disse que precisava ir. Inclinou-se em minha direção, nos beijamos. Com a mão esquerda agarrei seu ombro que a noite toca cobicei, rocei o curativo no seu braço que, ainda esticado, deixava a mão ali no meu peito.

Foi embora.

Em casa me olhei no espelho, estava imprestável. Os olhos inchados de chorar, o rosto sujo de sangue seco. Peguei um copo entre os dedos e abri a garrafa de Jim Beam, me servi. Voltei pro banheiro, a única luz acesa em casa. Sentei na privada, resolvi abrir o curativo. O sangue voltou a andar; inclinei o corpo pra frente, os cotovelos nos joelhos. O sangue pingava grosso no tapete e os fios absorviam aquele vermelho, formando flores de sangue.

Com o curativo ainda aberto estendi a mão sobre a pia e joguei uíque na ferida, que a fez arder violentamente. Pensei que estava bom. Segurei o fogo na mão, com a esquerda me servi mais um pouco. Pensei ouvir passos.

Não escovei os dentes.

Advertisements

3 Comments

Filed under Beatles, Bunda, Capitalismo, Duplo sentido, Mulheres gostosas, Seres Humanos Reprováveis, Zimmerman

Monopólio do mal

Por um instante desejei que ela estivesse morta.  Eu não poderia ser incriminado, com Deus do meu lado. E o caminho aberto. Entrei no quarto e ela estava morta, eu diria. Choraria, com sinceridade, e ficaria com os livros do Kawabata, as obras completas do Borges, aquele “Angústia” lindo que ela encontrou na barraquinha da Letras. De óculos escuros, poria até minha gravata preta; alguém ainda fica de luto? E outra, estaria mó calor, não faria sentido. Óculos escuros e uma camiseta preta, lisa, estamos bem. Eu poderia escrever algo, poderia ser o gatilho a disparar algo grande! Não, nada sentimental. Algo terrível, horrível. Pseudônimo. Rafael, Ricardo, Renato, Ronaldo, Roberto. Z, tem que ter o Z. RZ; é muito óbvio. Tudo é muito óbvio, Rafael. Entrei no quarto e ela estava no banheiro. Pode ter morrido no banheiro.

Ficamos na torcida.

Um brilho, forte, leve, fugaz, pisca o LED. Seu celular. Quanto tempo? Tratando de obsessões, perco a noção. Os acontecimentos parecem todos logo atrás de mim, empilhando-se às minhas costas, prestes a desabar. Não sei quanto tempo, mas não suporto esse seu celular. Tenho ganas de pular por cima da cama, agarrar o aparelho na mão e devassar tudo, tudo, ligações recebidas, feitas, perdidas, mensagens, rascunhos, contatos, fotos, nada, nada vai me escapar; nada pode me escapar! Ela pensa que pode esconder algo de mim. Só tem lugar para um vilão aqui, e este sou eu. Detenho o monopólio do mal. Essa frase foi boa, poderia usar em algum lugar. Não! Não agora! Ao celular! Pulo por cima da cama esticando os braços com sofreguidão tentando alcançar a cômoda e cléc, abre o trinco do banheiro, giro no meu corpo, deito like one of your french girls.

Ela me olha ainda debaixo do batente e começou a tirar a blusa, dançando, cheia de maldade. Eu avanço, como um gato!

Ninguém vai esconder nada, Rafael prevalecerá.

Montado nela, da forma mais convencida que podia; prazer, eu sou um gato; agora, cuidado, estamos do mesmo lado; joguei seus braços pra cima, desci raspando a barba em seu pescoço, beijei seus peitinhos, mordi seus mamilos, abracei-a com força, passei os lábios por suas costelas, sua barriga, seu ventre, puxei seus shorts, divisando o começo dos seus pêlos. Abri os olhos e ela segurava meus cabelos e me observava sorrindo.

O sol brilhava pela janela entreaberta:

―Coloca um biquíni, vamos levar o molequinho pra praia antes que fique tarde.

Sentei na cama, ela levantou, encontrou o biquíni, tirou os shorts, a calcinha, fiquei olhando aquela bundinha indo de lá pra cá, olhando pra mim como se eu não fosse fazer nada. Vai pensando, vai pensando, bundinha. Quando ela levantou o pé para colocar o biquíni ― aí, quando ela se fez mais vulnerável ―, aí sim era a hora. Agarrei-a pelas costas, descendo a mão pelo seu corpo, joguei-a com a bunda pra cima na cama, subi desde os tornozelos, beijando as costas dos joelhos, as coxas, mordi a bundinha, abri bem suas pernas e lambi com carinho o seu cu. Ahhh…

Sentei-me, pousei a latinha no chão, peguei um punhado de areia e disse: Sabe de onde veio a areia? Ele fez que não. A areia era antes pedra, pedra como aquelas pedras ali, como aquela pedra enorme ali que nem uma pedra parece, de tão grande; então a água bateu na pedra, bateu e bateu por muito tempo ― imagina quanto tempo leva pra uma pedra daquele tamanho virar uma pedra pequenininha e depois de tão pequenininha ir se esfarelando até se tornar um grão de areia, tão pequenininho que nem pedra parece; tudo isso pela força do mar, pelas ondas que vão e vem sem parar sem um segundo de trégua. E isso acontece desde muito tempo e vai continuar acontecendo, até que tudo vire pó.

No topo de tudo, oferendas e sacrifícios, brilham as horas: 22:53. Estava eu como uma pedrinha bem assentada, que fica parada, quietinha, observando os pés, os kickflips, a garrafa de Skyy, o travesti, a bicicleta do Olafur, essa desordem, pequeno caos que se repete toda semana até que um chute faz a pedrinha rolar, pular, pegar velocidade e começa a descer a rua.

Meu celular toca, não é ela:

―Tiago, to indo pro Charm, meet me there. Falou. I hear them talk as I walk, yes I hear them talk. I hear they say: Expect the final blast!

Hoje as coisas serão diferentes, hoje tudo muda:

―Me vê uma, não. Duas cervejas!

A-ha, o destino me sorri e aí vem Iago, sem um sorriso, uma má vontade do caralho.

―Tiago. Ta feliz? ― sirvo-lhe um copo de cerveja, cerveja pois temos muitas coisas a fazer nesta noite. A primeira é arranjar alguma coisa a fazer. Mas antes disso: beber; e é isso que fazemos.

―Você e essa merda de lugar, não dá nem pra sentar. Você tem um cigarro aí? ― passo-lhe o maço ― Vamos terminar essa e vamos descer, não aguento esse bar.

