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Calmaí que eu

No princípio, não havia nada, era silêncio e escuridão. Não que depois tivesse muita coisa, mas então fez-se a luz, e eu olhei pra ela, que passava pelo corredor e me dava um aceno. Acenei de volta.

Já é de manhã e ela ainda tá com o cabelo molhado?

Fiquei nesse vazio por menos de um segundo, o que é uma eternidade para o cérebro, que sempre está aí, pensando, nem que seja groselha, mas pensando, pensando, aí eu pensei – ou melhor, tive uma impressão, como um carimbo enorme na minha cabeça, da noite anterior: cerveja, cerveja, uísque, beck, ela e o banho.

Meu cérebro fez o favor de fazer as contas pra minha consciência: já era umas dez, onze da manhã pelo barulho, claridade e calor, e é impossível que ela ainda esteja com o cabelo molhado de ontem à noite. Conclusão lógica: ela acordou e tomou banho.

Passei a mão no cabelo pra me certificar: estava seco.

Ela acordou e tomar banho. O que antes era puro mistério agora se revelava ridiculamente óbvio.

O mistério, como diz o… Borges.

Deitei a cabeça de volta no travesseiro e relaxei, deixei as lembranças assomarem nos meus olhos fechados, sem pressa, com preguiça.

Cerveja, mais cerveja, então fomos buscar mais. E buscamos muito mais. Um monte. Quase intomável. Mas tomamos. Então nossos corpos desistiram de beber, mas nós os forçamos a tomar uísque, já que eram duas da manhã e já que tinha, também. Bebemos aquela porra e depois fumamos um beck porque né. Aí as imagens me veem como que refletidas na água trêmula de uma privada (vontade de mijar). Meu pau pulou.

Bom, vamos mijar e bater uma punheta porque desse jeito não vai dar pra acordar direito. E deixa que eu vou… lembrando durante o dia. Tem tempo ainda.

Tem tempo.

Mas acho que. É melhor. Ficar aqui mesmo.

É tão bom ficar de olhos fechados… calmaí que eu… deixa eu pensar um negócio

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Metáforas táteis

(Obrigado ao FASM pelos comentários, por apontar os erros, por limpar o texto e por varrer os clichês)

 

 

―A comida aqui é razoável, os charutos são intragáveis; e o velho árabe, uma anta ― disse, guiando o caminho por entre as mesas.

―Me trouxe aqui por que, então?

Cumprimentei o garçom com um aceno de cabeça.

―Não sei ― peguei o prato ― Vai ver não gosto tanto de você assim.

Os charutos estavam lá, enroladinhos, ensopados no molho.

―Vai ver você não é tão legal assim.

Chegou mais alguém. Ela foi daqui ali, procurou, ameaçou e acabou sentada ao meu lado. Não cheguei a prestar atenção. Eu estava mais preocupado em transbordar meu copo de cerveja enquanto pensava ― seriamente eu pensava ― em fumar um beck pelo século XXI. Em fumar um beck contra a mídia golpista e contra o Estado militarizado. Em fumar um beck que se acendia por um isqueiro que soltasse estrelas amarelas, brilhantes num céu vermelho de fogo. Eu queria fumar um beck com Che Guevara. Mas Ernesto é morto… e a cerveja derramando pela mesa e pelas frestas entre as tábuas de madeira e sobre minha calça jeans, com dramaticidade, com que dramaticidade.

Empolava papel de bar, aqueles becks de antigamente, antes de tudo ter se profissionalizado e se tornado um produto velado, secreto, hipocrisias do capitalismo. O dinheiro vale tudo, eu pensei, sem fazer muito sentido, enquanto varria com a seda aquele rio de cerveja para o chão. Para o chão.

Ela estava sentada ao meu lado, com a bolsa no colo, e sorriu.

Sorri de volta, pensando em Bob Marley, Malcolm X, Che Guevara.

―Desculpa, mas eu não tenho cerveja pra você agora. Acabei de derrubar o último resto.

Último resto, fiquei pensando nessa construção sem sentido e na minha falta de tato com o sexo. Feminino.

―Ah, vou lá pegar.

Levantou-se e, em cinco ou seis passos, alguma coisa aconteceu no meu coração, especialmente quando ela ficou na ponta dos pés em frente ao balcão e pediu; imaginei seus lábios dizendo docemente:

―Me vê uma cerveja, por favor.