Esse bar, esse bar que tantas alegrias já nos serviu em seus copos americanos, em seus pratos transparentes, em seu porão sufocante, em seu banheiro abarrotado. Opa, calma.

Silêncio. Com os olhos perscruto o público do Charm. Sempre uma nova leva da mesma coisa: gatinhas, engravatados que se demoram, rapazes de barba e camisa xadrez (nesse calor) e um casal chama minha atenção: ele chega, enorme, espichado, magrelo, desajeitado, barba preta desgrenhada, parece o Gonzaguinha, mas gay, curva-se para frente e beija os lábios de uma gordinha, aqueles braços brancos, enormes, dois pães Pullman, saindo um de cada manga da blusa, o horror, o horror. Gonzagay e Gordelixo, o casal perfeito: esses vão levar a humanidade longe.

O Charm não vai virar nada não nada mesmo puta que pariu será que vamos viver essa merda toda novamente? Não, hoje, não; não, nem agora.

Dali já se pode ver o enxame na esquina, meninas de meia-arrastão, moleques de bandana na cabeça, caras gays, minas gatinhas, tudo misturado, como se tivesse sido comido com muita, muita bebida e depois vomitado, sem controle, mirando a borda e acertando a rua.

E assim continuamos descendo, rolando rumo ao início do início do início de nossas vidas. Só promessas. Nesse meio tempo a gente bebe e faz merda. Nossos pais passaram por isso, eu me perguntava olhando pra sarjeta cheia de guimbas, latas e cacos de vidro. E se ela agora fosse a mãe dos meus filhos? É assim que a vida se desenrola, é assim que a vida se desenrolou para os meus pais e para os pais dos meus pais? Um vai-e-vem sem fim, tateando bêbados em meio a essa neblina de passado e presente e futuro como se tudo fosse agora, como se agora finalmente fossemos começar o começo do começo de nossas vidas e, num flash, tudo iria se cristalizar, se amalgamar e diríamos aos nossos filhos bem, foi isso assim que aconteceu, conheci sua mãe por puro acaso e depois de namorar nós nos casamos e ela cortaria dizendo que não foi bem assim, que você tinha aquela sua namorada, lembra, você tinha uma namorada quando nos conhecemos e eu também então nós nos conhecemos imaginem os dois namorando então depois de um tempinho despachamos os respectivos e começamos a namorar agora eu e o pai de vocês e essa história que passa como um detalhe, duas três palavras, um segundo entre os seus pais se conhecerem e começarem a namorar esse segundo, perdido na eternidade do tempo, é dividido em horas dias meses e principalmente em noites sujas como esta, esqueci de jantar e já to meio bêbado sem querer saber mais quem era a quem, esgueirando-me agora na esquina da Fernando Albuquerque, abaixando o olhar para não ver nem ser visto por nada nem ninguém pois ali vai um conhecido; ali alguém que estudou comigo na faculdade; ex-colega de trabalho; meu primeiro amor; um primo que não vejo faz tempo. E não vai ser hoje nem aqui que vou vê-lo.

Coloco um cigarro na boca de passo olhando os tênis ― Adidas, Nike, Vans, Converse, babaca de Croc ― na esperança de não ser reconhecido.

―Rafael! ― alguém diz e eu gelo. Não é comigo. Passa um cachorro. Obrigado, Deus, você é foda.

Na subida, lá está: o Aquário. Colo a cara no vidro e olho pra dentro. Vejo (e finjo ver) amores, novos e antigos, que passam por mim, acompanhadas ou fingindo não me ver. Todas fora do meu alcance. A menina com cara de brava da faculdade, a prima gatinha de uma amiga minha. Rodo os olhos procurando por ela.

―Merda.

Checo o celular. Nada. Atravesso a rua entre os carros e sento com Iago, que já pediu uma cerveja e tá fumando um dos meus cigarros. Filho da puta ficou com meu maço e ela que não liga?

Então vem como uma assombração, desliza por mim como se eu não existisse, olhando sempre pra frente. A pele como seda, o rosto fino, o corpo magro, ela passa, os peitinhos pequenos soltos na blusa, anda olhando obstinadamente para frente (para frente! Para frente!), para além, as sobrancelhas grossas, o cabelo preto. Discuti com o Autor os pormenores e não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-la de perfeita.

―Dá essa merda de isqueiro.

Acendo o cigarro e fico a observá-la subindo a rua, os passos decididos de quem tem algum lugar pra ir e alguém pra encontrar. Me deixa lá humilhado. Maquino frases na cabeça e acho melhor anotar para não esquecer. Saco o celular ― nada ― e anoto: “Encontro novos e velhos possíveis amores que passam por mim como se eu não existisse”.

Checo as mensagens. Nada. Estou ficando louco.

À procura
giro meus olhos
pela rua

Olho pra trás e ela está lá, debaixo do guarda-sol, lendo um livro, o celular no colo. Deito a cabeça na areia, meio bêbado, o centro do universo são estes meus dois olhos, ao redor dos quais giram todo o mundo, a areia, as montanhas, o ar; o mar é uma linha no horizonte oscilando de um lado pro outro. Que horas são? O molequinho vem avisar que é meio-dia, sabe pela sombra. Maluco, você é esperto demais!

―Aprendi na escolinha! É hora do almoço.

Sim, as sombras; e sim, nós vamos pra casa.

Sim, se sim, vamos. Se não, ficamos aqui.

―E aí, vamo? ― estendo a mão.

―Vamos! ― ela fecha o livro, põe-se em pé e me dá um beijo.

Rasgar aquele livro no meio, arrebentar o celular no asfalto, mas, não, mantenho os bons modos.

― Você tá bêbado, num tá?

―To bêbado.

―Eu to meio alegrinho não vou ser hipócrita.

―Eu to puto.

―Por quê?

―São vários motivos. Porque a porra da minha namorada foi pra praia com a “galera do colégio” (usei aspas aqui) e porque a merda da Rita (Rita é o nome dela) não me liga, mano. Não liga!

―Rita, Rita é a mina que você foi almoçar outro dia? Você pegou ou não pegou essa mina afinal?

―Eu, pegar mina? Prefiro morrér a pegar uma mina de primeira.

―É verdade, você tem certas idiossincrasias que coincidem com aquele comportamento muitas vezes classificado como homossexual.

(Ele fez um itálico, juro) (E continua:)

―Mas caralho, vocês não tinham ido à praia semana passada?

―Isso, isso aí. E agora ela foi com os amigos dela. É tudo que um namorado quer.

―Você não queria terminar?

―OK, isso também. Mas essa não é a questão cara-

―Qual a questão?

―A questão é quem saca primeiro. Isso aqui é o faroeste, cara – ou “far west”, como diriam nossos antepassados-

―Os antepassados deles, você quer dizer.

―Deles, nossos, isso. O negócio é matar ou morrer.

―E você quer matar sua mina?

―De desgosto, preferivelmente ― peguei o copo e dei um gole; não tinha nada ― Vê-me mais uma Brahma, amigo. – pro Iago agora – “Vê-me”, li isso num escritor uruguaio e sempre quis usar.

―Escritor uruguaio? Quem?

Fiz gestos vagos, desenhando círculos com os dedos. Vai se foder.

―Você não conhece ― chegou a cerveja ― Obrigado, amigo.

Algaravia, barulho, saias, triste Bahia transbordando do outro lado da Augusta. O vento confuso sopra em todas as direções, contra as paredes dos prédios, contra os carros na rua, contra si mesmo.

Tiago, ele olha com desdém, já nem se importa mais Vou fazer uma lista; amigo, tem papel e um lápis pra emprestar? Opa, brigado. Aqui, vejamos, sopesemos [com afetação]. Minha mina, Rita. Minha mina, a vantagem dela é que ela é bonitinha, não? Sim, gracinha, impressionante ela estar com você todo esse tempo. Duvido que você vá arranjar coisa melhor. OK, gracinha, [anoto] e loirinha também, né? Tem esse fetiche [anoto]. Você anotaria se ela fosse negra? Sim, claro, é um fetiche, tudo é fetiche. Se tudo é fetiche então nada é fetiche. É, sei lá, foda-se; Rita, Rita é uma gracinha também [anoto] e moreninha [anoto]. Difícil ver aonde você quer chegar. Eu quero chegar, é, OK, não faz muito sentido ainda, vamos às diferenças que realmente importam: minha mina tem uma bundinha pequenininha [anoto], enquanto Rita tem uma bunda maior, mais preza [anoto]. Você não disse que ela tinha uma “bundinha”? foi essa palavra que você usou. Porra, acredita que eu não lembro? Faz tempo que não a vejo, estou ficando louco, não consigo me recordar dela direito, tenho apenas impressões. Não me lembro se ela tem peitos grandes ou pequenos, lembro que vidrei nas pernas dela, nas coxas, a bunda eu adorei – isso eu nunca senti pela minha mina – certeza é que a Rita é mais fornida que ela. Não é você que ama minas magrelas? São os mistérios do coração. Magrelinha / Fornida [anoto]. Isso não está ficando muito bom. Ele nem se dá ao trabalho de comentar. Vai, então, predicados intelectuais: mina mina fala um ótimo inglês [anoto], mas a Rita fala francês; pelo menos eu acho. Como você acha? Ela disse Camus do jeito mais lindo. Camus, ele diz, numa pronúncia afetada, claramente tentando estragar minha recordação. Não, foi bem melhor que isso, você não sabe francês. Nem você! Mas a Rita sabe, ponto pra ela [anoto]. Minha mina não é muito boa pra interpretar as coisas; ela não entendeu “A Invenção de Morel”, veio me perguntar se ele tava vivo ou morto, credita? Ah, mas isso é discutível. Você sempre defende essas más interpretações! Só porque te deram esse nome desgraçado você acha que tudo tem dois lados; interpreta mal os textos [anoto]. E a Rita, interpreta bem? Não sei. Se bem que ela comentou do Mia Couto. Sua mina também lê Mia Couto. Lê, lê, que merda, bom, nem tudo é perfeito. Vamos ficar com o que temos, repassando:

Minha mina               Rita
gracinha                    gracinha
loirinha                      moreninha
bundinha                   mais preza
magrelinha                fornida
good english             french girl
interpreta mal           no ló sé
Mia Couto                  Mia Couto

Adiciono (Camus) à lista da Rita.

―É, acho que isso não ajudou muito.

―Você não larga desse celular, hein?

―Que tem? Não posso deixar no chão, a areia vai riscar a tela ― ela pára, pensa e volta, com raiva ―E que tem eu ficar com o celular? Você implica com tudo que eu faço! Se não ando com celular, reclama que eu não atendo. Se fico com ele na mão, reclama que eu não largo dele. Que saco!

―Não sei, só que você vive nesse celular. Nem dá bola pra mim.

―Você tava brincando com ele! Eu tava lendo! ― ela enfatiza as frases com uma raiva cada vez mais desesperada; seus olhos se enchem de lágrimas ― Não posso fazer nada que você reclama!

Fico de pau duro.

―Tá, calma, desculpa. Não fica triste, to só enchendo o saco.

Ela passa a mão nos olhos, me abraça e diz:

―Tá, mas não fala assim, eu não gosto.

―OK, desculpa.

O cara é branco e tem olhos azuis. Podem me chamar de racista, mas eu esperava mais de um moçambicano. Sem contar que fico enjoado de vê-lo vomitar esses trocadilhos babacas. O filho da puta é um Humberto Gessinger em texto corrido.

Como ela consegue ler essa merda? Como ela consegue ler essa merda tranquilamente, sem olhares furtivos, sem suar as mãos, sem tentar esconder o celular, sem o medo de ser pega no flagra, sem ter de se controlar cada segundo pra esconder sua secreta traição.

Como ela consegue? Seu cabelo agora parece explodir por todos os lados, como o sol que se reflete no mar e tinge tudo de dourado. O dia se encaminha para um fim.

Ainda agora vejo-a como da primeira vez, com os cabelos pelos ombros,  os óculos (por que você abandonou os óculos?), você chamou Faulkner de Falklands. Somos jovens, estamos aprendendo.

Largo-me na areia e observo o azul do céu. O vento sopra e as nuvens se movem cada vez mais rapidamente em revoluções que fazem meu coração acelerar. Logo o tempo fecha e tudo vira sombras.

O que te fez fazer me fazer isso com você?

Firme que nem um prego na areia. Triste São Paulo, já cansei de você, precisamos fazer alguma coisa a respeito. Giro meu celular na mesa molhada; ainda tem cerveja; 25 anos pelo ralo.

―Foda é ficar sozinho.

―Se o problema é companhia, compra um cachorro.

―Que cachorro, odeio cachorro! Cachorro. Um cachorro agora só pioraria as coisas… fazer o que da vida… cara… meu irmão, mano.