E o cara do bar, docemente:

―Qual?

Ela então olhou pra trás e eu já subia passo a passo cada centímetro de suas pernas com meus olhos, cada pequeno ponto que compunha aquela perna firme metida numa calça leggin, a panturrilha retesada, os tendões de trás do joelho, as coxas, até a bunda. Ela olhou pra trás, percebeu, apontei pra Brahma em cima da mesa e fiz um jóia. Ela se virou:

―Uma Brahma.

Meti a mão na testa. Pra que fazer esse jóia, Rafael?

Uma Brahma, ela sabia, ela percebeu, ela sabe. Quando se virou e começou a caminhar de volta à mesa eu percebi, eu soube: ela era, com a leveza dos seus passos, com seu sorriso que deixava pender o lábio e entrever seus dentes, com seus olhos tristes e com seu cabelo, com seu cabelo que segurava e enrolava entre seus dedos: ela era uma dessas meninas que se portam como gatos, que se fazem de qualquer coisa e que sabem.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Só jogar 90 minutos no ataque, até que o juiz apitasse o fim do jogo.

―E aí, mas então ― eu começava mal a puxar o papo, mal, muito mal, Rafael ― o que você faz?

Ela respondeu e eu não conseguia deixar de acompanhar suas mãos, seus cabelos, seus lábios; ela fazia isso pois ela sabia, ela queria que eu olhasse.

Merda, estamos fodidos. Isso vai mal, isso vai muito mal, eu pensei.

―E você, o que faz?

―Eu? Eu não faço muita coisa ― tinha vontade de me humilhar, de revelar coisas vergonhosas, de me expor de forma sem precedentes, como nunca antes na história desse país. Comecei pegando leve:

―Eu amo o Lula. Amo, absolutamente ― arrisquei.

Ela concordou, em termos.

―Mas não ama o Lula? Nem um pouquinho?

―Por que eu vou amar o Lula?

―Porque o Lula ― bati no coração ― o Lula é Corinthians.

―Corinthians? Você tem cara de são-paulino.

Enxuguei os lábios, pousei o copo na mesa e disse com gravidade, o dedo perpendicular à mesa:

―Eu sou Corinthians.

Ela riu e disse que sim, e concordou, disse que amava um pouquinho o Lula, então. Ela ama o Lula e o Corinthians, eu te amo, eu pensei, e talvez tenha dito, porque ela arregalou os olhos com graça e riu ainda mais um pouco.

Perguntei se ela gostava de música. A pergunta foi exatamente essa.

Ela ria e aceitava ― às vezes com certa reserva ― as merdas que eu falava. E eu me deliciava com suas respostas malcriadas.

“Tem certeza que você quis dizer isso?”, “Você não é negro, sabia?”, “Spike Lee e Spike Jonze são pessoas diferentes.”

―Eu tenho uma curiosidade: saber como é um pinto judeu ― Mano, de onde tiramos isso? Tava nessa outro dia, né. Lembra? “Jewish Porn”, no Google, e nada. Eu pegaria uma mina judia, com certeza.

Mas voltemos ao pênis hebreu.

Corria o risco de me passar por homossexual e antissemita de uma vez só. E não era hora de se passar por homossexual e antissemita. Não. Não agora, não aqui.

―Estou lendo “O Estrangeiro” ― disse.

―Aquele do Camus?

―Isso, Camus ― ela disse, numa pronúncia impecável. Maravilha, puta que pariu, agora essa porra fala francês também. O que eu vou fazer?

O que eu vou fazer? O que um pobre rapaz como eu pode fazer? Não há saída, não há alternativa, eu pensava, enquanto mergulhava os olhos em suas coxas e ia subindo por entre as pernas. De súbito, um mundo novo se desvelada diante dos meus olhos, por debaixo daquela calça, daquela calcinha polpuda, daqueles pêlos, aquela boceta, aquele amor que falava francês. Observava sua virilha com obstinação. Subi o olhar e encarei-a. Semicerrou os olhos me indagando.

Ergui as sobrancelhas e fiz um bico:

―Eh! Fazer o que, né?!

Ela menciona Mia Couto. Digo que não gosto, que não me convenço nessas merdas que ele escreve. Além do mais, o cara é branco.