―Seu irmão o quê?

―Meu irmão, ele é mais novo que eu, tem emprego, mulher, filho. Ele comprou um carro! Comprou! Com dinheiro! Eu não tenho nada; cada vez menos, aliás. Sou uma criança perto dele.

―Porra, mas… emprego você também tem.

―Eu tenho! E é uma merda! Cacete, outro dia, mano: pessoal queria saber se a Argentina fazia parte da América Latina! – mudando de tom, agora mais sombrio – Se o Japão era da Oceania. Oceania! Meu chefe disse que era da Oceania! – melancólico – Eu preciso sair dessa porra, cara – triunfante – Preciso mostrar o meu melhor!

―Tipo bater punheta na varanda.

―Isso foi uma vez e eu falei que tava calor e eram sei lá duas da manhã não tinha ninguém acordado… ó, vai se foder.

Rimos um pouco, mas sem muita convicção; os olhos embotados, vendo o fundo do copo pensei que vida ridícula essa afinal. Meus pais, eu pensei, meu pais viveram essa merda, meu pai batia punheta na varanda.

Nossa, não, Rafael.

―E essa mina-

―A Rita, Rita é o nome dela.

―Ela tem namorado?

―Claro, óbvio; vamos fumar um cigarro.

―Você tá fumão hoje, hein. Sabe o que Freud diria sobre isso…

―Sei, que somos chupadores de pinto; pega essa merda ― passo-lhe o maço.

Você não sabe, você não sabe o ciúme que eu sinto daquela merda de celular. Aquele toque – é um toque padrão trinininim ― faz subir um calafrio pela minha espinha e eu começo a rodar na cabeça a cara de todos os filhos das putas que ela conhece, um por um, quem será quem será. Você acha que ela faria alguma coisa, mano? Você acha que ela seria filha da puta dessa forma? Eu acho que, geralmente, não; mas como eu ando só fazendo merda ― faz uns dois meses que eu mordo a bunda dela pensando na bunda da Rita, ah, Ritinha, meu amor, andando na ponta dos pés, as batatas da perna na calça leggin, as coxas se insinuando pelo vestido, aquela malícia mostrando a boca entreaberta num sorriso sem vergonha, ela tem namorado, ela tem namorado, sabia? Ela me manda mensagens e ela tem namorado.

―A ironia da vida é foda ― ele fala com a voz cheia de fumaça ― Mas então vocês trocam mensagens? Que filho da puta que você é.

―Filha da puta é essa mina, que acabou com a minha vida.

―Que tipo de mensagens?

―O tipo de mensagem que eu tenho que apagar. Se ver ela me mata. Pior que pego a porra do celular dela e não tem nada, cara, nada de suspeito! Nada, nunca! Filha da puta! Nem email, Facebook, bosta nenhuma! Fico puto! Certeza, cara.

―Certeza o quê?

―Que ela tá escondendo alguma coisa.

―Mas ela não tem nada! – ele diz, esticando os ombros.

Você tenta encobertar alguém? Ele faria isso? Não, não, estou bêbado.

―Exatamente. É muito suspeito não ter nada suspeito.

―Isso não faz sentido.

De que lado você está?

―Claro que faz! Eu não tenho nada suspeito. Eu! Eu só faço merda! Não sei até que ponto ela é tão esperta quanto eu. Não deve ser. Ninguém é melhor que eu-

Ele ri.

―Ninguém é melhor que eu nessas merdas. Em ser um filho da puta profissional. Logo, eu deveria ter encontrado alguma coisa, ela deveria ter pisado fora da linha já! Não há nada mais suspeito que estar acima de qualquer suspeita.

Meus olhos se nublaram, entrei no mar e larguei meu corpo à deriva. Pelas lentes dos óculos o céu parecia mais escuro. Pensava esses pensamentos óbvios. Fechei os olhos, indo de lá pra cá no oceano Atlântico, ao gosto do vendo e das ondas, a chuva que não para em São Bernardo, o céu se avolumando, revoluções e trovões, as árvores perto da linha do trem tremendo como vassouras, a molecada correndo desesperada na rua de paralelepípedo, na calçada arrebentada, os pés descalços, eu alheio a tudo, sem camisa, trocando olhares com a namorada do meu primo; o apito anuncia a chegada do trem; garrafas de vinho e latas de cerveja; a grande máquina faz a curva e surge entre as cercas de bambu e arame farpado; ela tem aquela beleza, justamente aquela, os olhos pretos, sobrancelha grossa, o rosto fino, corpo magro e esbelto; e é namorada do meu primo; o trem apita e passa fazendo um estardalhaço;
entre um vagão e outro
eu a vejo
movendo os lábios
trilhos e dormentes
dizendo alguma coisa

Eu me aproximo, insidioso, cheio de más intenções:

―Há quanto tempo vocês namoram?

Ela não diz nada.

Eu abro a boca, mas não falo nada.

―Pois é isso: não há certo ou errado: apenas convenções. Você decide o que você acha melhor, o que você consegue conciliar, aguentar (manter uma traição, por exemplo) e levar até o fim. E lembre-se: você não deve nunca contar isso pra sua mina. Você toma suas decisões e, por mais estúpidas que sejam, deve abraçá-las até o inferno, levá-las às últimas consequências! Se isso significa levar um tapa na cara, um murro, que seja: você deve se ater às suas convicções. O importante é ser decidido, não revelar seus segredos e queimar até o fogo se apagar.

―Você acha isso mesmo?

―Não sei, estou só falando frases de efeito [bate o copo na mesa]. Eu nem penso, elas não querem dizer nada. Na verdade, frases de efeito não precisam fazer sentido, elas têm que fazer o homem agir! O homem nasceu para agir, mas algo (a civilização, o contrato social, talvez) o impede de ser implacável. E as frases de efeito servem pra isso: agir! Tudo que você precisa é uma boa sintaxe e cuidado na escolha das palavras. As melhores são as pouco usuais, mas sempre misturadas às mais básicas, fundamentais, como chão, fogo, força, história, homem. Aí você parece fugir do supérfluo e evocar uma verdade ulterior do homem, que o faça acreditar em alguma coisa (que já acredite, talvez) e se mover em direção a essa coisa. [Ele faz uma pausa, está bêbado e supereloquente] “Ulterior”, por exemplo. Nem sei o que significa.

―Só preciso achar um jeito…

―Não há coisa melhor que a derrota, cara.

―E a derrota?

―A derrota é uma merda mesmo ― ele diz, enxugando a gordura dos lábios.

―Eu não vou aguentar essa porra ― jogo o resto do lanche no prato.

―Mas e a Luiza, mano? Nunca teve vontade de pegar outra mina, sei lá?

―Você se decide e vai, mano. Posso querer pegar, e posso pegar inclusive, mas não falo nada, não digo nada. Tudo passa, Luiza fica.

Ele se vira, serve-se de um cigarro e me joga o maço.

―Isso é seu ― acende e me joga o isqueiro ― Vamos fazer três anos essa semana e ela me acha ridículo por ficar contando o tempo.

Funde-se e desaparece na luz laranja do amanhecer.

Através da neblina as coisas ganham a incerteza e a melancolia dos sonhos. Através da neblina de coisas irreais vejo o Viadutos, volto os olhos pras ruas que se emaranham, atravesso a rua na faixa e subo a Martins Fontes e então a Augusta e é a pior Augusta de todos os tempos agora que ascendo, cada vez mais claro as impressões vão se desfazendo em certezas, homens andando feito zumbis, enrolados em trapos, deitados no chão e o lixo, o lixo, o lixo. A grande onda veio, desceu da Paulista e varreu tudo e todos, desde o Charm até o Estadão, e a marca da água está lá na parede e como as margens de um rio passada a cheia estão copos, garrafas, cigarros e cacos de vidro, na sarjeta e calçada e o sol das oito da manhã agora queima as costas e eu devia ter trazido meus óculos escuros, eu não sou nada à luz do sol sem meus óculos escuros. Essas pessoas estão bebendo desde ontem ou começaram agora. São oito ou onze da manhã. Não dá pra dizer. Sofro enquanto atravesso as ruas perpendiculares sentido Paulista, metrô Consolação.

Saio enrolado na toalha, sento-me na beirada da cama e ela me abraça por trás, passa envolve meu corpo, enfia a mão por debaixo da toalha, agarra o meu pau, que fica cada vez mais duro. Escorrega a cabeça por debaixo do meu braço e, quase contra minha vontade, beija, lambe e abocanha minha rola. Num movimento ritmado vai acariciando e lambendo, aquela sua língua quente na cabeça do meu pau, ela o tira da boca com um estalo, chupa meu saco de olhos fechados enquanto bate uma punheta, em cima da cômoda o meu celular pisca: alguém me ligou enquanto estava no banheiro, ela provavelmente percebeu, ela viu, ela sabe, ela sobe lambendo cada centímetro e engole a cabeça novamente, me faz levantar os braços e, sem tirar o pau da boca, desce da cama engatinhando até ficar de joelhos no chão. Aí ela chupa, mexe e engole minha pica, o celular piscando, forço sua cabeça pra baixo com uma mão enquanto com a outra pego o telefone: chamada perdida: Rita. Ah, a vida. Gozo na sua garganta e ela engole toda minha porra.

1 Comment

Filed under Bunda, Capitalismo, Crise!, Maluco chato, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Que papo é esse?, Seres Humanos Reprováveis, TL;DR

Metáforas táteis

(Obrigado ao FASM pelos comentários, por apontar os erros, por limpar o texto e por varrer os clichês)

 

 

―A comida aqui é razoável, os charutos são intragáveis; e o velho árabe, uma anta ― disse, guiando o caminho por entre as mesas.

―Me trouxe aqui por que, então?

Cumprimentei o garçom com um aceno de cabeça.

―Não sei ― peguei o prato ― Vai ver não gosto tanto de você assim.

Os charutos estavam lá, enroladinhos, ensopados no molho.

―Vai ver você não é tão legal assim.

Chegou mais alguém. Ela foi daqui ali, procurou, ameaçou e acabou sentada ao meu lado. Não cheguei a prestar atenção. Eu estava mais preocupado em transbordar meu copo de cerveja enquanto pensava ― seriamente eu pensava ― em fumar um beck pelo século XXI. Em fumar um beck contra a mídia golpista e contra o Estado militarizado. Em fumar um beck que se acendia por um isqueiro que soltasse estrelas amarelas, brilhantes num céu vermelho de fogo. Eu queria fumar um beck com Che Guevara. Mas Ernesto é morto… e a cerveja derramando pela mesa e pelas frestas entre as tábuas de madeira e sobre minha calça jeans, com dramaticidade, com que dramaticidade.

Empolava papel de bar, aqueles becks de antigamente, antes de tudo ter se profissionalizado e se tornado um produto velado, secreto, hipocrisias do capitalismo. O dinheiro vale tudo, eu pensei, sem fazer muito sentido, enquanto varria com a seda aquele rio de cerveja para o chão. Para o chão.

Ela estava sentada ao meu lado, com a bolsa no colo, e sorriu.

Sorri de volta, pensando em Bob Marley, Malcolm X, Che Guevara.

―Desculpa, mas eu não tenho cerveja pra você agora. Acabei de derrubar o último resto.

Último resto, fiquei pensando nessa construção sem sentido e na minha falta de tato com o sexo. Feminino.

―Ah, vou lá pegar.

Levantou-se e, em cinco ou seis passos, alguma coisa aconteceu no meu coração, especialmente quando ela ficou na ponta dos pés em frente ao balcão e pediu; imaginei seus lábios dizendo docemente:

―Me vê uma cerveja, por favor.

E o cara do bar, docemente:

―Qual?

Ela então olhou pra trás e eu já subia passo a passo cada centímetro de suas pernas com meus olhos, cada pequeno ponto que compunha aquela perna firme metida numa calça leggin, a panturrilha retesada, os tendões de trás do joelho, as coxas, até a bunda. Ela olhou pra trás, percebeu, apontei pra Brahma em cima da mesa e fiz um jóia. Ela se virou:

―Uma Brahma.

Meti a mão na testa. Pra que fazer esse jóia, Rafael?

Uma Brahma, ela sabia, ela percebeu, ela sabe. Quando se virou e começou a caminhar de volta à mesa eu percebi, eu soube: ela era, com a leveza dos seus passos, com seu sorriso que deixava pender o lábio e entrever seus dentes, com seus olhos tristes e com seu cabelo, com seu cabelo que segurava e enrolava entre seus dedos: ela era uma dessas meninas que se portam como gatos, que se fazem de qualquer coisa e que sabem.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só jogar 90 minutos no ataque, até que o juiz apitasse o fim do jogo.

―E aí, mas então ― eu começava mal a puxar o papo, mal, muito mal, Rafael ― o que você faz?