―E Milton Hatoum?

―Gosto, mas não me convencem os diálogos.

―Como assim?

―Não sei, as pessoas me parecem muito eloqüentes. Mas pode ser, deve ser, uma avaliação prematura e babaca da minha parte, que dizer, Milton Hatoum, sabe, essas coisas.

―C-

―Essas coisas ― eu lhe assegurei.

―E como as pessoas falam?

―Não sei, não sou bom nisso.

Não sou bom nisso, não sou bom em nada. Não sei como as pessoas falam, não sei falar com as pessoas. Como lidar, qual a saída? Não há meio prático, exit this way. Só confusão, falha de comunicação. Falha da comunicação. As pessoas se escondem, fogem, tomam calmante pra dormir. Mas eu sou um homem à moda antiga, encaro meus problemas, minhas limitações, tento superá-las. Com a bebida.

Enchi o copo e contei que tinha uma história que queria escrever. Era sobre um cara que só cons-

―Você?

Não, não, um cara que só conseguia escrever sobre mulh-

―Certeza que não é você? ― ela riu.

Fiz um gesto mas congelei as palavras na boca e a mão no ar. Concedi: OK, sou eu.

―Tá ― sorriu com maldade ― e aí?

É esse cara-

―Você.

Eu: é esse cara, que sou eu, Rafael Lacerzanatto, que só consegue escrever sobre mulheres, e ele gosta de escrever… e gosta de mulheres… (eu perdia o fio da meada)… mulheres…

―Tá bom, você gosta de mulheres, vou acreditar nessa. Mas e aí?

Aí que esse cara escreve apenas sobre mulheres, ele quer chupar até- Ela franziu as sobrancelhas, calma, calma, Rafael. Outro verbo. Ainda não é hora de usar essa carta.

Ele quer… reter, reter cada mulher que conhece, que lhe atrai, quer como que eternizar sua essência, ou pelo menos aquilo que mais lhe atrai, ele quer marcar aquilo pra sempre no papel. Começa na faculdade: ele derruba um lápis no chão; o lápis cai, quica e rola pra debaixo das mesas. Ele se ajoelha e, bem no momento em que está de joelhos, vê uma menina no fundo da sala, de saia, descruzando e cruzando as pernas. Ele vê sua calcinha, e é uma calcinha linda, listrada em várias cores, e a perna da menina é firme e bronzeada, morena, ele consegue ver os pêlos quase transparentes em toda a extensão da coxa e fica maravilhado. Pega o lápis e quer reter aquilo da melhor forma possível, quer guardar aquela memória para sempre, transformá-la em algo físico e palpável e tê-la para sempre perto de si. Ele tem essa tara, além das mulheres, de catalogar, de sistematizar, de arquivar e conservar tudo, congelar o momento para sempre. Ele é louco com a manutenção da memória. Ele começa a desenhar os pés da cadeira, os pés da menina, mas ele é extremamente limitado no desenho e não consegue criar uma perspectiva que dê conta da profundeza que se cria entre aquelas duas pernas, toldada pela saia, ele quer tudo, ele quer aquela calcinha, aquelas pernas, a saia, o verão, a faculdade, ele quer tudo exprimido em um desenho. Mas desenha mal demais e pensa: Eu queria desenhar com palavras. Então começa a descrever, cuidadosa e detalhadamente, ele escreve, reescreve, risca, troca palavras e passa a limpo ― a aula é longa. Então passa para um amigo, que lê, olha pra trás, vê a menina e volta, balançando a cabeça: “Porra”, ele diz, “Também chuparia aquela mina”. E não tem nada de chupar no texto, nada, e ele fica maravilhado que consegue, enfim, captar um momento e transpor no papel, como se fizesse uma fotografia ou um desenho. Então ele continua a fazer esse tipo de coisa e vai se aperfeiçoando ― eu não sou tão bom assim ― mas vai se aperfeiçoando e começa a variar, escreve um haikai sobre o decote da menina no ônibus, um poema de extrema sacanagem sobre a namorada de um amigo, fantasias das mais variadas com todo tipo de mulher que conhece, inclusive ― especialmente, aliás ― no sentido bíblico. Ele se aprofunda de tal forma nessa pira, nessa tara, que toda mulher que lhe chama a atenção deve ser imediatamente eternizada em palavras, às vezes frases soltas, às vezes quatro, cinco páginas sobre o vislumbre de um mamilo. Ele se torna obsessivo. Compra um smartphone e quando está com uma menina, corre para o banheiro, com a desculpa de que vai mijar, para registrar nas exatas palavras qualquer coisa insignificante que ela diga, o seu hálito, a cor da alça do sutiã, a espessura dos seus pêlos pubianos, bem como o formato da depilação. Ele vive pra isso, e muitas vezes leva situações às últimas conseqüências não pelo sentimento, seja amor ou pura vontade de fazer sexo, mas para poder depois registrar, numa riqueza de detalhes e manobras, o que há de mais verdadeiro e real naquela mulher. Ele-