Ela respondeu e eu não conseguia deixar de acompanhar suas mãos, seus cabelos, seus lábios; ela fazia isso pois ela sabia, ela queria que eu olhasse.

Merda, estamos fodidos. Isso vai mal, isso vai muito mal, eu pensei.

―E você, o que faz?

―Eu? Eu não faço muita coisa ― tinha vontade de me humilhar, de revelar coisas vergonhosas, de me expor de forma sem precedentes, como nunca antes na história desse país. Comecei pegando leve:

―Eu amo o Lula. Amo, absolutamente ― arrisquei.

Ela concordou, em termos.

―Mas não ama o Lula? Nem um pouquinho?

―Por que eu vou amar o Lula?

―Porque o Lula ― bati no coração ― o Lula é Corinthians.

―Corinthians? Você tem cara de são-paulino.

Enxuguei os lábios, pousei o copo na mesa e disse com gravidade, o dedo perpendicular à mesa:

―Eu sou Corinthians.

Ela riu e disse que sim, e concordou, disse que amava um pouquinho o Lula, então. Ela ama o Lula e o Corinthians, eu te amo, eu pensei, e talvez tenha dito, porque ela arregalou os olhos com graça e riu ainda mais um pouco.

Perguntei se ela gostava de música. A pergunta foi exatamente essa.

Ela ria e aceitava ― às vezes com certa reserva ― as merdas que eu falava. E eu me deliciava com suas respostas malcriadas.

“Tem certeza que você quis dizer isso?”, “Você não é negro, sabia?”, “Spike Lee e Spike Jonze são pessoas diferentes.”

―Eu tenho uma curiosidade: saber como é um pinto judeu ― Mano, de onde tiramos isso? Tava nessa outro dia, né. Lembra? “Jewish Porn”, no Google, e nada. Eu pegaria uma mina judia, com certeza.

Mas voltemos ao pênis hebreu.

Corria o risco de me passar por homossexual e antissemita de uma vez só. E não era hora de se passar por homossexual e antissemita. Não. Não agora, não aqui.

―Estou lendo “O Estrangeiro” ― disse.

―Aquele do Camus?

―Isso, Camus ― ela disse, numa pronúncia impecável. Maravilha, puta que pariu, agora essa porra fala francês também. O que eu vou fazer?

O que eu vou fazer? O que um pobre rapaz como eu pode fazer? Não há saída, não há alternativa, eu pensava, enquanto mergulhava os olhos em suas coxas e ia subindo por entre as pernas. De súbito, um mundo novo se desvelada diante dos meus olhos, por debaixo daquela calça, daquela calcinha polpuda, daqueles pêlos, aquela boceta, aquele amor que falava francês. Observava sua virilha com obstinação. Subi o olhar e encarei-a. Semicerrou os olhos me indagando.

Ergui as sobrancelhas e fiz um bico:

―Eh! Fazer o que, né?!

Ela menciona Mia Couto. Digo que não gosto, que não me convenço nessas merdas que ele escreve. Além do mais, o cara é branco.

―E Milton Hatoum?

―Gosto, mas não me convencem os diálogos.

―Como assim?

―Não sei, as pessoas me parecem muito eloqüentes. Mas pode ser, deve ser, uma avaliação prematura e babaca da minha parte, que dizer, Milton Hatoum, sabe, essas coisas.

―C-

―Essas coisas ― eu lhe assegurei.

―E como as pessoas falam?

―Não sei, não sou bom nisso.

Não sou bom nisso, não sou bom em nada. Não sei como as pessoas falam, não sei falar com as pessoas. Como lidar, qual a saída? Não há meio prático, exit this way. Só confusão, falha de comunicação. Falha da comunicação. As pessoas se escondem, fogem, tomam calmante pra dormir. Mas eu sou um homem à moda antiga, encaro meus problemas, minhas limitações, tento superá-las. Com a bebida.

Enchi o copo e contei que tinha uma história que queria escrever. Era sobre um cara que só cons-

―Você?

Não, não, um cara que só conseguia escrever sobre mulh-

―Certeza que não é você? ― ela riu.

Fiz um gesto mas congelei as palavras na boca e a mão no ar. Concedi: OK, sou eu.

―Tá ― sorriu com maldade ― e aí?

É esse cara-

―Você.

Eu: é esse cara, que sou eu, Rafael Lacerzanatto, que só consegue escrever sobre mulheres, e ele gosta de escrever… e gosta de mulheres… (eu perdia o fio da meada)… mulheres…

―Tá bom, você gosta de mulheres, vou acreditar nessa. Mas e aí?

Aí que esse cara escreve apenas sobre mulheres, ele quer chupar até- Ela franziu as sobrancelhas, calma, calma, Rafael. Outro verbo. Ainda não é hora de usar essa carta.

Ele quer… reter, reter cada mulher que conhece, que lhe atrai, quer como que eternizar sua essência, ou pelo menos aquilo que mais lhe atrai, ele quer marcar aquilo pra sempre no papel. Começa na faculdade: ele derruba um lápis no chão; o lápis cai, quica e rola pra debaixo das mesas. Ele se ajoelha e, bem no momento em que está de joelhos, vê uma menina no fundo da sala, de saia, descruzando e cruzando as pernas. Ele vê sua calcinha, e é uma calcinha linda, listrada em várias cores, e a perna da menina é firme e bronzeada, morena, ele consegue ver os pêlos quase transparentes em toda a extensão da coxa e fica maravilhado. Pega o lápis e quer reter aquilo da melhor forma possível, quer guardar aquela memória para sempre, transformá-la em algo físico e palpável e tê-la para sempre perto de si. Ele tem essa tara, além das mulheres, de catalogar, de sistematizar, de arquivar e conservar tudo, congelar o momento para sempre. Ele é louco com a manutenção da memória. Ele começa a desenhar os pés da cadeira, os pés da menina, mas ele é extremamente limitado no desenho e não consegue criar uma perspectiva que dê conta da profundeza que se cria entre aquelas duas pernas, toldada pela saia, ele quer tudo, ele quer aquela calcinha, aquelas pernas, a saia, o verão, a faculdade, ele quer tudo exprimido em um desenho. Mas desenha mal demais e pensa: Eu queria desenhar com palavras. Então começa a descrever, cuidadosa e detalhadamente, ele escreve, reescreve, risca, troca palavras e passa a limpo ― a aula é longa. Então passa para um amigo, que lê, olha pra trás, vê a menina e volta, balançando a cabeça: “Porra”, ele diz, “Também chuparia aquela mina”. E não tem nada de chupar no texto, nada, e ele fica maravilhado que consegue, enfim, captar um momento e transpor no papel, como se fizesse uma fotografia ou um desenho. Então ele continua a fazer esse tipo de coisa e vai se aperfeiçoando ― eu não sou tão bom assim ― mas vai se aperfeiçoando e começa a variar, escreve um haikai sobre o decote da menina no ônibus, um poema de extrema sacanagem sobre a namorada de um amigo, fantasias das mais variadas com todo tipo de mulher que conhece, inclusive ― especialmente, aliás ― no sentido bíblico. Ele se aprofunda de tal forma nessa pira, nessa tara, que toda mulher que lhe chama a atenção deve ser imediatamente eternizada em palavras, às vezes frases soltas, às vezes quatro, cinco páginas sobre o vislumbre de um mamilo. Ele se torna obsessivo. Compra um smartphone e quando está com uma menina, corre para o banheiro, com a desculpa de que vai mijar, para registrar nas exatas palavras qualquer coisa insignificante que ela diga, o seu hálito, a cor da alça do sutiã, a espessura dos seus pêlos pubianos, bem como o formato da depilação. Ele vive pra isso, e muitas vezes leva situações às últimas conseqüências não pelo sentimento, seja amor ou pura vontade de fazer sexo, mas para poder depois registrar, numa riqueza de detalhes e manobras, o que há de mais verdadeiro e real naquela mulher. Ele-

―Você.

Isso, eu. Eu tenho essa teoria ― quase religiosa ―, em que ele diz que a melhor forma de se chegar ao real, à Verdade, é a partir da ficção, dos rodeios, das invenções, de discursos indiretos e de cantos de olhos. Ele pensa em Deus, em todas as parábolas, em tudo que roça a questão mas não diz nada explicitamente. De tudo que está prestes. Para ele, o que importa nunca pode se manifestar, como a face de Deus, como a interdição do tetragrama, todas essas coisas.

Até que conhece uma menina que o arrebata e ele sente, com toda convicção, que ela é sua obra definitiva. De ela tudo flui. Imagina narrativas em cada curva de seu corpo, aforismos emanam das suas pernas, Bataille invejaria suas clavículas, seqüências eletrizantes sobem das costas dos seus joelhos até a bunda, onde bonito e bom, luminoso, quente como o sol e aconchegante como uma rede, depois do almoço, já um pouco bêbado de cerveja. “Metáforas táteis”, ele escreve no topo da página e se senta para escrever aquilo que é a realização de tudo que já viveu e pretende ainda viver.

Mas ele não consegue. Saem apenas palavras dispersas, uma frase ou outra, nada muito bom, talvez legal de publicar no twitter, mas não há consistência, não há uma seqüência, nada se encadeia nem funciona. Ele se torna cada vez mais obcecado em dar forma ao livro, em jogar no papel todo o turbilhão que toma sua mente dia e noite mas não, o negócio não vai pra frente, a escrita não anda, as coisas escapam pelos seus dedos. Sente uma profunda frustração e começa a beber (mais), pensando que isso vá lhe dar alguma inspiração, mas ele apenas queima cada vez mais papel, faz anotações em caderninhos, em post-its, na mão, na esperança que vá dar uma forma de ligar notas esparsas, mas nada, a coisa não marcha. Ele bebe, bebe, cria uma violenta aversão à mulher ― agora eles estão juntos ― mas ainda a idolatra, totalmente reverente, beija seus pés. Todo seu esforço e carinho, cada ereção, porém, é dedicado não à mulher, mas ao livro que pretende escrever, à sua obra prima. A relação se deteriora e ele acha que o melhor é se separar, que sozinho vai conseguir juntar a tristeza e a frustração de forma que consiga pôr em palavras aquela mulher. Senta-se em frente ao computador, o cigarro na boca, “Metáforas táteis”, serifado, zunindo em preto no topo da página, bate o dedo em alguma teclas, deleta letra por letra. Não consegue.

Ela ergue as sobrancelhas e alonga as vogais:

―Aaahh…

―É mais ou menos, né?

―É, mais ou menos.

―Extremamente mais ou menos ― eu digo sem convicção de mais nada e encaro o fundo do copo, que gira na minha mão.

―Sua vez de pegar cerveja.

Levanto-me e volto como o fantasma do falecido rei, com uma péssima notícia do mundo dos mortos:

―Tão fechando o bar, não servem mais cervejas.

Ela arregala os olhos e pergunta, séria:

―Sério?

Sério, respondo:

―Sério ― respondo, e balanço a cabeça com importância.

―Então vamos pra outro lugar.

―Dê-mo-rou ― digo, como se tivesse quinze anos e me humilho mais um pouco diante daquela menina que me congela e me eletriza jogando o cabelo e mexendo os lábios, dizendo coisas quaisquer que aos meus ouvidos parecem as maiores indecências já proferidas. Meu peito se aperta, fico desesperado. De decência eu já estou cheio, e parece que vou morrer de ouvir o que quero. Penso nas suas pernas, e de fato as acompanho quando ela anda até o banheiro e puxa a camiseta pelos quadris, para cobrir a bundinha, linda bundinha, metida naquela calça leggin, tenho vontade de chamar meu advogado, pegar um táxi para o cartório, reconhecer firma: eu estou de pau duro.

As luzes da cidade brilham enquanto passamos queimando gasolina, cigarros e pneus. Meninas gritando na calçada e Bob Dylan tocando baixinho. Coloco o braço direito pra fora do carro, encosto a cabeça na janela e canto, sussurrando entre os dentes:

―He takes himself so seriously…

Olho pra esquerda e ela está dirigindo feliz.

A torre da Band
goteja luz
na Minas Gerais

Na Augusta, a ação acelera e eu abro uma, duas cervejas no meu braço, jogando as tampinhas pra cima e metendo a bica para longe, para o alto, chuto a guimba que explode em fagulhas malucas, voam todas para cima dos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas de duas meninas que dividem um misto nas mesinhas do Charm, que me olham feio, e o bar já fecha. Todas essas merdas fecham.

―Temos que entrar em algum lugar se não quisermos descer a rua toda.

Ela dá um gole com classe nenhuma, um olho fechado e o outro aberto:

―Com certeza; o que você sugere? Eu topo qualquer coisa.

―Qualquer coisa?

―Qualquer coisa ― responde com malícia, e eu só quero puxá-la pela cintura e meter minha língua na sua boca, for starters.