―Você.

Isso, eu. Eu tenho essa teoria ― quase religiosa ―, em que ele diz que a melhor forma de se chegar ao real, à Verdade, é a partir da ficção, dos rodeios, das invenções, de discursos indiretos e de cantos de olhos. Ele pensa em Deus, em todas as parábolas, em tudo que roça a questão mas não diz nada explicitamente. De tudo que está prestes. Para ele, o que importa nunca pode se manifestar, como a face de Deus, como a interdição do tetragrama, todas essas coisas.

Até que conhece uma menina que o arrebata e ele sente, com toda convicção, que ela é sua obra definitiva. De ela tudo flui. Imagina narrativas em cada curva de seu corpo, aforismos emanam das suas pernas, Bataille invejaria suas clavículas, seqüências eletrizantes sobem das costas dos seus joelhos até a bunda, onde bonito e bom, luminoso, quente como o sol e aconchegante como uma rede, depois do almoço, já um pouco bêbado de cerveja. “Metáforas táteis”, ele escreve no topo da página e se senta para escrever aquilo que é a realização de tudo que já viveu e pretende ainda viver.

Mas ele não consegue. Saem apenas palavras dispersas, uma frase ou outra, nada muito bom, talvez legal de publicar no twitter, mas não há consistência, não há uma seqüência, nada se encadeia nem funciona. Ele se torna cada vez mais obcecado em dar forma ao livro, em jogar no papel todo o turbilhão que toma sua mente dia e noite mas não, o negócio não vai pra frente, a escrita não anda, as coisas escapam pelos seus dedos. Sente uma profunda frustração e começa a beber (mais), pensando que isso vá lhe dar alguma inspiração, mas ele apenas queima cada vez mais papel, faz anotações em caderninhos, em post-its, na mão, na esperança que vá dar uma forma de ligar notas esparsas, mas nada, a coisa não marcha. Ele bebe, bebe, cria uma violenta aversão à mulher ― agora eles estão juntos ― mas ainda a idolatra, totalmente reverente, beija seus pés. Todo seu esforço e carinho, cada ereção, porém, é dedicado não à mulher, mas ao livro que pretende escrever, à sua obra prima. A relação se deteriora e ele acha que o melhor é se separar, que sozinho vai conseguir juntar a tristeza e a frustração de forma que consiga pôr em palavras aquela mulher. Senta-se em frente ao computador, o cigarro na boca, “Metáforas táteis”, serifado, zunindo em preto no topo da página, bate o dedo em alguma teclas, deleta letra por letra. Não consegue.

Ela ergue as sobrancelhas e alonga as vogais:

―Aaahh…

―É mais ou menos, né?

―É, mais ou menos.

―Extremamente mais ou menos ― eu digo sem convicção de mais nada e encaro o fundo do copo, que gira na minha mão.

―Sua vez de pegar cerveja.

Levanto-me e volto como o fantasma do falecido rei, com uma péssima notícia do mundo dos mortos:

―Tão fechando o bar, não servem mais cervejas.

Ela arregala os olhos e pergunta, séria:

―Sério?

Sério, respondo:

―Sério ― respondo, e balanço a cabeça com importância.

―Então vamos pra outro lugar.

―Dê-mo-rou ― digo, como se tivesse quinze anos e me humilho mais um pouco diante daquela menina que me congela e me eletriza jogando o cabelo e mexendo os lábios, dizendo coisas quaisquer que aos meus ouvidos parecem as maiores indecências já proferidas. Meu peito se aperta, fico desesperado. De decência eu já estou cheio, e parece que vou morrer de ouvir o que quero. Penso nas suas pernas, e de fato as acompanho quando ela anda até o banheiro e puxa a camiseta pelos quadris, para cobrir a bundinha, linda bundinha, metida naquela calça leggin, tenho vontade de chamar meu advogado, pegar um táxi para o cartório, reconhecer firma: eu estou de pau duro.

As luzes da cidade brilham enquanto passamos queimando gasolina, cigarros e pneus. Meninas gritando na calçada e Bob Dylan tocando baixinho. Coloco o braço direito pra fora do carro, encosto a cabeça na janela e canto, sussurrando entre os dentes:

―He takes himself so seriously…

Olho pra esquerda e ela está dirigindo feliz.

A torre da Band
goteja luz
na Minas Gerais

Na Augusta, a ação acelera e eu abro uma, duas cervejas no meu braço, jogando as tampinhas pra cima e metendo a bica para longe, para o alto, chuto a guimba que explode em fagulhas malucas, voam todas para cima dos cabelos encaracolados das cucas maravilhosas de duas meninas que dividem um misto nas mesinhas do Charm, que me olham feio, e o bar já fecha. Todas essas merdas fecham.

―Temos que entrar em algum lugar se não quisermos descer a rua toda.

Ela dá um gole com classe nenhuma, um olho fechado e o outro aberto:

―Com certeza; o que você sugere? Eu topo qualquer coisa.

―Qualquer coisa?

―Qualquer coisa ― responde com malícia, e eu só quero puxá-la pela cintura e meter minha língua na sua boca, for starters.

Aponto pro outro lado da rua, guio o caminho por entre os carros, e dois minutos depois estamos dividindo uma cerveja já sem nenhuma condição de nada.

Dançando ela sobe as mãos pelo quadril, pela barriga, pelos seios e rebola tão bonitinha, balançando a cabeça. Estamos completamente bêbados. Puxo-a pela cintura, agora é a hora, mas eu sou um gato e já que é tão certo, vamos brincar.

O ritmo é cada vez mais acelerado, a luz estroboscópica não dá trégua, mil rotações, a batida sobe num crescendo alucinante, estourando meu peito, minhas pernas, meu coração, minha boca, um gole de cerveja, se você tem que ir, que vá agora, adeus Brasil, adeus Cuba, adeus século XXI, adeus minha ascendência e a futura geração. O negócio é aqui e é agora. E tá pegando fogo essa porra.

Vamos brincar.

Essa menina tem um tufão nos quadris, gira, aperta sua barriga contra a minha, sinto seus seios enquanto ela roda no meio daquele inferno, sua boceta indo de lá pra cá, na minha perna, no meu pau, próxima coisa estamos sentados, a milésima cerveja da noite.

Bebo por inércia e quero vomitar.

Próxima coisa:

―Você está bem pra dirigir?

Próxima coisa, o metrô está andando pro lado errado e avisa:

―Estação Consolação.

Putaquepariu.

Próxima coisa, o porteiro me oferece o jornal dizendo bom dia.

Próxima coisa, o rosto dela numa chapa fotográfica metalizada, brilhante, a imagem que construí na minha cabeça; é o que vejo logo antes de abrir os olhos.

Levanto, pego uma cerveja e sento na varanda. O cachorro vem, cheira minha perna e senta-se ao meu lado. Observamos o horizonte. Pego-o pelo focinho:

―Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Senhor Cachorro.

―Falhe.

Contei-lhe minha história.

―O que eu faço, Senhor Cachorro?

―Você poderia chamá-la para um au-moço.

―Aw, Senhor Cachorro, como você consegue ser tão fofo?

Matutei um tempinho sobre o assunto. Isso: almoço: boa idéia. Dei um gole na cerveja, que já havia esquentado, e não consegui segurar o vômito.

Diligente, Senhor Cachorro abanou o rabo e comeu tudinho.

Cortei o charuto. Não sei por que peguei essa merda. Sempre caio em tentação.

Entrego meu cartão pro velho árabe e ele passa errado logo de primeira. E depois de segunda. Quantas formas diferentes um velho árabe pode passar errado um cartão? Bato a cabeça no vidro do caixa, me dá vontade de dizer “Dá essa merda aqui, vovô! Eu passo essa porra!”, mas em vez disso brinco com as gomas. O vovô me olha por cima dos óculos e diz:

―É brinde, pode pegar. Brinde.