Aponto pro outro lado da rua, guio o caminho por entre os carros, e dois minutos depois estamos dividindo uma cerveja já sem nenhuma condição de nada.

Dançando ela sobe as mãos pelo quadril, pela barriga, pelos seios e rebola tão bonitinha, balançando a cabeça. Estamos completamente bêbados. Puxo-a pela cintura, agora é a hora, mas eu sou um gato e já que é tão certo, vamos brincar.

O ritmo é cada vez mais acelerado, a luz estroboscópica não dá trégua, mil rotações, a batida sobe num crescendo alucinante, estourando meu peito, minhas pernas, meu coração, minha boca, um gole de cerveja, se você tem que ir, que vá agora, adeus Brasil, adeus Cuba, adeus século XXI, adeus minha ascendência e a futura geração. O negócio é aqui e é agora. E tá pegando fogo essa porra.

Vamos brincar.

Essa menina tem um tufão nos quadris, gira, aperta sua barriga contra a minha, sinto seus seios enquanto ela roda no meio daquele inferno, sua boceta indo de lá pra cá, na minha perna, no meu pau, próxima coisa estamos sentados, a milésima cerveja da noite.

Bebo por inércia e quero vomitar.

Próxima coisa:

―Você está bem pra dirigir?

Próxima coisa, o metrô está andando pro lado errado e avisa:

―Estação Consolação.

Putaquepariu.

Próxima coisa, o porteiro me oferece o jornal dizendo bom dia.

Próxima coisa, o rosto dela numa chapa fotográfica metalizada, brilhante, a imagem que construí na minha cabeça; é o que vejo logo antes de abrir os olhos.

Levanto, pego uma cerveja e sento na varanda. O cachorro vem, cheira minha perna e senta-se ao meu lado. Observamos o horizonte. Pego-o pelo focinho:

―Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Falhe.

Contei-lhe minha história.

―O que eu faço, Senhor Cachorro?

―Você poderia chamá-la para um au-moço.

―Aw, Senhor Cachorro, como você consegue ser tão fofo?

Matutei um tempinho sobre o assunto. Isso: almoço: boa idéia. Dei um gole na cerveja, que já havia esquentado, e não consegui segurar o vômito.

Diligente, Senhor Cachorro abanou o rabo e comeu tudinho.

Cortei o charuto. Não sei por que peguei essa merda. Sempre caio em tentação.

Entrego meu cartão pro velho árabe e ele passa errado logo de primeira. E depois de segunda. Quantas formas diferentes um velho árabe pode passar errado um cartão? Bato a cabeça no vidro do caixa, me dá vontade de dizer “Dá essa merda aqui, vovô! Eu passo essa porra!”, mas em vez disso brinco com as gomas. O vovô me olha por cima dos óculos e diz:

―É brinde, pode pegar. Brinde.

―Valeu.

Valeu, agora passa essa merda. Ele está passando na máquina errada, tenho absoluta certeza. Me entrega, digito a senha, transação aprovada.

―Não precisa da minha via, tá?

Ele me dá mesmo assim.

Saímos pra rua, uma bela segunda, andando pela calçada quebrada, um vaivém sem parar, carros, motos, bancários, jatomóveis, coloco meus óculos escuros e, com as mãos no bolso, pergunto:

―Vamos tomar um café?

―Você não tem que voltar?

Estendo o braço para protegê-la do farol que acabou de abrir. O que eu queria mesmo era pegar nesses seus peitos.

―Já estou quarenta minutos atrasado.

―E não tem problema?

―Não há nada que eles não possam fazer sem mim. E outra: que se foda o trabalho.

―Uma cerveja, então? ― essa menina fala o que eu quero ouvir, ela é um amor. O farol abre.

―Aí sim, hein. Demorou. Aliás, você não trabalha, né?

―Não.

Tá certo, amo essa menina.

Sirvo seu copo, depois o meu: um brinde: um brinde:

―Um brinde. A mim.

O telefone toca. Ela atende:

―Alô. Oi, tudo bem e aí? To, to almoçando com uma amiga ― ela não me olha― e já já vou passar na livraria. É, e você? Ah, aham…

Esparramado na cadeira, dou um gole da cerveja, giro o copo na mesa, fico observando. Ela desliga, eu pergunto:

―Então é verdade aquele papo?

Ela balança a cabeça como se “pois é, é verdade, fazer o quê”.

―Bom, a bola tá rol- ― toca o meu telefone. Atendo ―Alô, oi ah, e aí? Beleza. É, então, to aqui tomando um café cos moleques. É, saí mais tarde. Não, já to subindo. Só esperando o Pedro terminar o dele. É, beleza. Ah, vai lá? Legal.

Agora ela me olha.

―Nossa, é mesmo? Ah, nada a ver! Haha. Olha só. Mas ela era dahora? ― não tiro os olhos dela e sei que ela gosta. Desço até sua boca, seu pescoço, seus peitos ― Ah, pelo menos isso! Haa, ei, to brincando. Ai ai. Beleza, então, tá bom então, beijo. Beijo. Tchau ― seguro o telefone longe do rosto ― tchau, tchauu.

―Então você namora também?

Estendo os braços e viro as mãos atadas pros céus: o que eu posso fazer? As setas do amor me atingem, a paixão de Rafael.

―E o pior: ela disse que sonhou hoje que eu a traía.

Meu coração pesa, mas tenho um coração pesado há tempo o bastante para não me importar. Se não se pode contar com o passado e nem com o futuro, só o presente lhe resta. E é assim: de segunda a sexta à espera do fim de semana. E não há forma melhor de se começar uma semana do que em busca da leveza de um amor livre e tranqüilo. E já que não temos um amor livre e tranqüilo, vamos com um que é escravo das vielas, dos corredores e escadas, um amor que não se revela, obscuro e suicida.

Não sabia onde pôr as mãos. Comecei a palitar os dentes.

Ela não via gravidade em nada. É uma menina linda e cínica, que fica triste só às vezes e aí conta a verdade, o que realmente sente. Isso esmaga meu coração, e isso eu só aprendi depois. Ali ainda acreditava que ela só queria mesmo tocar fogo nas coisas.

Ela disse que sonhou hoje que eu a traía…

―E o que senhor acha disso?

―Coincidências de um mau escritor.

3 Comments

Filed under Bataille, Bunda, Capitalismo, Coitado do Manolo, Crise!, Mulheres gostosas, Não foi bem assim, Peitos, Putaria e abominação, Ressaca, Seres Humanos Reprováveis, TL;DR