―Valeu.

Valeu, agora passa essa merda. Ele está passando na máquina errada, tenho absoluta certeza. Me entrega, digito a senha, transação aprovada.

―Não precisa da minha via, tá?

Ele me dá mesmo assim.

Saímos pra rua, uma bela segunda, andando pela calçada quebrada, um vaivém sem parar, carros, motos, bancários, jatomóveis, coloco meus óculos escuros e, com as mãos no bolso, pergunto:

―Vamos tomar um café?

―Você não tem que voltar?

Estendo o braço para protegê-la do farol que acabou de abrir. O que eu queria mesmo era pegar nesses seus peitos.

―Já estou quarenta minutos atrasado.

―E não tem problema?

―Não há nada que eles não possam fazer sem mim. E outra: que se foda o trabalho.

―Uma cerveja, então? ― essa menina fala o que eu quero ouvir, ela é um amor. O farol abre.

―Aí sim, hein. Demorou. Aliás, você não trabalha, né?

―Não.

Tá certo, amo essa menina.

Sirvo seu copo, depois o meu: um brinde: um brinde:

―Um brinde. A mim.

O telefone toca. Ela atende:

―Alô. Oi, tudo bem e aí? To, to almoçando com uma amiga ― ela não me olha― e já já vou passar na livraria. É, e você? Ah, aham…

Esparramado na cadeira, dou um gole da cerveja, giro o copo na mesa, fico observando. Ela desliga, eu pergunto:

―Então é verdade aquele papo?

Ela balança a cabeça como se “pois é, é verdade, fazer o quê”.

―Bom, a bola tá rol- ― toca o meu telefone. Atendo ―Alô, oi ah, e aí? Beleza. É, então, to aqui tomando um café cos moleques. É, saí mais tarde. Não, já to subindo. Só esperando o Pedro terminar o dele. É, beleza. Ah, vai lá? Legal.

Agora ela me olha.

―Nossa, é mesmo? Ah, nada a ver! Haha. Olha só. Mas ela era dahora? ― não tiro os olhos dela e sei que ela gosta. Desço até sua boca, seu pescoço, seus peitos ― Ah, pelo menos isso! Haa, ei, to brincando. Ai ai. Beleza, então, tá bom então, beijo. Beijo. Tchau ― seguro o telefone longe do rosto ― tchau, tchauu.

―Então você namora também?

Estendo os braços e viro as mãos atadas pros céus: o que eu posso fazer? As setas do amor me atingem, a paixão de Rafael.

―E o pior: ela disse que sonhou hoje que eu a traía.

Meu coração pesa, mas tenho um coração pesado há tempo o bastante para não me importar. Se não se pode contar com o passado e nem com o futuro, só o presente lhe resta. E é assim: de segunda a sexta à espera do fim de semana. E não há forma melhor de se começar uma semana do que em busca da leveza de um amor livre e tranqüilo. E já que não temos um amor livre e tranqüilo, vamos com um que é escravo das vielas, dos corredores e escadas, um amor que não se revela, obscuro e suicida.

Não sabia onde pôr as mãos. Comecei a palitar os dentes.

Ela não via gravidade em nada. É uma menina linda e cínica, que fica triste só às vezes e aí conta a verdade, o que realmente sente. Isso esmaga meu coração, e isso eu só aprendi depois. Ali ainda acreditava que ela só queria mesmo tocar fogo nas coisas.

Ela disse que sonhou hoje que eu a traía…

―E o que senhor acha disso?

―Coincidências de um mau escritor.

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A galera cheira, os sinos dobram, o barulho não pára

Val, o gerente, destrata a funcionária, dizendo que ela não é muito inteligente. A outra ali tem uns peitos muito bons; não consigo precisar sua idade. Ela tem umas pernas muito boas, realmente viçosas, a bunda é um espetáculo à parte, ótima curvatura, a circunferência das nádegas é admirável. Ela definitivamente não é nova o bastante pra isso ser normal natural ―as mulheres, como se sabe, em sua maioria, passam a vida como se não fosse nada, elas nascem, crescem amadurecem, e ficam gostosas praticamente por acaso. Elas têm um pico, o auge de sua forma física. E tudo passa. Sem mais nem menos, ela vai, fica gostosa, depois passa, deixando claro que nada daquilo foi intencional ou planejado. Pelo menos não por ela.

Essa daí é um desses raros casos em que ela já está velha o bastante para não ter chances de ser gostosa mas é gostosa mesmo assim, como uma menina na flor da idade. As pernas perfeitas, quentes, sem marcas, a bunda redondinha no shortinho jeans, os peitos estão bem firmes, nenhuma marca também. Muito bem, muito bom, e não há marcas no rosto tampouco. As pessoas são como livros, ficam amassadas e amareladas, e esta aqui é um belo achado no sebo.

Mas essa galera com certeza cheira. A cara toda estourada, o cara cheira. Como ele faz a barba com uma cara tão irregular. Observo com toda atenção possível enquanto ele faz as contas. Os pêlos nascem aqui e ali, ele vestido com as melhores roupas da loja é uma coisa triste, eu fico triste com a moda e com o que ela faz com as pessoas. Não sei ainda como sua barba insiste em crescer nesse rosto destruído pelas espinhas, é triste como as coisas rolam pra algumas pessoas. Eu fico triste pensado que essas pessoas cheiram, que o Val dá um tapinha inadvertido na bunda da gostosa no estoque, que a outra burra chupa o pau do cara do caixa como se fosse um favor. Não dá. Não dá pra ficar pensando nas pessoas. Todo mundo é um poço de bosta.

*

No jornal, as coisas continuam as mesmas. Sábado, tento ler as notícias. De costas pro sol, o vento vira as páginas. Me obriga a ler os quadrinhos. Empreendimentos imobiliários saem voando, as latinhas caem da mesa e ficam indo de um lado pro outro, batendo contra a parede, rolando pelo chão. Eu tento manter a calma. Quadrinhos. Vamos pelos quadrinhos. Uma coluna, sei lá, notícias, matéria, novidades, crítica de alguma coisa as latinhas, por que fui tomar latinhas. E por que tantas? O vento levanta as cinzas, tudo é imundo. Dou um gole cai uma gota. Fico olhando o jornal absorvendo minha cerveja. O papel ondula, o líquido vai entrando pelas fibras, o pequeno ponto de espuma se desfaz, o líquido está todo no jornal agora. Era só uma gota, meu Deus, e os sinos do inferno não param de dobrar, trec, trec, craaacratatata, tin tantin.

Nada de engraçado acontece. Faz tempo que não fazemos merda nenhuma. Quando tudo é liberado, não sobra muita chance de fazer cagada. Penso frases soltas e deprimidas enquanto tomo banho. Preciso comprar uma garrafa de uísque. E arrumar a internet. Bater uma punheta na sala. Uma punheta na varanda. Realmente temos poucas opções hoje em dia.

*

Nós não temos uma relação. Eu quero falar isso. Eu nem te conheço, eu tenho vontade de dizer. O que seria mentira, pois eu conheço. Mas a única relação que temos é a seguinte: você me atormenta. É isso, você é só uma preocupação. E fala muito. Ela continua falando. Cara, fala tanto. Você não tem vontade de ficar quieta de vez em quando? Pergunto isso em voz alta.

Ela é inabalável. Ficar quieta? Ela ri. Eu queria só queria te contar, você tem que ler esse livro. Pelo menos essa parte. É muito boa! Eu não quero ler esse livro, eu não quero ler livro nenhum, meu Deus. E o barulho não pára.

Eu sou um ser humano infeliz, olhando desesperadamente pros lados, querendo pegar uma cerveja, evitando sentir seu cheiro. Eu odeio seu cheiro.

Eu quero tócar fogo neste apartamento.

A cidade é tão grande, porque você quer encher logo o meu saco? Tanta gente por aí pra você dar no saco, você vai dar logo no meu? Eu sou um cara especial agora? Eu não agüento.

Porra, que saudade de jogar bola.

Mas você não gosta de nada.

Eu odeio. Odeio tudo. Bato o cigarro na mesa.

Se o Corinthians não ganhar amanhã…

Bato o copo na mesa. O copo é lindo. Eu não tenho vontade de chutar o copo, por exemplo. Vou falar uma merda.

Quero comprar um email.

Um email?

Não, um isqueiro, falei errado.

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